Série de execuções de influenciadores revela papel das redes na guerra dos cartéis no México
O influenciador mexicano Cesar Gastelum, de 25 anos, foi executado na terça-feira (4) durante uma transmissão ao vivo em Culiacán no noroeste do país, em meio à guerra entre os Mayos e os Chapitos, facções do cartel de Sinaloa. A presidente Claudia Sheinbaum anunciou a participação de autoridades na investigação, que analisa postagens associadas a símbolos ligados aos Mayos. O caso se soma a uma série de assassinatos de influenciadores desde 2024, envolvendo propaganda do crime e suspeitas de lavagem de dinheiro.
François-Damien Bourgery, da RFI
O assassinato do influenciador Cesar Gastelum, de 25 anos, durante uma transmissão ao vivo, ampliou a escalada de violência ligada à disputa entre facções do cartel de Sinaloa. O jovem gravava um vídeo para a plataforma Kick ao lado de dois amigos, vestidos como entregadores, quando dois homens de capacete se aproximaram em uma moto e o executaram com um tiro na cabeça. A ação durou poucos segundos e ocorreu a cerca de 200 metros do gabinete do procurador-geral do estado.
A gravação foi retirada da plataforma horas depois. A presidente mexicana Claudia Sheinbaum afirmou que autoridades federais participam da investigação aberta pelo governo local.
"Os autores e os mandantes deste crime devem ser presos, e toda a luz deve ser lançada sobre as razões deste assassinato trágico", disse em entrevista coletiva. Segundo o gabinete de segurança, os investigadores analisam conteúdos publicados por Gastelum que fariam referência a "uma facção de um grupo criminoso".
A hipótese ganhou força após o jornal Milenio identificar uma postagem em que o influenciador exibia um capacete com o símbolo de um chapéu, acompanhada de música de Los del Sombrero e Herencia de Grandes. A legenda dizia: "Como todo habitante de Culi [Culiacán], com um chapéu no carro". O jornal interpretou o gesto como homenagem a Ismael "El Mayo" Zambada García, cofundador do cartel de Sinaloa, preso nos Estados Unidos desde 2024.
Quem são os Mayos
Os Mayos são a facção do cartel de Sinaloa leal a Ismael "El Mayo" Zambada García, um dos fundadores históricos da organização. Após sua prisão em 2024, o grupo passou a disputar território, rotas e influência com os Chapitos, facção comandada pelos filhos de Joaquín "El Chapo" Guzmán Loera, também detido nos EUA. A rivalidade se intensificou com o uso de armas pesadas, drones e veículos blindados, transformando Culiacán em uma das cidades mais violentas do país no último ano.
Símbolos digitais se tornaram marcadores de lealdade: o chapéu para os Mayos, a pizza para os Chapitos. Nesse ambiente, influenciadores passaram a ser alvos preferenciais, especialmente quando publicações são interpretadas como apoio a uma das facções.
Entre setembro e dezembro de 2024, quatro criadores de conteúdo foram mortos no estado. Em 9 de janeiro de 2025, a tensão aumentou quando um avião lançou centenas de panfletos sobre Culiacán com nomes e fotos de 25 influenciadores e cantores acusados de colaborar com os Chapitos. Nos meses seguintes, outros quatro criadores foram assassinados na região.
Redes sociais como instrumento dos cartéis
Especialistas afirmam que a exposição digital se tornou parte da disputa. "O problema dos influenciadores no México é que eles se situam em um campo ou outro", disse Stéphane Quéré, professor de criminologia no Conservatório Nacional de Artes e Ofícios, em Paris. "Eles são visados por suas posições em favor de determinado cartel ou facção." A prática lembra a propaganda dos narcocorridos, músicas mexicanas que exaltam chefes do tráfico.
Além da propaganda, alguns influenciadores são investigados por lavagem de dinheiro. Segundo o jornal Milenio, 64 criadores de conteúdo do Sinaloa são alvo de uma apuração da Unidade de Inteligência Financeira (UIF), ligada ao Ministério das Finanças. Eles são suspeitos de usar redes sociais para movimentar recursos ilícitos por meio de sorteios, bingos e repasses de parte da receita publicitária aos cartéis. O mecanismo inclui o uso de bots para inflar visualizações e gerar renda.
Violência com motivação pessoal
A violência também pode ter motivação pessoal. Em maio de 2025, a influenciadora de beleza Valeria Márquez foi morta em Zapopan, no estado de Jalisco, durante uma transmissão no TikTok.
O feminicídio teria sido ordenado por Ramón Ángel Álvarez Alaya, conhecido como "El R-1", chefe do Cartel de Jalisco Nova Geração, a pedido do filho, ex-companheiro da jovem. "R-1" foi preso no mês passado; o filho permanece foragido.
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