'Eldorado': Marcello Quintanilha lança thriller social ambientado na classe trabalhadora dos anos 50
O quadrinista e escritor brasileiro Marcello Quintanilha lança na Europa seu novo álbum, "Eldorado", publicado em francês pela editora belga Le Lombard. A obra retoma a trajetória do pai, Hélcio Carneiro Quintanilha, ex-jogador profissional de futebol em Niterói, tema que o autor já havia explorado em livros anteriores.
"Eldorado" é um thriller neorrealista ambientado no Brasil entre as décadas de 1950 e 1970. A narrativa acompanha uma família modesta de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense: o caçula, Hélcio, sonha em seguir carreira no futebol, enquanto o irmão mais velho, Luiz Alberto, inicia um percurso de delinquência. O livro transforma essas vidas em um drama policial, familiar e político que entrelaça ficção e memória para retratar um país que se desenvolve marcado por extrema desigualdade.
O álbum começa com uma sequência em preto e branco na qual Quintanilha reconstrói a formação da sociedade brasileira logo após o fim da escravidão, em 1888, e a Proclamação da República, no ano seguinte. O autor mostra como os africanos e seus descendentes, a força de trabalho que sustentou a economia agrária por séculos no Brasil, foram abandonados pelo novo Estado republicano, que, no início do século XX, optou por substituí-los por imigrantes europeus numa política deliberada de branqueamento.
Com a industrialização tardia, em parte financiada pelo capital inglês, o futebol é introduzido no país - primeiro como esporte de ricos, depois apropriado pelas classes populares, sobretudo pela população negra e pobre. Esse movimento, considerado "revolucionário" por Quintanilha, transformou o futebol em expressão social e cultural, e em um dos eixos da identidade brasileira.
Para Quintanilha, vencedor do troféu Fauve d'Or no Festival de Quadrinhos de Angoulême (2022) com o álbum "Escuta, Formosa Márcia", revisitar esse percurso é essencial: "Para mim é sempre importante ter a perspectiva do passado, quais são os pontos que nos ligam com o passado, que têm efeito na nossa vida na atualidade."
Os personagens Hélcio e Luiz Alberto representam dois caminhos possíveis num Brasil desigual: o sonho do futebol e o desvio para a criminalidade. O autor conta que se inspirou na fábula do filho pródigo. "Seria um pouco como recriar essa fábula no seio da classe trabalhadora."
Segundo Quintanilha, Hélcio reproduz a história que trata do pai do escritor, fortemente ancorada na realidade, enquanto a do irmão é ficcional. "Toda a trama policial que a história tem, tudo isso é ficção. Mas espelhada no que foi a realidade do meu pai, o que acho fascinante."
Duque de Caxias imaginária
O cenário é ambientado em Duque de Caxias, onde o pai de Quintanilha morou antes de se mudar com a família para Niterói, mas a cidade foi deliberadamente recriada pelo autor. A imagem nasceu das histórias ouvidas na infância. "Enquanto eu cresci, muitas vezes eu ouvia o meu pai contar as histórias do que ele via na cidade de Duque de Caxias, então eu criei uma Duque de Caxias imaginária na minha cabeça."
Sobre a linguagem visual, "Eldorado" traz um grafismo diferente dos livros anteriores. "A história determina a maneira como ela vai ser contada", explica. A cada livro, ele busca técnicas e decupagens novas. "Cada novo livro é começar exatamente do zero, absolutamente do zero, o que me coloca sempre numa posição de estar sempre pisando em ovos, porque eu nunca sei exatamente qual é o terreno no qual estou me movendo." E o desconforto vira potência. "O que, do ponto de vista artístico, eu acho muito instigante, porque te coloca numa posição de desconforto que pode ser muito interessante."
Acolhimento do público
"Eldorado" é o romance gráfico mais longo do autor (272 páginas), publicado primeiro em francês, com tradução ainda por definir. O livro estará disponível nas livrarias em 30 de janeiro, com distribuição inicial na Bélgica, França, Suíça e no Canadá.
Vivendo em Barcelona há vários anos, quando Quintanilha fala do interesse do público europeu pela sua obra, ele descreve uma relação intensa e acolhedora, em consonância com o Brasil. "Eu acho magnífico. Eu sinto exatamente a mesma coisa que eu sinto no Brasil", afirma. "Eu acho o público sempre muito aberto, sempre muito interessado nas coisas que eu escrevo."
Mesmo quando escreve para leitores de fora, Quintanilha afirma que suas histórias permanecem ancoradas no Brasil - e que isso não impede a conexão. "Todas as minhas histórias estão baseadas na experiência que eu tenho no Brasil, na vida que eu conheci no Brasil, na cultura brasileira, todas as minhas referências vêm do Brasil, a maneira como eu concebo as personagens, a maneira como eu concebo a história (...) todas as dinâmicas fazem referência à cultura brasileira e à maneira como a ficção brasileira foi sendo desenvolvida no século XX." O alcance surpreende. "E com todas essas diferenças, você ser capaz de chegar a pessoas que não necessariamente têm um conhecimento do que é o Brasil (…) e você conseguir chegar a essas pessoas de uma forma tão intensa, exatamente como acontece quando você chega ao público do Brasil, é realmente incrível. É difícil de descrever a sensação."
Quintanilha aposta na dimensão humana compartilhada, que atravessa culturas. "Eu acho que as minhas histórias tratam de um aspecto muito humano das personagens e eu acredito que todos nós compartilhamos essa mesma condição, não é?" São emoções comuns, apesar das diferenças. "Todos nós somos atravessados pelos mesmos medos, os mesmos receios, as mesmas ansiedades, as mesmas aspirações, culturalmente diferentes, de um país para outro, mas essencialmente compartilhamos essas coisas." Questionado se, ao tocar nessas emoções comuns, ele não teria chegado a uma linguagem universal, ele pondera que "a palavra é muito forte" - e pertinente.