Bruxelas não consegue consenso e pacote de ajuda financeira à Ucrânia segue bloqueado
Reunidos nesta quinta-feira (19) em uma cúpula em Bruxelas, os líderes europeus não conseguiram influenciar o primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, contrário a um novo empréstimo de € 90 bilhões para ajudar a Ucrânia. O premiê se manteve irredutível, apesar da pressão dos aliados de Kiev.
"Devemos implementar o empréstimo à Ucrânia", declarou o presidente francês, Emmanuel Macron, ao chegar à capital belga. "O princípio-base do trabalho na União Europeia é a lealdade e a confiabilidade, e presumo que todos os Estados-membros da UE irão aderir a ele", acrescentou o chanceler alemão, Friedrich Merz.
Entretanto, a Hungria permaneceu inflexível, forçando os demais países a adiar a questão para outra data. "A posição da Hungria é muito simples: ajudaremos a Ucrânia quando tivermos nosso petróleo", declarou Viktor Orbán, antes do início da cúpula dos 27 Estados-membros da UE.
O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, inimigo declarado de Orbán, também não conseguiu influenciar o resultado, apesar de seu discurso à UE por videoconferência, no qual destacou a responsabilidade dos europeus diante da ameaça russa.
Budapeste condiciona o desembolso desse empréstimo à retomada da entrega de petróleo russo por meio de um oleoduto que atravessa a Ucrânia e foi danificado por ataques aéreos russos. O primeiro-ministro húngaro acusa Kiev de protelar a restauração do oleoduto.
No entanto, em dezembro, Orbán havia concordado que a UE concedesse esse empréstimo à Ucrânia, garantindo uma isenção de contribuição a seu país, juntamente com a Eslováquia e a República Tcheca.
Para Kiev, o empréstimo é essencial para garantir o financiamento da guerra contra a Rússia em 2026 e 2027.
Esse comportamento é "inaceitável", afirmou o presidente do Conselho Europeu, António Costa, durante a discussão entre os 27 Estados-membros. A fala também não influenciou o primeiro-ministro húngaro, que reagiu dizendo que estava dentro de seus direitos. "Hoje, a UE propôs que capitulemos e votemos no que os ucranianos querem", afirmou ele.
Na terça-feira, os líderes da UE tentaram encontrar um meio-termo, anunciando ajuda financeira e o envio de uma equipe de especialistas para apoiar na reabertura do oleoduto Druzhba (Amizade, em russo).
Orbán está em campanha eleitoral
Mesmo antes do início desta cúpula, os europeus já se mostravam céticos quanto às chances de influenciar a posição da Hungria.
"Será complicado antes das eleições na Hungria. Tenho a impressão de que isso faz parte de sua campanha eleitoral", admitiu o primeiro-ministro belga, Bart De Wever.
Com a popularidade enfraquecida nas pesquisas, Viktor Orbán tem acusado incessantemente a Ucrânia de querer arrastar seu país para a guerra, na esperança de angariar o apoio do eleitorado para sua bandeira nacionalista.
Desde o início da campanha eleitoral, outdoors retratando Volodymyr Zelensky de forma negativa têm surgido em todo o território húngaro. Viktor Orbán "está usando a Ucrânia como arma em sua campanha eleitoral, e isso não está certo. Tínhamos um acordo", declarou o primeiro-ministro finlandês, Petteri Orpo, nesta quinta-feira.
A Ucrânia dispõe de recursos para se financiar até maio, após as eleições na Hungria. Se Viktor Orbán vencer as eleições, poderá flexibilizar a posição sobre o empréstimo à Ucrânia, disse à AFP um diplomata europeu.
Com AFP