Como um movimento de estudantes nascido de uma tragédia acabou com 14 anos de domínio político na Sérvia
Candidatos de uma lista preparada por um movimento de estudantes venceram as eleições gerais no país após dois anos de protestos e campanhas.
Liderada pelo movimento "Lista Estudantil", a oposição na Sérvia venceu as eleições com mais de 50% dos votos, encerrando 14 anos de domínio de Aleksandar Vučić. O grupo surgiu após um trágico desabamento em 2024 que expôs a corrupção estatal, mobilizando protestos históricos. Embora os jovens tenham articulado a campanha com foco em reformas anticorrupção e liberdade de imprensa, eles não disputaram cargos, elegendo uma bancada de 141 nomes da sociedade civil para governar o país.
No domingo, a oposição na Sérvia, liderada pela Lista Estudantil, conquistou uma vitória histórica ao obter mais de 50% dos votos e garantir a maioria parlamentar, encerando 14 anos de hegemonia política do presidente Aleksandar Vučić.
O movimento Lista Estudantil nasceu de uma tragédia, começou com estudantes bloqueando ruas e passou a promover protestos quase diários contra a corrupção e a negligência do governo.
Em pouco menos de dois anos, os estudantes conseguiram transformar o país e acabar com o domínio político de Vučić, que viu o apoio ao seu partido, o Partido Progressista Sérvio (SNS), diminuir e, por fim, fracassar no que se tornou um referendo sobre o futuro da Sérvia.
De Belgrado às cidades de Novi Sad e Nis, o clima era de euforia, com apoiadores reunidos nos centros das cidades ou em frente à sede da Lista Estudantil. Em uma publicação nas redes sociais, os estudantes declararam: "A Sérvia foi libertada".
O ato mais simbólico de todos foi o fim do chamado Ćaciland, um acampamento pró-Vučić montado há 18 meses no Parque dos Pioneiros, no centro de Belgrado, em frente ao Parlamento sérvio. As cercas de metal foram derrubadas em meio a gritos de "Vučić está indo embora".
Como os estudantes mudaram a Sérvia
O movimento — cujo nome é "Lista Estudantil - Estudantes Vencem" — não tem líderes óbvios nem experiência política. Ainda assim, ele atraiu eleitores antigoverno em toda a sociedade sérvia.
Eles apresentaram candidatos para todas as 250 cadeiras parlamentares, mas nenhum estudante concorreu.
Ao se juntar aos estudantes que marchavam em direção a Belgrado na semana passada, o principal candidato, o cardiologista Ilija Srdanović, disse que a história estava sendo reescrita: "A energia é imparável".
"Oferecemos aos nossos cidadãos os valores fundamentais de uma sociedade civilizada, que o regime anterior lhes tirou pela última vez", disse ele à BBC.
Tudo começou em 1º de novembro de 2024, quando a cobertura de concreto desabou em frente à estação ferroviária de Novi Sad, a segunda maior cidade da Sérvia, matando 16 pessoas.
A tragédia foi vista como emblemática da corrupção generalizada — já que o próprio presidente esteve envolvido no desastroso projeto de reforma da estação.
"Quando a cobertura desabou, foi a gota d'água", diz Helena Ivanov, do centro de estudos Henry Jackson Society.
Foi um momento emocionante que desencadeou uma faísca e uma campanha nacional de marchas e eventos, disse ela, que conquistou os corações e as mentes dos sérvios de uma forma que nenhum partido da oposição havia conseguido.
Dos protestos ao desafio direto a Vučić
O que começou como protestos estudantis semanais nos campi universitários e nas ruas da cidade logo se tornou um movimento nacional, muitas vezes com atuação em nível local, que abrangeu vários setores da sociedade sérvia, incluindo agricultores, atores e juízes.
O SNS de Vučić ficou claramente abalado e, em janeiro de 2025, o primeiro-ministro, Milos Vucevic, renunciou "para apaziguar as tensões". Em março de 2025, Belgrado testemunhou o maior protesto antigovernamental da história da Sérvia e, à medida que o movimento estudantil sem liderança ganhava força, seus membros se organizaram por meio de assembleias estudantis ou plenárias.
Quando Vučić anunciou eleições antecipadas no mês passado, eles já estavam preparados.
"Eles conseguiram transformar esse ímpeto emocional em uma organização adequada e ensinar as pessoas a garantir a lisura do processo eleitoral", explicou Helena Ivanov.
Inicialmente, Vučić tentou elogiar os manifestantes, dizendo que tinham "boas intenções", mas, antes das eleições, acusou-os de tentar "derrubar" a Sérvia. Mesmo depois de reconhecer a vitória no domingo à noite, fez a alegação infundada de que eles tinham o apoio de "países europeus e do Estado profundo americano" não identificados.
Quem governará a Sérvia agora?
Uma coisa é certa: não serão os estudantes, pois eles não se candidataram. Essa foi uma decisão calculada, já que o eleitorado provavelmente não votaria em uma lista de candidatos com pouca experiência de vida.
Embora o principal candidato fosse Ilija Srdanović, um professor de cardiologia em Novi Sad, ele não é visto como um provável primeiro-ministro.
Poucos candidatos se destacam como potenciais líderes.
Segundo a projeção final dos institutos de pesquisa independentes CeSID e Ipsos, 141 pessoas da lista conquistaram cadeiras no Parlamento. Entre elas estão o ex-astro do basquete Dejan Bodiroga (24º na lista), o renomado ator Tihomir Stanić (8º), o cantor de ópera Nikola Mikić (46º), o ex-governador do Banco Nacional da Sérvia Dejan Šoškić (27º) e um número considerável de professores.
O nome de Šoškić foi mencionado em relação ao cargo máximo. Ele se pronunciou sobre as reformas que faria na economia e foi amplamente criticado pela imprensa pró-governo.
Qual é o programa de governo?
Os deputados eleitos terão a tarefa de cumprir o que, na prática, é um programa de governo.
Nas palavras dos próprios alunos, eles procuravam pessoas que pudessem entrar nas instituições, "desempenhar suas funções com responsabilidade e não se esquecer do porquê de estarem ali".
De acordo com um programa de 11 pontos, o movimento estudantil pretende:
- Erradicar a corrupção através da formação de uma unidade policial para prender os responsáveis por ela.
- Expurgar do Ministério do Interior todos os funcionários que violaram a lei na repressão a manifestantes, ou qualquer pessoa ligada ao crime organizado.
- Reformar o panorama midiático distorcido da Sérvia e libertar a emissora pública do controle político.
- Impedir o recrutamento de membros leais ao partido para chefiar empresas públicas.
Vučić e o partido SNS negam que haja corrupção ou uma tentativa de influenciar os meios de comunicação.
Os estudantes terão algum papel no poder?
Embora não tenham sido eleitos, foram os estudantes que fizeram as promessas ao povo sérvio e, por isso, sofrerão pressão para cumprir o seu programa.
Segundo os estudantes, os cidadãos sérvios comuns escolhidos por eles para representar seu movimento "receberam a responsabilidade de transferir parte da luta que travamos nas ruas durante o último ano para dentro das instituições".
Em seu discurso na noite de domingo, Vučić disse aos apoiadores do partido que os estudantes destruíram dois anos de vida na Sérvia e que seriam derrotados "mais rápido do que pensam".
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