Ataque do Irã ao Azerbaijão aumenta temor de expansão da guerra para o Cáucaso
O ataque de drones iranianos contra o Azerbaijão, aliado de Israel, aumentou os temores de que a guerra no Oriente Médio possa se espalhar para o Cáucaso. Baku prometeu retaliar os ataques em seu território. Grande produtor de petróleo e gás, o envolvimento dessa ex‑república soviética no conflito poderia gerar ainda mais instabilidade no mercado.
O Azerbaijão anunciou na sexta-feira (6) a retirada de seu corpo diplomático do Irã. No dia anterior, Baku afirmou que quatro drones iranianos haviam sido lançados contra o enclave de Nakhchivan, que faz fronteira com o Irã.
De acordo com as autoridades azerbaijanas, um dos drones atingiu um aeroporto, outro explodiu perto de uma escola e outro foi derrubado pela defesa aérea. Quatro pessoas ficaram feridas. O presidente do Azerbaijão, Ilham Aliyev, acusou Teerã de cometer um ataque "terrorista" e ordenou que o Exército preparasse medidas de retaliação.
Os militares iranianos culparam Israel, acusando-o de provocar o incidente com o objetivo de desestabilizar as relações entre Baku e Teerã.
O Irã há muito demonstra preocupação com a possibilidade de Israel — aliado próximo e fornecedor de armas a Baku — usar o território azerbaijano como base para lançar ataques contra o país.
"O risco de a guerra se alastrar para o Cáucaso não é insignificante", afirmou o especialista armênio Hakob Badalyan, acrescentando que "tudo depende dos riscos que Baku e Ancara estiverem dispostos a correr em resposta a este ataque".
A Turquia, outra aliada do Azerbaijão, condenou "firmemente" o ataque.
Ações imprevisíveis
O incidente também levanta dúvidas sobre a responsabilidade na tomada de decisões no Irã e sobre a imprevisibilidade do comando militar do país.
"A cadeia de comando dentro das forças armadas iranianas é obscura", afirmou Farhad Mammadov, chefe do Centro de Estudos do Sul do Cáucaso, sediado em Baku.
O Ministério da Defesa e o Estado‑Maior do Irã operam em conjunto com a Guarda Revolucionária Islâmica, o braço ideológico das forças armadas. "Isso cria um alto grau de imprevisibilidade", explicou Mammadov.
Ele não acredita, por ora, que o Azerbaijão lance uma operação militar terrestre contra o Irã, mas prevê ações defensivas. Segundo ele, "a possibilidade de escalada dependerá das ações tomadas pelo lado iraniano".
Para o deputado azerbaijano Rassim Musabekov, o incidente reflete a confusão dentro do comando iraniano após o assassinato do líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei.
"No momento, estamos vendo ações esporádicas das autoridades iranianas, que estão lançando mísseis indiscriminadamente", afirmou. Segundo Musabekov, ao acusar Israel pelos ataques com drones, "as autoridades iranianas acabam admitindo que não controlam seu próprio território".
Analistas descartam a hipótese de o ataque ter sido acidental. "Não foi um acidente. O Irã está mirando em todos", disse Farid Chafiev, presidente do Centro de Análise de Relações Internacionais, sediado em Baku.
"A única questão é em que nível a decisão foi tomada: em Teerã ou em um escalão inferior da cadeia de comando", continuou. Ele acrescenta que diversas contas de redes sociais ligadas à Guarda Revolucionária Islâmica sugerem que a decisão pode ter sido tomada por seus líderes, que há anos encaram o Azerbaijão com hostilidade.
"A Guarda Revolucionária apresenta o Irã como uma fortaleza sitiada por seus inimigos, e o ataque de quinta-feira é uma demonstração simbólica de que considera o Azerbaijão parte desse cerco", explicou Gela Vasadze, do Centro Georgiano de Análise Estratégica.
"O regime iraniano parece disposto a mergulhar o país e toda a região em um banho de sangue para garantir sua sobrevivência", acrescentou.
Infraestrutura vulnerável
O Azerbaijão é um grande produtor de petróleo e gás. Seu envolvimento direto na guerra poderia pressionar ainda mais os preços dos derivados dessas commodities. Além disso, a vulnerabilidade da infraestrutura energética estratégica que liga o Cáucaso ao mercado global preocupa analistas. O oleoduto Baku‑Tbilisi‑Ceyhan, que parte do Azerbaijão e cruza Geórgia e Turquia, países vizinhos, transporta cerca de um terço das importações de petróleo de Israel e poderia se tornar um alvo para Teerã.
Embora o oleoduto esteja enterrado na maior parte de sua extensão, "instalações de superfície, como terminais e estações de bombeamento, podem ser vulneráveis a ataques de drones", disse à AFP Ilham Shaban, diretor do Centro de Pesquisa de Petróleo de Baku.
Teerã também teme, há anos, possíveis aspirações separatistas entre os cerca de 10 milhões de cidadãos de origem azerbaijana que vivem no Irã.
Em junho passado, Baku declarou que "nunca" permitiria que seu território fosse usado para lançar ataques contra o Irã, que na época estava sob uma ofensiva israelense em larga escala.
Por enquanto, "o Azerbaijão não deseja entrar em conflito armado com o Irã", afirmou Moussabekov. "Mas ele precisa estar preparado para todas as eventualidades."
Com AFP