Diretora da Berlinale recebe manifestações de apoio após rumor sobre demissão
Artistas e membros da indústria cinematográfica saem em defesa de Tricia Tuttle, ameaçada de demissão após controvérsia envolvendo manifestações pró-palestinos e críticas a Israel no Festival de Cinema de Berlim.Após se tornar o centro de uma grande polêmica que gerou fortes reações de políticos, artistas e cineastas, a diretora do Festival Internacional de Cinema de Berlim, Tricia Tuttle, recebeu uma forte onda de apoio nesta quinta-feira (26/02).
Mais de 500 funcionários da Berlinale manifestaram publicamente seu apoio à Tuttle, após uma reportagem de um jornal alemão apontar que ela poderia ser demitida em razão de manifestações políticas ocorridas durante o evento.
Um comunicado divulgado no portal de internet da Berlinale afirma que os funcionários do festival "falam a uma só voz em apoio unânime à extraordinária Tricia Tuttle como diretora". No documento, a equipe elogiou a "clareza, integridade e visão artística" que a diretora trouxe para a Berlinale.
Mantida no cargo, por ora
A carta foi publicada enquanto o conselho de supervisão do festival se reunia em sessão extraordinária nesta quinta-feira, convocada pelo ministro da Cultura da Alemanha, Wolfram Weimer, para tratar do caso. No entanto, a reunião não resultou na demissão da diretora, ao contrário do que dizia uma reportagem publicada na quarta-feira do jornal alemão Bild.
Segundo o jornal, Weimer e Tuttle teriam concordado que ela não teria condições de permanecer à frente do festival, após a reação política gerada pelos discursos na cerimônia de premiação, em 22 de fevereiro.
O Bild também mencionou uma fotografia que supostamente compromete a credibilidade de Tuttle aos olhos do governo alemão. O jornal conservador descreveu a foto, de 15 de fevereiro, da diretora do festival posando com a equipe do filme Chronicles From a Siege ("Crônicas de um cerco") dirigido pelo cineasta palestino-sírio Abdallah Alkhatib, como um "escândalo" e uma "foto de propaganda".
Na imagem, membros da equipe do filme usam um kufiya - o lenço tradicional palestino - e uma pessoa segura uma bandeira palestina. A própria diretora não usa nenhum símbolo.
"As discussões sobre a direção da Berlinale continuarão nos próximos dias entre a diretora, Tricia Tuttle, e o conselho de supervisão", disse um porta-voz do Ministério da Cultura. Fontes próximas aos participantes indicaram que as conversas, lideradas por Weimer na Chancelaria Federal em Berlim, foram "construtivas e abertas".
Cineasta acusa Alemanha de apoiar genocídio em Gaza
Declarações feitas durante o festival interpretadas como anti-Israel também foram discutidas na reunião.
No domingo, o diretor sírio-palestino Abdallah Alkhatib, que recebeu o prêmio de melhor filme de estreia com Chronicles From a Siege, fez um forte discurso criticando o apoio alemão a Israel e dizendo que Berlim seria cúmplice de um genocídio na Faixa de Gaza.
Alkhatib afirmou que, como refugiado na Alemanha, havia sido advertido a não ultrapassar "linhas vermelhas" em seu discurso. Mesmo assim prosseguiu dizendo que "Eles são cúmplices do genocídio israelense em Gaza. E acredito que sejam inteligentes o suficiente para reconhecer essa verdade. Mas optam por ignorá-la."
Weimer rejeitou a acusação. "Essas falsas alegações são maliciosas e envenenam o debate político. Elas destroem a apreciação da arte cinematográfica na Berlinale", disse Weimer ao jornal Tagesspiegel.
A Alemanha é vista como uma das maiores apoiadoras de Israel e seu segundo maior fornecedor de armas. Esse apoio se deve sobretudo à responsabilidade histórica do país pelo Holocausto.
Também geraram polêmica os comentários do presidente do júri do festival, o cineasta alemão Wim Wenders, sugerindo que o festival deveria se manter fora da política. Cerca de 80 líderes da indústria reagiram à declaração ao assinarem uma carta acusando a Berlinale de silenciar sobre a guerra em Gaza.
Apoio maciço do setor cinematográfico
Nesta quinta-feira, cineastas alemães e internacionais também se opuseram a uma possível demissão de Tuttle em uma carta aberta assinada cerca de 700 representantes do setor cinematográfico, incluindo a atriz Tilda Swinton e o diretor Ilker Çatak, cujo filme Yellow Letters ("Cartas amarelas") que levou o Urso de Ouro de melhor filme na Berlinale deste ano.
A diretora também recebeu o apoio de cinco importantes cineastas israelenses, que alertaram em uma carta aberta separada que "demitir Tuttle seria um erro dramático".
A declaração foi assinada pelo codiretor do filme Sem chão Yuval Abraham, premiado na Berlinale em 2024; Nadav Lapid, de Sinônimos, vencedor o Urso de Ouro em 2019; e Tom Shoval de Uma Carta para David, um filme sobre um israelense mantido refém em Gaza que foi exibido no festival do ano passado
O documento diz ser "um sinal problemático" quando "consequências pessoais são derivadas de declarações individuais ou interpretações simbólicas".
A Academia Alemã de Cinema alertou para um ataque ao "núcleo de um festival de cinema independente". "Estamos consternados com a violação deste espaço e com a tentativa de influência política na gestão de um dos festivais de cinema mais renomados e importantes do mundo", disse a entidade em um documento que, até a noite de quinta-feira, já havia sido assinado por aproximadamente 3.000 figuras da cultura, principalmente da indústria cinematográfica, incluindo os diretores Fatih Akin, Iris Berben, Volker Schlöndorff, Margarethe von Trotta e Wim Wenders.
A associação de escritores PEN Berlin alertou Weimer contra a "destruição deliberada" da Berlinale. Em vez disso, ele deveria "defender a liberdade artística", declarou o presidente da entidade, Deniz Yücel.
Respaldo do SPD e dos Verdes
Na Alemanha, a diretora americana foi alvo de críticas principalmente de políticos da União Democrata Cristã (CDU), do chanceler federal Friedrich Merz, por sua atuação em relação às declarações anti-Israel feitas no domingo.
Após a reunião do conselho de supervisão, a especialista em política cultural da CDU, Ellen Demuth, insistiu na demissão de Tuttle. "Os ataques antissemitas na cerimônia de premiação deste ano eram totalmente previsíveis", disse Demuth. Para ela, a gestão da Berlinale foi inadequada, e, portanto, "um novo começo" era necessário.
Contudo, políticos do Partido Social-Democrata (SPD) - parceiro da CDU na coalizão do governo federal - e dos Verdes saíram em defesa da diretora.
Os parlamentares social-democratas Wiebke Esdar e Martin Rabanus afirmaram que Tuttle "promoveu a diversidade e permitiu o debate. É precisamente isso que faz um festival público internacional". "Defendemos uma Berlinale que debata, persevere - sem exclusão, sem relativizar o antissemitismo", disseram em nota.
"Ela uniu o cinema, o público e a indústria e demonstrou sua liderança como uma anfitriã confiante. Reconhecemos isso", concluíram.
"Caso Tricia Tuttle tenha que deixar o cargo de diretora da Berlinale, será uma perda não só para a Berlinale, mas um desastre para a política cultural alemã", disse Sven Lehmann, presidente da Comissão de Cultura e Mídia do Bundestag (Parlamento alemão).
Ele exigiu que Weimer "defenda a independência da Berlinale e evite qualquer aparência de influência estatal". "A política nunca deve influenciar o conteúdo da arte", alertou também a ex-ministra da Cultura e antecessora de Tuttle no cargo, Claudia Roth, do Partido Verde, ao Tagesspiegel.
A bancada parlamentar do partidoA Esquerda também exigiu um compromisso claro dos políticos com Tuttle e com a independência da Berlinale. "A forma como o Ministro da Cultura e da Mídia, Weimer, está lidando com a Berlinale é o verdadeiro escândalo", declarou David Schliesing, especialista em política cultural do partido.
A curadora americana Tuttle assumiu a liderança da Berlinale - um dos principais festivais de cinema do mundo, ao lado de Cannes e Veneza - em 2024. A edição deste ano, que terminou no domingo, foi a segunda sob sua gestão.
rc (DPA, AFP)