El Niño pode atingir intensidade inédita com efeitos sem precedentes até o fim do ano, alerta ONU
As Nações Unidas alertaram nesta quarta-feira (21) para a necessidade de uma mobilização internacional urgente diante do fortalecimento do El Niño, que pode atingir intensidade inédita até o fim do ano. A ONU pede que governos e instituições financeiras liberem recursos antes da chegada dos desastres para proteger populações vulneráveis de secas, enchentes, ondas de calor e perdas agrícolas. Especialistas temem impactos globais prolongados sobre alimentação, saúde e abastecimento.
A ONU alertou que o atual El Niño pode atingir intensidade inédita até o início de 2027, superando recordes históricos e provocando secas, enchentes e ondas de calor extremas no mundo. Para evitar uma crise humanitária de grandes proporções, agências internacionais pedem a governos e instituições financeiras a liberação urgente e antecipada de recursos. O objetivo é proteger a saúde, a agricultura e comunidades vulneráveis, sobretudo na América Latina, na África e na Ásia, antes dos desastres.
A advertência foi lançada conjuntamente pela secretária-geral da Organização Meteorológica Mundial (OMM), Celeste Saulo, e pelo chefe das operações humanitárias da ONU, Tom Fletcher, durante entrevista coletiva em Genebra.
"Hoje, lançamos um apelo conjunto em favor de uma ação antecipada urgente e coordenada", afirmou Saulo. "Não podemos impedir o El Niño, mas podemos evitar muitas de suas consequências humanas mais graves."
Ao lado da dirigente da agência meteorológica, Fletcher pediu que governos, bancos de desenvolvimento e instituições financeiras internacionais disponibilizem recursos antes da chegada dos desastres.
"Pedimos aos países, bancos de desenvolvimento e instituições financeiras internacionais para liberar financiamentos com esse objetivo antes que os danos ocorram, e não depois", declarou.
O alerta ocorre no momento em que as previsões da OMM apontam para um agravamento acelerado do fenômeno nos próximos meses. Segundo a agência da ONU, o atual episódio de El Niño poderá atingir seu pico entre o fim de 2026 e o início de 2027, com temperaturas da superfície do oceano no Pacífico tropical registrando níveis nunca observados desde o início das medições modernas.
Os países andinos estão tentando criar uma resposta coordenada porque secas, enchentes e deslizamentos associados ao El Niño frequentemente ultrapassam fronteiras nacionais. A iniciativa foi discutida no âmbito do Comité Andino para a Prevenção e Alerta de Desastres (CAPRADE), mecanismo da Comunidade Andina voltado à cooperação em situações de emergência. A declaração conjunta dos chanceleres andinos menciona explicitamente a necessidade de ações conjuntas e atenção especial às zonas fronteiriças compartilhadas.
Fenômeno pode superar recordes históricos
De acordo com a mais recente atualização climática sazonal da OMM, as águas superficiais do Pacífico equatorial poderão atingir anomalias de até 3,8°C acima da média entre novembro e janeiro. Caso a projeção se confirme, o episódio atual ultrapassará o forte El Niño de 2015-2016, considerado até agora uma das referências históricas para eventos extremos do fenômeno.
A organização estima que existe probabilidade próxima de 100% de que o El Niño persista pelo menos até fevereiro de 2027. As previsões são baseadas em consensos elaborados por centros meteorológicos nacionais e internacionais, que utilizam dados de satélites, boias oceânicas e observações atmosféricas.
O El Niño é um fenômeno natural caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Pacífico equatorial. Essa alteração afeta a circulação atmosférica global e modifica padrões de chuva e temperatura em diferentes partes do mundo.
Na prática, isso significa que determinadas regiões podem enfrentar secas prolongadas, enquanto outras ficam mais sujeitas a chuvas intensas e inundações. Ondas de calor também tendem a se tornar mais frequentes ou severas em diversos países.
A OMM observou que o fenômeno se desenvolve em um contexto climático particularmente preocupante, marcado pelo aquecimento global e por temperaturas oceânicas recordes. Segundo a entidade, o calor acumulado nos oceanos cria condições favoráveis para que os efeitos do El Niño sejam ainda mais intensos.
Preocupação humanitária
Para as agências humanitárias da ONU, a principal preocupação não está apenas nos recordes meteorológicos, mas nas consequências sociais do fenômeno.
Em julho, Fletcher já havia advertido que o novo El Niño poderia provocar impactos ainda mais severos que os observados durante o episódio de 2023-2024. Segundo ele, aquele evento deixou dezenas de milhões de pessoas necessitando de ajuda alimentar, assistência médica, acesso à água potável e apoio à produção agrícola.
As regiões consideradas mais vulneráveis incluem áreas da América Latina, do leste e do sul da África, além de partes da Ásia e do Pacífico, onde muitas comunidades já convivem com insegurança alimentar, deslocamentos populacionais e fragilidade econômica.
A estratégia defendida pela ONU é a chamada "ação antecipada", um modelo que busca utilizar previsões meteorológicas para liberar recursos antes da ocorrência dos desastres.
Segundo o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA), esse sistema permite proteger plantações, estoques de água, rebanhos e meios de subsistência antes que secas ou enchentes atinjam seu pico, reduzindo custos e evitando perdas humanas.] A agência argumenta que a assistência preventiva costuma ser mais eficaz e menos onerosa do que as operações emergenciais realizadas após a instalação de uma crise humanitária.
Agricultura, alimentação e saúde em risco
O temor das organizações internacionais é que o fortalecimento do El Niño provoque uma sucessão de impactos em cadeia.
Em junho, a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) e o Programa Mundial de Alimentos (PMA) lançaram um apelo internacional para financiar medidas preventivas destinadas a quase nove milhões de pessoas em 22 países considerados especialmente expostos aos riscos climáticos do fenômeno.
Entre as ações previstas estão transferências de renda, distribuição de sementes resistentes à seca ou a enchentes, sistemas de armazenamento de água, proteção de rebanhos e reforço da infraestrutura contra inundações.
A saúde pública também preocupa as agências internacionais. Em setembro, a Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgou uma análise específica sobre os riscos sanitários associados ao El Niño de 2026, defendendo a preparação dos sistemas de saúde e o monitoramento de populações mais vulneráveis aos eventos climáticos extremos.
América Latina
Na América Latina, experiências recentes ajudam a explicar a preocupação das autoridades internacionais. Relatórios da OMM indicam que o episódio de 2023-2024 esteve associado a secas severas, perdas agrícolas, ondas de calor e eventos extremos que afetaram diferentes países da região. Entre os impactos observados estiveram dificuldades de abastecimento de água, prejuízos à produção rural e alterações importantes nos regimes de chuva.
Diante desse cenário, a mensagem transmitida pela ONU nesta quarta-feira é que ainda existe uma janela de preparação. Para as agências das Nações Unidas, o desafio agora é transformar previsões científicas em medidas concretas capazes de evitar que um fenômeno climático potencialmente histórico resulte também em uma crise humanitária de grandes proporções.
Com agências
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