Discurso de Macron na ONU está 'fora de sintonia' e é 'ultrapassado', diz jornalista palestino
O discurso do presidente francês, Emmanuel Macron, na Conferência de Alto Nível sobre a Palestina na ONU, na segunda-feira (23), suscita fortes reações. Saudado por defensores da existência de dois Estados e pela imprensa francesa, a fala não convenceu parte da população palestina. É o caso do jornalista palestino Qassan Muaddi, residente na Cisjordânia, entrevistado pela RFI nesta terça-feira (23).
O discurso do presidente francês, Emmanuel Macron, na Conferência de Alto Nível sobre a Palestina na ONU, na segunda-feira (23), suscita fortes reações. Saudado por defensores da existência de dois Estados e pela imprensa francesa, a fala não convenceu parte da população palestina. É o caso do jornalista palestino Qassan Muaddi, residente na Cisjordânia, entrevistado pela RFI nesta terça-feira (23).
"Acho que o discurso de Emmanuel Macron está um pouco fora de sintonia com a consciência da realidade deste, por assim dizer, conflito. Ficou evidente - e isso ninguém pode negar - que se trata de uma situação colonial, onde não há igualdade, onde há um ocupante e um ocupado, um colonizador. É simples assim", afirmou Muaddi, redator do site Hara 36. "É um povo que está sendo apagado e que não quer ser apagado da geografia e da história", acrescentou.
Na avaliação de Muaddi, Macron tentou a todo custo manter "uma velha narrativa que já está ultrapassada". Segundo o jornalista, "esse reconhecimento na ONU trata a questão do Estado palestino apenas como uma questão política abstrata", quando a situação vivida pelos palestinos residentes nos dois territórios é totalmente concreta.
"A Palestina é formada por milhares de pessoas, milhares de famílias que vivem em uma terra há séculos. E que têm uma identidade, uma cultura, uma tradição, que têm sonhos para o futuro e que estão ameaçadas", enfatiza o jornalista, referindo-se ao avanço dos assentamentos na Cisjordânia e à guerra travada em Gaza contra o Hamas.
Muaddi também vê uma contradição no fato de a França defender o reconhecimento do Estado palestino e continuar vendendo armas para Israel. "Só no ano passado, em 2024, ou seja, no meio do genocídio em Gaza, a França entregou 16 milhões de euros em armas a Israel", criticou.
Um discurso "poderoso e significativo"
Já a ex-embaixadora palestina Leïla Shahid, que representou os interesses dos palestinos na União Europeia, na Bélgica e em Luxemburgo, classificou o discurso de Macron como "poderoso e significativo". Em entrevista à RFI, ela avalia que a fala do presidente francês superou suas expectativas e trouxe esperanças de paz.
"Foram mais do que as palavras que eu esperava. Eu acho que Macron encontrou um tom e encontrou palavras, como 'chegou o momento da paz', que me tocaram profundamente", avalia. "Vejo que ele compreendeu o desejo de dignidade [do povo palestino]", afirmou.
Além disso, para a diplomata, o presidente francês também considerou "o medo do povo israelense". "Israel tem medo de se deparar com um Estado palestino que ameaçaria a sua segurança. Macron tranquilizou os israelenses", avalia.
Iniciativa divide políticos, mas agrada imprensa francesa
Na França, a esquerda comemorou "uma vitória tardia" e a direita está "reticente", denunciando a falta de condições para a criação do Estado palestino. Políticos conservadores do país consideram a medida como uma vitória para o Hamas, apesar de a proposta francesa de paz descartar o movimento islamista palestino do processo.
Entre os jornais franceses, o tom é elogioso: "um golpe de mestre", diz o jornal econômico Les Echos. Segundo o diário, o reconhecimento aumenta a pressão sobre Israel em relação à solução de dois Estados e dá uma perspectiva política aos palestinos.
No entanto, sem o apoio dos Estados Unidos - aliado incondicional de Israel - o caminho para a soberania ainda será longo. O jornal econômico antecipa que Trump se reúne nesta terça-feira com países árabes, à margem da Assembleia Geral da ONU, para discutir o futuro de Gaza, e lembra que o presidente americano já defendeu transformar o enclave palestino em um balneário de luxo do Oriente Médio.
O jornal Libération acredita que essa onda de reconhecimento da Palestina, iniciada pela França, visa tornar inoperante a estratégia israelense de destruição total do território, que enterra a solução dos dois Estados. O isolamento de Israel pode levar o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, a adotar medidas de retaliação unilateral, acredita o jornal progressista. Entre as possibilidades está o fechamento do consulado francês em Jerusalém ou a anexação completa da Cisjordânia.
Sanções contra Israel
A "vitória diplomática" de Macron é vista na ONU como uma ambição de impor uma reavaliação da relação da Europa com Israel. Para que o ato seja realmente positivo, seria necessário impor sanções a Israel para forçar o país a negociar um cessar-fogo e interromper o massacre em Gaza, comenta o jornal Le Monde.
O diário Le Figaro lembra que a França não é o primeiro país a reconhecer o Estado da Palestina, mas é, ao lado do Reino Unido, a primeira potência ocidental e o primeiro membro permanente do Conselho de Segurança da ONU a tomar essa iniciativa histórica. No entanto, um editorialista do jornal critica o calendário desse reconhecimento, feito sem um processo político adequado, na "esperança de que o Estado palestino vá surgir como um passe de mágica".
Macron tentou marcar a história, mas, no terreno, a guerra continua, salienta o Le Parisien. Segundo o diário, a decisão do presidente preocupa a comunidade judaica na França, que teme o aumento de atos antissemitas no país.