Ultraliberal eleito na Colômbia promete respeitar a Constituição e governar para os que pensam diferente
A Colômbia elegeu o advogado penalista e empresário Abelardo de la Espriella, de 47 anos, para governar o país pelos próximos quatro anos. O ultraliberal passa a ser a peça colombiana num mapa regional dominado pela extrema direita. O candidato da esquerda, Iván Cepeda, aceitou de forma provisória o resultado da contagem rápida, à espera do definitivo dentro de alguns dias.
Márcio Resende, correspondente da RFI em Buenos Aires
No discurso de vitória, Abelardo de la Espriella adotou um tom mais amistoso e prometeu respeito à Constituição de 1991 e à oposição política, maioria no Congresso. Diante de uma diferença de apenas 250 mil votos e de uma polarização que dificulta a governabilidade, o eleito pediu a união dos colombianos, inclusive dos que pensam diferente.
O candidato da extrema direita, Abelardo de la Espriella, sem nenhuma experiência prévia na política, venceu com 49,6% dos votos. O senador Iván Cepeda ficou com 48,7%.
A diferença entre os dois foi de apenas 250 mil 830 votos - menos de 1 ponto percentual, exatamente 0,96%. Num país onde o voto não é obrigatório, votaram 63,6% dos colombianos aptos a votar, um recorde.
Mas esse resultado preliminar, tão apertado, leva à possibilidade de uma recontagem, pelo menos parcial, dos votos.
Com um tom sereno, o candidato derrotado, Iván Cepeda, reconheceu o resultado preliminar, mas avisou que vai pedir a impugnação de 33 mil mesas de votação. Cepeda disse que "este primeiro resultado não é oficial nem vinculante" até que venha "o resultado final" da contagem oficial.
O presidente Gustavo Petro foi mais enfático ao afirmar que "ainda não é possível proclamar nenhum eleito", que "só a contagem definitiva determina quem é o presidente" e que há "evidências de que o processo teve muitas irregularidades".
O procurador-geral, Gregorio Eljach, no entanto, afirmou que não houve um único fato que tenha afetado a transparência nem a tranquilidade da eleição.
Derrota implicitamente reconhecida
Apesar das ressalvas, Iván Cepeda fez um discurso em que a derrota estava implicitamente reconhecida, sem admiti-la de forma definitiva.
Avisou ao eleito que "não permitirão um recuo nas conquistas sociais que foram construídas na Colômbia ao longo destes quatro anos" do governo de Gustavo Petro.
Disse também que está disposto ao diálogo e a acordos, desde que sejam respeitosos, e que decisões não podem ser impostas de forma arbitrária ou autoritária.
Assinalou ainda que o eleito deve "procurar um acordo nacional para resolver os problemas colombianos".
Ou seja, Cepeda assumiu o papel de oposição.
Vencedor jura defender a Constituição
Já o eleito, Abelardo de la Espriella, fez um discurso de vitória atrás de um vidro blindado. Ciente de um país dividido em partes praticamente iguais, pediu união como forma de facilitar a governabilidade.
"Serei o presidente de todos os colombianos. Vou governar para todos", afirmou.
Garantiu que não haverá retaliações nem perseguições contra aqueles que pensam diferente ou que não votaram nele.
Diante da resistência do presidente Gustavo Petro em reconhecer a derrota do candidato governista, Iván Cepeda, o eleito pediu que "respeitem a vontade do povo colombiano" e que "se abstenham de desatar um incêndio social".
Abelardo de la Espriella fundou o partido Defensores da Pátria em julho do ano passado, numa ascensão meteórica. Ao longo de 11 meses, passou de uma versão mais radical a uma mais moderada.
Há dúvidas sobre até onde estaria disposto a forçar as instituições democráticas para aprovar propostas consideradas controversas, como retirar a Colômbia da Organização dos Estados Americanos ou das Nações Unidas.
Para responder às críticas, o eleito jurou "defender a Constituição com extrema coerência" e afirmou que vai respeitar a atual Carta de 1991, afastando a ideia de uma nova Assembleia Constituinte.
Em conversa com o cientista político Fabián Cárdenas, do Departamento de Direito Internacional da Universidade Javeriana de Bogotá, a avaliação é que, se mantiver esse compromisso, Espriella fará um governo democrático.
Ajuste fiscal
A possibilidade de reação social a um ajuste fiscal é considerada real, especialmente se houver cortes em direitos adquiridos. O déficit fiscal do país é de 6,5%, e o eleito prometeu reduzir o tamanho do Estado em 25% ao longo do mandato.
Segundo Humberto Librado, diretor do Departamento de Ciência Política da mesma universidade, há risco de tensão nas ruas caso benefícios sociais sejam atingidos.
Para Fabián Cárdenas, a capacidade de mobilização social está sobretudo na esquerda ligada a Gustavo Petro e Iván Cepeda, do Pacto Histórico. Ele avalia, porém, que será difícil eliminar direitos adquiridos, já que as mudanças precisam passar pelo Congresso, onde o Pacto Histórico tem a maior bancada tanto na Câmara quanto no Senado.
Ciente da capacidade de mobilização da esquerda, Abelardo de la Espriella pediu que opositores se abstenham de "semear o terror". Disse que terão todas as garantias para exercer a oposição, desde que dentro da lei, e advertiu contra qualquer tentativa de estimular a violência.
Mudança no mapa regional
Com esta eleição, a América do Sul fica metade à direita ou à extrema direita; metade à esquerda, considerando que o Brasil ocupa metade do mapa.
No Brasil, que terá eleições dentro de quatro meses, a expectativa é que líderes da extrema direita da região usem as redes sociais para apoiar Flávio Bolsonaro contra Lula.
Segundo Fabián Cárdenas, o impacto dessa influência externa tende a ser "nenhum" ou "muito limitado a determinados segmentos políticos", já que o Brasil tem um processo eleitoral próprio e já passou por uma experiência recente com a extrema direita.
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