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Como a crise no Irã afeta países em desenvolvimento: Brasil pode ter 'problemas de abastecimento'

As interrupções no fornecimento de fertilizantes e a disparada dos preços da energia, provocadas pelo conflito no Oriente Médio, ameaçam desencadear uma nova alta dos preços de alimentos em países em desenvolvimento, segundo analistas. O ministro da Agricultura do Brasil, Carlos Fávaro, alertou que o país pode enfrentar problemas de abastecimento, apesar da distância do conflito e de alguma proteção relativa.

20 mar 2026 - 15h03
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Enquanto essas economias ainda se recuperam dos impactos da pandemia de Covid-19 e da guerra na Ucrânia, o conflito no Irã agora ameaça anular esses avanços. Uma nova alta dos alimentos atingiria duramente as famílias e pode durar anos.

Um pequeno agricultor mexicano pulveriza herbicida em seu campo de milho nos arredores da cidade de Walamo, no estado de Sinaloa (imagem ilustrativa).
Um pequeno agricultor mexicano pulveriza herbicida em seu campo de milho nos arredores da cidade de Walamo, no estado de Sinaloa (imagem ilustrativa).
Foto: Getty Images - Matt Mawson / RFI

"Isso pode ter um impacto significativo sobre os preços, especialmente os de alimentos, no longo prazo", afirmou Odile Renaud-Basso, presidente do Banco Europeu de Reconstrução e Desenvolvimento (BERD).

Alimentos e combustíveis representam menos de um quarto do índice de inflação ao consumidor na maioria das economias desenvolvidas, mas correspondem a 30% a 50% em muitos mercados emergentes, destacou Marie Diron, diretora-geral da Moody's Ratings.

"Essa exposição torna muitas economias particularmente vulneráveis à volatilidade de preços causada por fatores externos."

Escassez de fertilizantes pressiona preços

Os fertilizantes são um dos principais pontos de tensão. Cerca de 30% do comércio global passa, em condições normais, pelo Estreito de Ormuz, atualmente fechado por Teerã.

Os países do Golfo também são grandes fornecedores de amônia e ureia, utilizado em fertilizantes, salienta a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). O Bank of America estima que o conflito ameaça entre 65% e 70% da oferta mundial de ureia, enquanto os preços já subiram de 30% a 40% desde o início das operações dos Estados Unidos e de Israel no Irã.

"Isso terá impacto no plantio. (...) A oferta global de commodities vai cair, desde grãos básicos e ração animal até, consequentemente, produtos lácteos e carne", afirmou Maximo Torero, economista-chefe da FAO, sobre os efeitos caso o conflito se prolongue por mais algumas semanas. "Pouquíssimos países estão imunes a isso."

Ao contrário do petróleo, não existem estoques estratégicos globais de fertilizantes. Na Nigéria, produtora de petróleo, a fábrica de fertilizantes Dangote deve ajudar a amortecer o impacto.

Já países como Somália, Bangladesh, Quênia e Paquistão costumam manter estoques reduzidos e dependem mais das cadeias de fornecimento do Golfo. No Quênia, o custo dos fertilizantes já havia subido cerca de 40% desde o início da guerra, segundo a FAO.

Ruanda, que depende em grande parte das importações do Golfo, avalia medidas para proteger o setor agrícola, afirmou o ministro das Finanças, Yusuf Murangwa. "Estamos tentando encontrar diversas soluções para conter essa pressão."

Preço dos alimentos

Diferentemente de 2022, quando a guerra da Rússia na Ucrânia afetou diretamente as exportações de grãos, o aumento dos fertilizantes tende a reduzir a produtividade agrícola.

A alta da energia também deve pressionar os custos de produção e transporte. Os preços globais de referência do petróleo e do gás já subiram mais de 50% desde o início do conflito, elevando os custos ao longo das cadeias produtivas.

Segundo a Associação Internacional de Fertilizantes, eventuais interrupções no abastecimento devem atingir primeiro culturas com alto consumo de nitrogênio, como milho e trigo. O aumento do custo da ração animal tende a se espalhar por toda a cadeia, afetando desde o pão até carne, frango e ovos.

"Esse é sempre o problema com choques de oferta: primeiro vem o impacto na energia; depois, quando ele começa a se dissipar, a segunda onda atinge os alimentos", afirmou David Rees, economista-chefe para economia global da Schroders.

Risco de instabilidade e menor crescimento

Antes do início da guerra, a inflação global vinha desacelerando, e alguns preços de alimentos estavam em queda. Em janeiro, a inflação alimentar global atingiu o nível mais baixo desde pelo menos 2017, segundo David Rees.

No passado, altas de preços de alimentos provocaram protestos em países emergentes, o que mantém autoridades em alerta. Em 2022, houve manifestações no Chile e na Tunísia contra o custo de vida. Um novo aumento pode reacender tensões sociais.

A alta dos combustíveis também pode desviar parte das colheitas para a produção de biocombustíveis, reduzindo a oferta de alimentos. Além disso, uma desaceleração econômica no Golfo — que abriga milhões de trabalhadores migrantes — pode diminuir o envio de remessas para países como Paquistão, Líbano e Jordânia.

Os mercados já revisam expectativas de cortes rápidos de juros em economias emergentes, diante do risco de inflação ligada à energia. O movimento pode afetar o crescimento econômico.

O BERD avalia medidas de apoio, incluindo ajuda para a compra de fertilizantes. Maximo Torero, da FAO, pediu que bancos de desenvolvimento e governos se preparem para adotar ações emergenciais caso o conflito se prolongue. "Se isso durar mais de um mês, teremos problemas no plantio e na produtividade", reiterou.

Com AFP

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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