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Escritora indígena lança versão em francês de livro que denuncia processo colonial em verso e prosa

A escritora, pesquisadora e curadora de literatura indígena brasileira e arte Trudruá Dorrico, pertencente ao povo Macuxi, lançou na França uma versão de seu livro "Tempo de Retomada" traduzido como "Le Temps de la Reconquête". A obra, que mistura prosa, poesia e manifesto político, nasceu de uma indignação da autora ao ler descrições exóticas e preconceituosas sobre seu povo em livros acadêmicos, onde eram retratados como "não confiáveis".

29 abr 2026 - 09h30
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Luiza Ramos, da RFI em Paris

A inspiração para escrever o livro veio através de pesquisas sobre o povo Macuxi. Trudruá conta que se deparou com representações depreciativas, nas quais os indígenas eram descritos com uma linguagem exótica que ela não se identificava. "Aquilo tudo me indignou bastante. E aí eu comecei a escrever 'Tempo de Retomada', que também nasce a partir de uma fala de uma parenta Guarani Kaiowá [...] quando ela diz assim com muita propriedade: 'como você se atreve', diante de toda a expropriação territorial", explica a autora.

"O 'Tempo de Retomada' foi feito a partir de um estudo de livros que eu estava lendo sobre o povo Macuxi. Eu tenho uma característica que eu não sei responder na ponta da língua, eu respondo escrevendo através de poemas, ensaios ou mesmo aforismos, como uma forma de resposta a todo esse material que eu estava lendo sobre a descrição do meu povo", diz.

O conceito central da obra é a "retomada", termo que, segundo Trudruá, vai além da recuperação legal de terras expropriadas. Para a autora, a retomada é também um processo de reafirmação identitária diante de um Estado que, historicamente, tentou definir quem era ou não indígena. Ela explica que o que a antropologia denomina "etnogênese", os povos indígenas chamam de retomada: o ressurgimento e a afirmação de sua existência independente de classificações externas.

Identidade Indígena e o direito à cidade

Para Trudruá, que habita na França há cerca de nove meses e já teve uma experiência de residência artística em Paris em 2023, os indígenas têm o direito a viver a cidade sem perder a identificação inerente à sua origem. "Quando eu digo a minha retomada indígena, ela passa da floresta, da Amazônia pela cidade e qualquer outra capital do mundo que eu queira habitar, isso não vai me tirar a minha identidade", pontua.

"Eu cresci sem essas referências, sem ler livros que me ensinassem sobre isso. Então, eu gostaria de ser uma referência para a minha geração e para os jovens terem o que ler sobre ser indígena na cidade e que isso não vai lhe tirar o pertencimento", afirma Trudruá.

"Um exemplo muito claro e análogo é que você não deixa de ser brasileiro porque você mora em Paris ou porque você mora na China ou porque você aprende uma língua ou uma cultura do outro, a sua identidade permanece intacta. Por que a identidade indígena seria diferente? Então eu vou continuar sendo Macuxi. A ideia do livro é pensar que a minha subjetividade é primeiro Macuxi, independente dos trânsitos que eu faço, de comunidade para aldeia, de comunidade para a cidade, de cidade para uma metrópole", exemplifica a pesquisadora.

Desafios da tradução para o francês

A autora, que já tem novos projetos para traduzir seu livro para o inglês, evidencia os desafios de adaptar seu livro para outras línguas. Inclusive, Trudruá revela que já realizou a tradução de algumas de suas obras para o Macuxi com o apoio de sua mãe, fluente no dialeto indígena. No caso do francês, idioma que ela estuda há alguns anos, ela sentiu que alguns termos precisavam de termos análogos ou de explicações em notas de rodapé, que aparecem no final da edição francesa.

"Durante a tradução, eu negociei muito com a Paula [Anacaona, tradutora da edição], porque os sentidos que têm na língua portuguesa não tinham na língua francesa, como o conceito de 'pardo'. Então nós negociamos um termo análogo. [...] Na tradução, a gente percebeu que o movimento indígena francês entende que o termo indigène e tribu, como no Brasil 'índio' e 'tribo', são termos que implicam uma inferioridade. Então aqui politicamente a gente adotou como palavra autochtone e peuple, para reconhecer a soberania plurinacional e também uma forma mais respeitosa de se referir a eles", explica Trudruá Dorrico.

Trudruá Dorrico Macuxi é curadora de uma exposição, Passeurs, no Centro de Arte Contemporânea Frans Krajcberg, que reúne obras de artistas indígenas contemporâneos no 15° distrito de Paris até o dia 18 de julho.
Trudruá Dorrico Macuxi é curadora de uma exposição, Passeurs, no Centro de Arte Contemporânea Frans Krajcberg, que reúne obras de artistas indígenas contemporâneos no 15° distrito de Paris até o dia 18 de julho.
Foto: RFI

Em Paris, Trudruá Dorrico também assina a curadoria da exposição 'Passeurs' no Centro de Arte Contemporânea Frans Krajcberg, em cartaz até 18 de julho. A mostra propõe um diálogo sensível entre artistas indígenas contemporâneos e a relação com a natureza. Ao convidar o público a reconhecer as cosmovisões indígenas como saberes vivos, a curadoria de Trudruá articula memória ancestral e presente histórico, afirmando territórios, existências e lutas no campo das artes.

Dia 19 de maio, em função da divulgação de seu livro na versão em francês, a autora participa de um encontro literário na livraria feminista Un Livre et Une Tasse de Thé, no 10° distrito de Paris. Já no dia 30 maio, ela e outros autores estarão na Maison de l'Amérique Latine, em uma mesa redonda dedicada à literatura latino-americana. Todas as informações estão disponíveis no Instagram de Trudruá Dorrico.

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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