Especialista afirma que regime do Irã tem apoio minoritário e se sustenta pela repressão
Milhares de iranianos se manifestaram em Teerã nesta segunda-feira (9) em apoio ao novo líder supremo do Irã, Mojtaba Khamenei. Figura discreta, porém altamente influente na República Islâmica, ele sucede ao pai, o aiatolá Ali Khamenei. Para o especialista Farhad Khosrokhavar, entrevistado pela RFI, no entanto, o regime conta com apoio minoritário da população iraniana e mantém sua estabilidade graças à repressão brutal da sociedade civil.
Apesar do risco de bombardeios israelenses e americanos, aposentados, religiosos de turbante, mulheres, em sua maioria usando chador preto, e até crianças lotaram a Praça Enghelab na capital iraniana, para marchar ao som de música religiosa.
Mojtaba Khamenei, de 56 anos, considerado próximo dos conservadores por seus laços com a Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC), o exército ideológico do país, foi escolhido por uma Assembleia formada por 88 clérigos xiitas. A nomeação foi anunciada na noite de domingo, em uma declaração lida solenemente na televisão estatal.
Para o professor emérito da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais da França (EHESS) e especialista no regime iraniano, Farhad Khosrokhavar, apesar das manifestações, Mojtaba Khamenei não contará com amplo apoio popular.
"Na realidade, o regime, na melhor das hipóteses, controla de 5% a 10% da população. Dentro dessa minoria extremamente pequena, talvez haja um ou dois por cento diretamente alimentados, financiados e privilegiados pelo regime, que podem ser mobilizados a qualquer momento. Sempre que há necessidade de ir às ruas, eles vão", afirma.
O professor acrescenta que a oposição dificilmente se manifestará, tanto por medo de bombardeios israelenses e americanos quanto pela repressão interna.
"Houve um movimento muito significativo no início de janeiro de 2026. Havia dezenas de milhares de pessoas nas ruas, que foram brutalmente reprimidas pelo regime. Então, a priori, não ouviremos críticas públicas a essa decisão", diz ele, referindo-se à escolha de Mojtaba Khamenei.
Sem apoio do regime
Segundo o especialista, o novo líder supremo também não conta com apoio unânime dentro do próprio regime. "Provavelmente haverá algum tipo de acerto de contas, já que ele não tem consenso. Além disso, duvido muito que tenha havido uma eleição genuína pela assembleia de clérigos. Dada a situação, não vejo como poderiam ter se reunido e emitido suas opiniões. Acredito que ele foi eleito sob pressão do exército da Guarda Revolucionária."
Outro ponto, destaca Khosrokhavar, é que Mojtaba Khamenei não é um aiatolá, mas um hojatoleslam, um religioso de posição intermediária. "Também nesse aspecto deve haver reclamações por parte das escolas religiosas, pois o líder supremo deveria ser alguém com conhecimento religioso universalmente reconhecido entre seus pares, o que claramente não é o caso", afirma.
"Dito isso, é preciso enfatizar que o regime tenta mostrar estabilidade. O que não é totalmente falso, mas essa estabilidade se baseia na repressão brutal da sociedade civil iraniana", continua. "A sociedade iraniana, em sua grande maioria, é de fato contrária ao regime. Houve dezenas de milhares de mortes em janeiro, e ainda mais durante outros protestos, o que evidencia a dimensão da oposição."
O contexto permanece explosivo. Israel afirmou, na semana passada, que o novo líder supremo — nomeado para um cargo vitalício e que detém a palavra final sobre as principais políticas do país — seria "um alvo". O presidente americano também alertou que não aceitará Mojtaba Khamenei como sucessor do pai. Donald Trump afirmou, no domingo, que o novo líder "não durará muito" sem sua aprovação, mesmo antes do nome de Mojtaba Khamenei ter sido divulgado.