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As construções monumentais 'escondidas' na Amazônia descobertas por cientistas

Trabalho publicado no periódico acadêmico Nature usou uma tecnologia de ponta para desvendar o que há abaixo da copa das árvores — e revelou a existência de estruturas construídas por séculos, numa região que pode ter abrigado milhões de pessoas. Entenda o que esse trabalho indica sobre o passado da maior floresta tropical do mundo

30 set 2026 - 16h07
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Resumo
Com a tecnologia LiDAR, cientistas identificaram centenas de geoglifos monumentais entre o Amazonas e o Acre, revelando a grandiosidade da civilização Aquiry. Construídas entre 600 a.C. e 850 d.C. e conectadas por estradas, essas estruturas cerimoniais indicam que a região abrigou até 3 milhões de pessoas em áreas de terra firme. A descoberta refuta a ideia de que a Amazônia pré-colonial era uma mata intocada, provando a existência de sociedades complexas com avançado domínio geométrico.

Pesquisadores encontraram centenas de construções monumentais, que podem ser vistas do alto, de aviões, numa região que compreende o sul do Estado do Amazonas e porções do Acre, na Amazônia.

As estruturas foram construídas há milhares de anos, numa região que fica longe de grandes rios e, segundo os cientistas, pode ter abrigado milhões de pessoas.

"Esse povo fazia geometria monumental na Amazônia ao mesmo tempo que Pitágoras desenvolvia seu teorema na Grécia", compara o paleontólogo Alceu Ranzi, presidente do Instituto Geoglifos da Amazônia e um dos autores de um estudo recente sobre o tema.

Entenda a seguir o que os novos achados revelam sobre o passado da maior floresta tropical do mundo — e os detalhes sobre a chamada civilização Aquiry, responsável por criar os geoglifos, o nome dado a essas enormes estruturas escavadas na terra.

Tecnologia consegue descobrir estruturas construídas pelo homem que estão debaixo da copa das árvores na Amazônia
Tecnologia consegue descobrir estruturas construídas pelo homem que estão debaixo da copa das árvores na Amazônia
Foto: Martti Pärssinen & Fabio de Novaes / BBC News Brasil

Uma tecnologia que permite desvendar o passado

As revelações mais recentes sobre os geoglifos e a civilização Aquiry foram tema de um artigo científico publicado em julho no famoso periódico acadêmico Nature.

O trabalho foi realizado por cientistas do Instituto Iberoamericano da Finlândia, na Espanha, da Universidade de Helsinki, na Finlândia, da Universidade de Turku (também na Finlândia), da Universidade Federal do Acre, da Universidade Federal do Pará, entre outras instituições.

Os pesquisadores usaram uma tecnologia chamada LiDAR — sigla em inglês para detecção e medição de distância por luz.

Basicamente, esse equipamento usa um laser para medir distâncias e construir mapas complexos em três dimensões.

Em regiões como a Amazônia, o LiDAR consegue "ver" o que está embaixo das árvores — e analisar grandes áreas sem a necessidade de desmatar ou visitar todos esses lugares, um a um.

"Essa foi a primeira avaliação com LiDAR ambiciosa na Amazônia", defende o arqueólogo e antropólogo Martti Pärssinen, da Universidade de Helsinki, na Finlândia, e outro autor do artigo.

Antes, geoglifos só eram visíveis em áreas que já haviam sido desmatadas
Antes, geoglifos só eram visíveis em áreas que já haviam sido desmatadas
Foto: Martti Pärssinen / BBC News Brasil

Centenas de construções monumentais

Com ajuda desse equipamento, os cientistas rastrearam uma área de 4,4 mil km² entre os Estados do Amazonas e do Acre.

E, nesse trecho, foram identificadas 432 estruturas de terra — 396 delas nunca antes registradas.

Os geoglifos associados à civilização Aquiry foram construídos entre os anos 600 a.C. e 850 d.C.

A partir desses dados e de imagens de satélite, eles estimam que a área ocupada pela civilização chegava a cerca de 183 mil km² — menos de 3% da Grande Amazônia, uma área pouco maior do que o território do Uruguai.

Os autores também calculam que, por volta dos anos 100 e 300 d.C., essa região abrigava até 3 milhões de pessoas — números que, segundo os cientistas, estão relacionados à monumentalidade dos geoglifos.

"A maioria [dos geoglifos] são valas, e elas variam de tamanho", detalha Ranzi.

"Há valas de até 15 metros de largura e cinco metros de profundidade", complementa ele.

Os autores da pesquisa sugerem que a construção de estruturas gigantescas como essas exigiam uma grande comunidade de pessoas trabalhando juntas.

Os geoglifos eram construídos a partir de valas cavadas no solo — segundo os pesquisadores, algumas delas chegam a 5 metros de profundidade
Os geoglifos eram construídos a partir de valas cavadas no solo — segundo os pesquisadores, algumas delas chegam a 5 metros de profundidade
Foto: Rhuan Lopes / BBC News Brasil

Como os geoglifos foram construídos?

"Nessa região não há pedra. Possivelmente, se utilizava material de madeira, e cestos para carregar [a terra]", responde Ranzi.

"Era muita mão de obra, mas não temos certeza, porque tudo na Amazônia é orgânico, desaparece", detalha o pesquisador.

Isso significa que é impossível encontrar nessa região sinais antigos "clássicos" de uma ocupação humana, como corpos enterrados, restos de comidas ou indícios de acampamentos e habitações. Por conta da umidade, todo esse material se decompõe com o passar do tempo, ao contrário do que acontece nas regiões mais secas do planeta.

Além do grande número de mão-de-obra e da necessidade de divisão de tarefas, os especialistas avaliam que essas construções exigiram conhecimentos de matemática e geometria.

"Já tivemos na Amazônia condições tecnológicas suficientes para uma civilização gigantesca como a Aquiry construir geoglifos na floresta", raciocina o arqueólogo e antropólogo Rhuan Carlos Lopes, da Universidade Federal do Pará, que também assina o artigo.

Imagens de LiDAR revelam que muitos geoglifos eram conectados por quilômetros de estradas
Imagens de LiDAR revelam que muitos geoglifos eram conectados por quilômetros de estradas
Foto: Martti Pärssinen, Risto Kalliola & Fabio de Novaes / BBC News Brasil

Para que serviram os geoglifos?

Uma das primeiras hipóteses dos pesquisadores era a de que os geoglifos seriam fortes, ou construções de defesa, para que a população se protegesse contra invasões e ataques.

Mas, hoje, os especialistas consideram mais provável que elas tivessem funções cerimoniais e políticas.

"Se realmente se confirmar que elas são estruturas cerimoniais, esse povo vivia em paz porque, para dedicar tanto esforço, tanto trabalho, isso significa que não havia inimigos com os quais se preocupar", especula Ranzi.

Pärssinen levanta outro aspecto que as pesquisas na região indicam: um respeito absoluto pela natureza.

"Eles nunca transformaram a floresta tropical numa savana", pontua ele.

"O que significa que as clareiras e a derrubada de árvores era grande o suficiente para a subsistência, para cultivar milho, abóbora, mandioca, nada mais", complementa o cientista.

No artigo, os pesquisadores defendem que não havia uma ocupação permanente dessas estruturas: elas eram usadas pra receber convidados e fazer cerimônias de cunho político, cultural, esportivo ou religioso.

"Os geoglifos eram usados para encontros, para tomar decisões políticas e para organizar cerimônias religiosas, e também para festas, dança e música", reforça Pärssinen.

O trabalho em campo, por meio de escavações, indica que essas estruturas eram muito bem cuidadas.

"Havia uma manutenção desses espaços. Não era só construí-los, mas mantê-los ao longo dos séculos, e isso, obviamente, implica também a existência de um conjunto de saberes", conta Lopes.

Outro ponto importante: os estudos mostram que as construções eram ligadas por estradas.

"Nós mapeamos 350 km de estradas que conectam os geoglifos", diz Ranzi.

Segundo ele, os geoglifos não eram estruturas isoladas, no meio da floresta ou da paisagem.

"Esses caminhos conduziam para esses locais, e essas vias, quando se aproximavam das estruturas, aumentavam de tamanho."

"É como se fosse sair do interior para uma pequena rua, que se transforma numa estrada e depois vira uma rodovia de duas vias, três ou quatro faixas", compara o cientista.

Escavações arqueológicas feitas perto dos geoglifos indicam que essas estruturas tinham fins cerimoniais
Escavações arqueológicas feitas perto dos geoglifos indicam que essas estruturas tinham fins cerimoniais
Foto: Rhuan Lopes / BBC News Brasil

O fim da civilização Aquiry

Durante as investigações, os pesquisadores notaram algo curioso: os geoglifos deixaram de ser construídos por volta do ano 850 d.C.

Ainda não se sabe muito bem o motivo disso.

Ranzi faz um paralelo com o que aconteceu nesse mesmo período com os maias, que habitavam partes do México e da América Central.

"Nesse mesmo tempo, os maias deixaram de construir e de utilizar aqueles palácios. As pirâmides do Yucatán voltaram a ser ocupadas pela floresta", observa ele.

"E algo parecido aconteceu na Amazônia. Os anos 800 foram talvez um período de alguma crise ambiental global", sugere ele.

Ranzi pesquisa os geoglifos do Acre há mais de 40 anos — ele viu as primeiras estruturas do tipo durante um voo, quando voltava a Rio Branco depois de uma viagem.

Nessa época, a maioria dessas construções só podia ser identificada em áreas que tinham sido desmatadas e transformadas em plantações ou pasto.

"Para mim, o que chamou a atenção desde o começo foi a monumentalidade dessas estruturas. São desenhos de 400, 500 metros de diâmetro", lembra ele.

Agora, com ajuda de novas tecnologias como o LiDAR, o trabalho dos arqueólogos segue em frente — com a vantagem de saber melhor onde fazer escavações em busca de mais vestígios sobre a civilização Aquiry.

Os geoglifos podem ser vistos do alto — e ajudam a reescrever o passado da ocupação da Amazônia
Os geoglifos podem ser vistos do alto — e ajudam a reescrever o passado da ocupação da Amazônia
Foto: Martti Pärssinen / BBC News Brasil

Um novo passado para a Amazônia

As pesquisas sobre os geoglifos estão conectadas a um movimento maior, que vem desvendando aos poucos o passado da Amazônia — e desfazendo muito mitos sobre esse lugar.

O primeiro deles era o de que essa era uma mata intocada, sem sinais de ocupação humana.

Nas últimas décadas, pesquisas em diferentes campos do conhecimento têm demonstrado que essa região era habitada por milhões de pessoas muito antes da chegada dos europeus — e eles deixaram marcas profundas na composição e na estrutura da maior floresta tropical do mundo.

"O que a gente vê na Amazônia não é uma grande floresta natural, mas, sim, um grande jardim construído historicamente", defende Lopes.

"E isso, do meu ponto de vista, é muito fascinante", complementa o pesquisador.

As estimativas sobre a ocupação ancestral desse território ainda estão em crescimento: antes, estudos calculavam que toda a Amazônia pré-colonial poderia suportar entre 1 milhão e 2,5 milhões de pessoas, no máximo.

Depois, essa conta subiu para entre 5 e 10 milhões de pessoas.

Agora, com a sugestão de que apenas uma área relativamente pequena dessa floresta abrigaria até 3 milhões de indivíduos, é possível que esse número aumente novamente.

Outra contribuição do estudo dos geoglifos é entender como se deu a ocupação da chamada "terra firme".

Antes, acreditava-se que a ocupação amazônica se deu principalmente às margens dos grandes rios, onde supostamente haveria mais condições para se obter alimentos.

Mas os geoglifos se localizam justamente na região entre rios, que é conhecida como terra firme: pesquisas recentes revelaram que esses lugares também reuniam grandes populações, com capacidade de intervir na floresta e cultivar mandioca, feijões, abóbora, milho…

"Essas pessoas ocuparam não só os grandes rios, ali nas praias, com abundância de peixe, facilidade de andar de canoas, de se deslocar. Elas também ocuparam todo o interior, pelo menos no sul do Amazonas e no Acre", reforça Ranzi.

"Elas conheciam a topografia, ocupavam lugares longe dos rios e se deslocavam a pé por esses caminhos."

"E isso altera completamente a visão de como aconteceu a ocupação da Amazônia", conclui ele.

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