Brics pedem 'cautela máxima' em meio à guerra e China quer bloco como mediador no Oriente Médio
Os Brics pediram neste sábado (12), em Nova Délhi, "cautela máxima" às partes envolvidas no conflito no Oriente Médio, numa declaração que traduz preocupação com a escalada regional. O apelo ocorre no mesmo dia em que Xi Jinping defendeu que o bloco atue como mediador, afirmando que a guerra "não serve aos interesses comuns da comunidade internacional". A reunião também marcou o degelo diplomático entre Índia e China, que discutiram questões fronteiriças.
Em cúpula em Nova Délhi, os Brics pediram "cautela máxima" ante a guerra no Oriente Médio, marcando a primeira posição conjunta do bloco desde o início do conflito. O presidente chinês, Xi Jinping, defendeu que o grupo atue como mediador internacional e fortaleça o comércio multilateral contra o protecionismo. O encontro também promoveu a reaproximação diplomática entre China e Índia para conter disputas fronteiriças e serviu para atenuar tensões regionais entre Irã e Emirados Árabes Unidos.
O texto da declaração conjunta marca a primeira convergência do bloco sobre o tema desde o início da guerra em fevereiro, quando ataques dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã dividiram os membros. A manifestação ocorre no mesmo dia em que o presidente chinês, Xi Jinping, defendeu que o grupo assuma papel de mediador na região, afirmando que a guerra "não serve aos interesses comuns da comunidade internacional". O Brasil é representado na cúpula pelo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, enviado em nome do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que permaneceu no país.
A declaração dos Brics foi divulgada na abertura do encontro de dois dias em Nova Délhi, reunindo os onze países do bloco, incluindo Índia, China, Rússia, Irã e Emirados Árabes Unidos. O texto pede que todas as partes evitem ações que possam agravar o conflito, que já provocou impactos econômicos globais e tensões diplomáticas entre países do Golfo. O apelo ocorre após meses de divergências internas: em maio, os ministros das Relações Exteriores não conseguiram aprovar um documento comum sobre o tema.
A guerra aberta em fevereiro aprofundou fissuras no bloco. China e Rússia mantêm comércio com o Irã, apesar das ameaças de sanções repetidas pelo presidente norte-americano Donald Trump. Já os Emirados Árabes Unidos suspenderam em agosto suas transações comerciais e financeiras com Teerã após terem sido alvo de mísseis iranianos. Em Nova Délhi, o presidente iraniano Massoud Pezeshkian e o príncipe herdeiro de Abu Dhabi, Khaled ben Mohamed ben Zayed Al Nahyane, conversaram à margem do encontro para tentar reduzir tensões.
Segundo a imprensa oficial dos Emirados, os dois dirigentes defenderam "esforços de desescalada" e a necessidade de "retomar a estabilidade na região". Pezeshkian afirmou que o Oriente Médio "não precisa de polícia", numa referência aos Estados Unidos, e insistiu que a segurança regional deve ser garantida pelos países que a compõem. O presidente iraniano também alertou que pressões políticas e militares sobre comércio, energia e infraestrutura têm "repercussões sem fronteiras".
O bloqueio do estreito de Ormuz, imposto pelo Irã em resposta aos bombardeios em fevereiro, continua a afetar o mercado global de petróleo. Antes da guerra, cerca de 20% do petróleo mundial transitava pelo local. A interrupção prolongada mantém os preços do petróleo em alta e pressiona economias dependentes do fluxo energético. O tema foi citado pelos Brics como exemplo de impacto global de conflitos regionais.
A declaração conjunta não mencionou a guerra na Ucrânia, tema que divide o bloco desde 2022. No plano econômico, os países reafirmaram apoio ao sistema comercial multilateral "não discriminatório, aberto, equitativo, transparente, justo, inclusivo, previsível e baseado em regras", com a Organização Mundial do Comércio no centro. Xi Jinping pediu que o grupo rejeite "todas as formas de protecionismo" e defendeu o fortalecimento da OMC.
Xi defende papel de mediação e reforça ambições globais do bloco
Em discurso em Nova Délhi, Xi Jinping afirmou que os Brics devem atuar como mediadores no conflito do Oriente Médio, argumentando que a guerra "não serve aos interesses comuns da comunidade internacional". Segundo a rede estatal chinesa CCTV, Xi disse que a China trabalhará com os demais membros para apoiar esforços de estabilização e diálogo. O presidente chinês qualificou o bloco como "grupo de primeiro plano" entre países do Sul e modelo de autonomia entre economias emergentes.
O acrônimo Brics designa originalmente Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul (incorporada posteriormente), grupo criado em 2009 para reunir grandes economias emergentes fora das instituições dominadas pelos Estados Unidos e potências ocidentais. O bloco se ampliou nos últimos anos, incorporando Egito, Etiópia, Indonésia, Irã e Emirados Árabes Unidos. Segundo Narendra Modi, os países representam metade da população mundial, 40% do PIB global e mais de um quarto do comércio internacional.
Xi anunciou que a China assumirá a presidência dos Brics no próximo ano e sediará o 19º encontro do grupo. O discurso reforça a ambição chinesa de ampliar a influência do bloco em temas de governança global, comércio e segurança. Analistas afirmam que o posicionamento de Xi busca fortalecer a imagem da China como mediadora internacional, especialmente num momento de tensões com os Estados Unidos.
A presença de Xi em Nova Délhi marcou a primeira visita do presidente chinês à Índia em sete anos, sinalizando um lento degelo diplomático entre os dois países. As relações bilaterais foram seriamente afetadas após o confronto militar de 2020 na fronteira do Himalaia, que deixou 20 soldados indianos e quatro chineses mortos. Desde então, Índia e China têm retomado gradualmente o diálogo, embora a desconfiança persista.
Modi e Xi discutem fronteira
Em encontro bilateral à margem do summit, Narendra Modi e Xi Jinping afirmaram que pretendem resolver questões fronteiriças de forma "honesta e razoável", segundo comunicado do Ministério das Relações Exteriores da Índia. Modi disse que os dois países devem ser guiados por "respeito, sensibilidade e interesse mútuo", e que diferenças não devem se transformar em disputas. Xi afirmou que Índia e China podem "complementar suas forças, se apoiar e avançar juntas".
A relação entre os dois países é marcada por décadas de tensões. Índia e China travaram uma breve guerra em 1962, origem de disputas territoriais que persistem até hoje. O confronto de 2020 agravou a crise, levando os dois governos a reforçar presença militar na região. A visita de Modi à China no ano passado ajudou a reabrir canais diplomáticos, mas analistas afirmam que não há sinais claros de melhora nas relações comerciais.
A aproximação entre Índia e China ocorre num momento em que ambos enfrentam relações instáveis com os Estados Unidos. Para especialistas, o diálogo bilateral é essencial para evitar novos confrontos na fronteira e para preservar a estabilidade regional. A presença de Xi no encontro dos Brics foi interpretada como gesto político calculado, destinado a reforçar a imagem de cooperação entre os dois gigantes asiáticos.
Bloco tenta ampliar influência global em meio a disputas regionais
A ampliação dos Brics para incluir novos membros reforça a ambição do grupo de se consolidar como alternativa às instituições dominadas por potências ocidentais. A presença de países do Oriente Médio e do Norte da África amplia o alcance geopolítico do bloco, mas também traz novos desafios, como divergências internas sobre segurança regional e política externa.
A reunião em Nova Délhi mostrou que, apesar das tensões, os Brics buscam apresentar imagem de unidade e capacidade de mediação. O apelo por "retenção máxima" e o discurso de Xi sobre papel mediador refletem tentativa de posicionar o bloco como ator central na gestão de crises internacionais. A expectativa é que a presidência chinesa no próximo ano intensifique esforços de coordenação diplomática.
Com AFP
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