Bloqueio iraniano no Estreito de Ormuz perde força, mas riscos à navegação permanecem
O Irã continua a reivindicar o controle sobre o Estreito de Ormuz, mas as monarquias do Golfo conseguem agora, com a ajuda dos Estados Unidos, exportar volumes crescentes de petróleo. No fim de setembro, os níveis atingiram os índices anteriores à guerra no Oriente Médio.
Apesar das tensões entre Irã e EUA, o fluxo de petróleo pelo Estreito de Ormuz voltou aos níveis pré-guerra sob escolta americana, aliviado também por rotas alternativas na Arábia Saudita e Emirados Árabes. Contudo, a segurança segue frágil: navios continuam sofrendo ataques, negociações diplomáticas entre Washington e Teerã permanecem travadas e novas ameaças houthis no Mar Vermelho mantêm o barril de Brent acima de US$ 100, indicando que a crise energética regional está longe de uma solução duradoura.
Antes desse conflito, iniciado no fim de fevereiro, cerca de um quinto dos hidrocarbonetos consumidos no mundo transitava por essa passagem estratégica, que se tornou um importante ponto de disputa entre Teerã e Washington.
O Irã passou a exigir que os navios que desejam atravessar o estreito obtenham sua autorização, e aqueles que não cumprem essa exigência ficam expostos a ataques. No entanto, um número cada vez maior de petroleiros está conseguindo atravessá-lo para sair do Golfo sob escolta norte-americana.
Segundo dados preliminares da plataforma de monitoramento de commodities Kpler, os fluxos de petróleo bruto não iraniano, provenientes dos países do Golfo e do Iraque, que passaram pelo Estreito de Ormuz alcançaram, entre 22 e 28 de setembro, uma média de 13,5 milhões de barris por dia. Isso equivale aos níveis registrados antes da guerra.
"Há mais atores dispostos a tentar sair pelo estreito de Ormuz e a conseguir fazê-lo", observou na segunda-feira o presidente-executivo da TotalEnergies, Patrick Pouyanné, diante de investidores.
Essa retomada ocorre ao mesmo tempo em que as exportações de petróleo iranianas também são prejudicadas pelo bloqueio naval dos portos do país imposto pelos Estados Unidos.
Retorno de Yanbu
Além da recuperação do tráfego de petróleo por Ormuz, as rotas alternativas estão operando em plena capacidade.
A Arábia Saudita se beneficia especialmente da reativação de seu oleoduto Leste-Oeste, que liga os principais campos petrolíferos do leste ao terminal de Yanbu, no Mar Vermelho, do outro lado da Península Arábica.
Fechado em 11 de setembro após ataques lançados a partir do Iraque, o oleoduto voltou a funcionar em 22 de setembro, segundo Amena Bakr, analista da Kpler.
De acordo com dados da plataforma consultados pela AFP, pelo menos dez petroleiros carregados de petróleo bruto deixaram Yanbu durante o fim de semana. No domingo, 9,5 milhões de barris foram exportados a partir do terminal, um volume diário sem precedentes desde o início do conflito.
Os Emirados Árabes Unidos também dispõem de uma alternativa a Ormuz graças ao seu oleoduto que desemboca no terminal de Fujairah, localizado fora do estreito.
Não é uma solução 'duradoura'
A retomada dos fluxos ocorre enquanto foram retomadas as negociações entre Washington e Teerã, centradas no restabelecimento da liberdade de navegação no estreito.
O Irã propôs reabrir totalmente a passagem em sete dias, em troca, entre outras condições, do fim do bloqueio naval norte-americano e das sanções que atingem seu setor petrolífero. Alegando ter neutralizado o controle iraniano sobre Ormuz, Washington rejeitou a proposta, mas as negociações indiretas continuam.
A situação atual oferece certo alívio às monarquias petrolíferas, mas não constitui uma solução "duradoura", ressalta Sanam Vakil, do centro de estudos Chatham House, em Londres.
"Os Estados do Golfo dependem dos Estados Unidos para proteger as rotas marítimas e garantir a continuidade das exportações, mas também sabem que a proteção militar não pode substituir um entendimento político com Teerã", declarou ela à AFP.
"A dinâmica regional continua apontando mais para uma escalada do que para um status quo duradouro. Portanto, o aumento atual das exportações não deve ser interpretado como uma nova normalidade", acrescentou a analista.
Como sinal das preocupações persistentes nos mercados, o barril de petróleo Brent do Mar do Norte, referência mundial, continua acima do patamar simbólico de US$ 100.
Além disso, o tráfego marítimo total em Ormuz, considerando todas as mercadorias, permanece muito inferior ao nível pré-guerra, e os navios que utilizam o estreito continuam a correr riscos.
Três embarcações foram atacadas na terça-feira, informou a agência britânica de segurança marítima UKMTO, enquanto um marinheiro indiano morreu na semana anterior durante um ataque.
Outro ponto de bloqueio também surgiu: a ofensiva relâmpago dos houthis pró-Irã no Iêmen em direção ao litoral do Mar Vermelho, que eles agora controlam integralmente. Essa situação afeta fortemente a Arábia Saudita, cujos navios estão sendo ameaçados, provocando uma queda do tráfego no estreito de Bab el-Mandeb.
Com AFP
Comentários
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.