Se 2011 foi o ano em que a expressão “Primavera Árabe” se formou para dar conceito comum à série de revoltas e protestos que sacudiram e modificaram países do Norte de África e do Oriente Médio, 2012 chega ao seu fim com um novo esboço de nomenclatura. Nos últimos meses, o título “Inverno Árabe” começou a ser usado por alguns observadores para interpretar o que se seguiu aos 12 meses iniciais que abriram a perspectiva de uma mudança estrutural no mundo árabe.
A passagem da Primavera ao Inverno (ou ainda ao Outono, como alguns optaram), indica o recrudescimento, o esfriamento, a pausa ou mesmo a derrocada do fenômeno. Mas em que medida os eventos de 2012 indicam a morte da Primavera, do mesmo modo que algumas plantas não sobrevivem ao frio e à neve? Ou seria o caso do inverno enquanto movimento de hibernação para o retorno após o retorno ao Verão?
Sinais do Inverno? Síria e Península Arábica
Em 2011 caíram e floresceram governos. Foram os casos da Tunísia e Egito, onde protestos e conflitos derrubaram os presidentes Ben Ali e Hosni Mubarak; do Marrocos, onde os protestos, com dose bem menor de violência, mudaram o governo parlamentar; e da Líbia, onde a guerra interna de governistas e rebeldes levou a uma intervenção internacional até a queda e a morte de Muammar Kadafi.
Mas 2012 não assistiu a movimentos desta intensidade. O caso mais óbvio é a Síria. O conflito que já se iniciara ano passado e apontava para o sexto capítulo da Primavera foi o primeiro a prenunciar a mudança de estação. A revolta síria não tardou para se ser transmutada à categoria de guerra civil para compor um episódio mais complexo, violento e desgastante. O país termina o ano com pouco do que marcou a Primavera. Seu Inverno é de uma nação fragmentada entre os seguidores de Assad e uma oposição que oscila entre a união e a desunião. Com Damasco, Aleppo, Homs e tantas outras cidades devastadas, não há mais espaço para protestos.
A Península Arábica também parece não ver muito da Primavera. O Iêmen, é verdade, mudou de governo após a série de atentado terroristas que levaram à renúncia de Ali Abdullah Saleh; quem assumiu em fevereiro foi Abd Rabbuh Mansur Hadi, seu vice-presidente desde 1994 – elegeu-se num pleito em que foi o único candidato. E duas outras mudanças se avistam: No Catar, o emir Hamad bin Khalifa al Thani, no poder desde 1995, disse que o país passará pelas primeiras eleições legislativas da história em 2013. E um novo premiê foi nomeado no final de 2011 pelo emir do Kuwait, Sabah al-Ahmad al-Jaber al-Sabah, no poder desde 2006.
Os vizinhos peninsulares do Iêmen vivem situação tão ou mais estável. Principal potência da região, a Arábia Saudita não protagonizou protestos contra a estrutura política absolutista encarnada no rei Abdullah, no trono das Duas Mesquitas Sagradas desde 2005. Em Omã, o sultanato de Qaboos bin Said al-Said, no poder desde 1970, não foi desafiado. Situação similar ocorrer no Bahrein e nos Emirados Árabes Unidos.
Sinais do Verão? Norte da África
As nações árabes do Norte africano parecem compor um quadro de situação mais elaborado e propenso a discórdias das estações. A Tunísia se encaminha para o estabelecimento de uma estrutura política claramente distinta do período de Ben Ali: o país passou por eleições legislativas de caráter amplamente democrático e vê emergir uma nova elite política marcada pela preponderância dos islâmicos em meio a grupos mais liberais. Uma nova Constituição começa a ser escrita. E ainda há protestos nas ruas.
A Líbia trabalhou em 2012 para se erguer do 2011 mais sangrento da Primavera e dos mais de 40 anos de governo centralizado e pouco constitucional de Kadafi. O Conselho Nacional de Transição (CNT), grupo criado durante a guerra apoiada pela Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), manteve com aparente sucesso seu capital político a ponto de organizar eleições democráticas inéditas no dia 7 de julho, da qual emergiu como principal vencedor o grupo do ex-premiê Mahmoud Jibril, na coalizão Aliança Força Nacional. Enquanto o país trabalha na formação de um grupo que redigirá a Constituição líbia, a Justiça do país disputa com o Tribunal Penal Internacional o direito de julgar Saif al-Islam, o filho tido como herdeiro político de Kadafi.
E se o Egito foi o caso de maior vigor democrático de 2011, com as emblemáticas mobilizações populares contra Hosni Mubarak, o presidente deposto em 11 de fevereiro, esse título parece se manter em 2012. Os egípcios foram às urnas em junho para, numa disputa eleitoral acirrada, escolher o islamita Mohammed Mursi e denegar Ahmed Shafiq, ex-premiê de Mubarak. Mas muitos observadores viram sinais do Inverno quando Mursi propôs reformas polêmicas que blindam seus poderes. Ele afirma que seu objetivo é “salvar a revolução”, mas muitos de seus críticos voltaram a tomar a Praça Tahrir em expressa descrença no presidente e em vigor similar àquele que ajudou a elegê-lo.
Indícios da próxima estação
Haveria como determinar o crescimento, a persistência ou a morte de um movimento histórico durante seu curso de vida? Alguns usos do Inverno ou do Outono indicam o pessimismo ocidental com o curso das reformas no mundo árabe, mas uma postura mais prudente e contemplativa pode ser mais proveitosa para entender o que se passa em países que, em passado recente, viviam realidades tão distintas da brasileira ou americana em geral.
Há muito por ocorrer. Tunísia, Líbia e Egito estão em franco processo de debate e construção daquilo que o Ocidente considera sociedades marcadas por maior liberalismo e constitucionalismo. Ao mesmo tempo, o elemento religioso (islâmico) é uma realidade no curso até agora traçado, pelo menos, pela nova Tunísia (através do Partido Ennahda), pelo novo Egito (Partido Liberdade e Justiça, ligado à Irmandade Muçulmana) e pelo novo Marrocos (Justiça e Liberdade).
Mas a grande expectativa é novamente a Síria, cuja guerra já consumiu mais de 20 mil vidas e devastou as maiores cidades do país. De fato, esta talvez seja a grande pergunta que a Primavera de 2013 lança: que impacto teria a queda do regime de Assad? Ou ainda: o que significaria para a estação vindoura o fracasso dos rebeldes sírios?