Índia permanece miserável apesar de esforços contra pobreza
No Dia Internacional pela Erradicação da Pobreza, comemorado no dia 17 de outubro, a Índia continua sendo lar para um terço dos mais pobres do mundo, vítimas da alta pressão demográfica, da dependência agrícola, do analfabetismo e do rígido sistema de castas que ainda sufoca o futuro do país.
Segundo o Banco Mundial, 41,6% dos indianos viviam em 2005 com menos de US$ 1,25 por dia, a linha internacional da pobreza, que o Governo indiano reduz a 12 rúpias (US$ 0,25).
A Índia iniciou a liberalização de sua economia no começo da década de 1990 com 36% de pobres "oficiais" e reduziu essa percentagem para 28,6% em 2000 e para 27,5% em 2005, um ritmo que transforma em quimera o cumprimento do "objetivo do milênio" da ONU de 2000, que pretende reduzir a pobreza à metade até 2015.
"A verdadeira razão da pobreza está em que as políticas públicas não são orientadas para um bom governo nem são formuladas apropriadamente. Não se gera trabalho, não há atendimento de saúde nem educação", explicou à Agência Efe o sociólogo Dipankar Gupta.
No século XIX, a Índia chegou a possuir 16% da riqueza mundial, mas o país não conseguiu se conectar à revolução industrial.
Também não ajudou para a redução da pobreza a política dos anos posteriores à independência (1947), que sujeitou a indústria privada com um complexo sistema de formas e levou o país a um crescimento menor que o dos "tigres asiáticos".
Apesar do forte crescimento do PIB e das últimas duas décadas de liberalização, a maioria dos indianos continua presos ao campo, um setor de magro crescimento e peso econômico decrescente.
A agricultura ocupa dois terços da população, mas só gera 17,8% do PIB. Segundo o Banco Mundial, precisa de reformas e não é "nem econômica nem ambientalmente sustentável".
"A agricultura nunca poderá crescer no mesmo ritmo que os demais setores. A solução para nosso crescimento passa por movimentar os trabalhadores desde os setores agrícolas para os demais", assegurou à Efe o ex-presidente do Conselho Econômico da Índia Suresh Tendulkar.
Nas zonas rurais, onde vivem 75% dos pobres, continua também vigente o sistema de castas, uma estrutura que piora a condição de quem lá vive ocupando-se nas tarefas que ninguém mais quer e sob condições desumanas.
No entanto, os analistas indianos acreditam que o desenvolvimento manufatureiro e dos serviços trarão junto uma progressiva migração para as cidades e, de rebote, a perda de significado deste sistema hierárquico, para alguns causa da pobreza do país.
"O sistema de castas se colapsou. Os fazendeiros já não ocupam a posição que tinham e já não podem mobilizar como antes a população.
A casta não desaparecerá, mas continuará só como um fenômeno de identidade e amor próprio", predisse Gupta.
Por promissor que seja seu futuro, a Índia continua sofrendo graves carências no plano do desenvolvimento humano: 15,5% dos indianos não vive mais de 40 anos, uma de cada três pessoas não sabem ler e 47% das crianças estão desnutridos.
Um relatório da ONG ActionAid divulgado por ocasião do Dia Mundial da Alimentação, comemorado na última sexta-feira, revela que o país acrescentou 30 milhões de pessoas a suas fileiras de famintos desde meados da década de 1990.
"O lado escuro do crescimento econômico indiano foi que os grupos sociais excluídos foram mais marginalizados", constatou o diretor da ActionAid India, Babu Matthew, segundo a Agência Ians.
E tudo isso apesar da aprovação de leis e programas para combater a pobreza cuja "implementação continua sendo um desafio em massa à revelia de reconhecimento dos direitos dos pobres", segundo o responsável de Direito à Alimentação desta ONG, Amar Joyti Nayak.
Na opinião de Gupta, os esforços do Estado desde a independência - subsídios alimentícios, controle de preços, melhorias de técnicas agrícolas, medidas educativas - repercutiram no fim das grandes crises de fome, mas é hora de dar o passo seguinte.
"O Estado deve exercer sua liderança para fomentar uma mudança de modelo, investir em saúde, em educação. Não haverá mudanças se as elites indianas se preocupam só consigo mesmas", concluiu.