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Estados Unidos

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'Se economia não melhorar, Trump pode perder maioria no Senado e na Câmara', prevê pesquisador

Eleito em um delicado contexto econômico em 2024, Trump vem batendo recordes de impopularidade nos Estados Unidos

3 jun 2026 - 07h19
(atualizado às 07h39)
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Presidente dos EUA, Donald Trump 21/01/2025
Presidente dos EUA, Donald Trump 21/01/2025
Foto: REUTERS/Carlos Barria

Em meio às guerras no Oriente Médio, à escalada da inflação e às promessas de campanha não cumpridas, o presidente americano, Donald Trump, vê sua popularidade despencar. Em entrevista à RFI, Lucas de Souza Martins, pesquisador da Temple University, na Filadélfia, analisa o cenário e avalia que o líder republicano pode sofrer um revés nas eleições de meio de mandato, em novembro, e perder o domínio das duas casas legislativas do país.

Eleito em um delicado contexto econômico em 2024, Trump vem batendo recordes de impopularidade nos Estados Unidos. Pesquisas de opinião indicam que mais de 60% da população está insatisfeita com a atual administração. 

"A principal discussão que existe por lá é a questão da inflação, a questão da dificuldade de você alcançar, por exemplo, o sonho americano: a casa própria, a troca de carro com facilidade. Os jovens americanos e também as famílias já constituídas têm muita dificuldade de alcançar exatamente o que Donald Trump disse que traria novamente aos Estados Unidos", aponta Martins.

Segundo o pesquisador, além das promessas não cumpridas, as estratégias do líder republicano para tentar conter a inflação e turbinar a economia — como os tarifaços impostos ao mundo inteiro em 2025 e 2026 — não trouxeram o resultado esperado. "A popularidade dele cai muito mais por conta de uma questão de economia interna do que necessariamente uma situação que tem a ver, por exemplo, com os conflitos no Oriente Médio, a situação um pouco engessada com relação ao Estreito de Ormuz e o abastecimento do petróleo", observa.

O pesquisador acredita que a principal consequência desse descontentamento da população americana ocorrerá nas eleições de meio de mandato, em 3 de novembro. A votação renovará os 435 assentos da Câmara, cerca de um terço do Senado, além dos governos de alguns estados e outros cargos estaduais e locais. 

Na última semana, Trump minimizou a situação, afirmando, durante uma reunião na Casa Branca não se importar com as eleições de meio de mandato. No entanto, para o professor da Temple University, o quadro não é dos melhores para Trump: "há a leitura de que, se esse cenário se agrava, se a economia não traz sinais de melhora, ele pode sim perder as duas casas", ressalta.

Apatia do Congresso dos EUA

O especialista aponta "uma apatia" geral no Congresso, que não reage às controversas decisões do presidente americano, como as declarações de guerra sem aprovação dos parlamentares, as controversas concessões ao primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, ao tarifaço que não teve o retorno esperado, entre outros.

"O Congresso tem falado muito pouco sobre isso, até porque o presidente da Câmara dos Representantes [Mike Johnson] é republicano. E os democratas, por conta de serem minoria, têm pouco espaço também para impor a sua agenda, até porque eles têm poucos instrumentos também para colocar a sua voz", diz. "Mas agora, com uma perspectiva de mudança nessas maiorias destas duas casas, o presidente Trump estará sujeito a mais pressão por parte da oposição, cenário que hoje não existe", reitera.

Por outro lado, Lucas de Souza Martins ressalta que, se houve uma promessa de campanha cumprida por Trump, foi a de trazer de volta uma agenda conservadora e "até imperialista" em alguns setores. Para o pesquisador, essa é a grande diferença neste segundo mandato do magnata — um posicionamento que provocou rachas e transformou o Partido Republicano.

"Quando Trump ainda era um presidente inexperiente, sem habilidades políticas, ele fez uma composição de ministérios em que você tinha pessoas do Partido Republicano mais clássico, mais ligado a outras gestões, como a de George W. Bush. E, curiosamente, essas pessoas acabaram saindo do primeiro governo Trump exatamente por divergências", aponta.

"Portanto, nós temos um Trump muito mais conservador neste segundo mandato, muito mais consciente da importância da formação de sua equipe, com uma coesão maior e claramente conservadora, nada ligado ao que representava anteriormente o Partido Republicano clássico", destaca.

250 anos da independência dos EUA

No próximo 4 de julho, os Estados Unidos comemorarão o aniversário de 250 anos de sua independência. Trump está planejando um grande evento para celebrar a data, em que deve ostentar as grandes reformas estruturais que vem promovendo em Washington.

O aniversário coincide com outro evento festivo, a Copa do Mundo de Futebol Masculino, que terá os Estados Unidos como uma de suas sedes. Segundo o pesquisador, a polarização não deve atrapalhar os dois eventos porque, para a população americana, as comemorações estão acima das diferenças partidárias.

"Existe uma perspectiva e até um nível de pacifismo político com relação a estas celebrações, até pela questão da tradição política americana que separa um pouco essa questão da fundação do país com relação a questões atuais da política interna dos Estados Unidos", avalia.

Martins prepara um livro em parceria com o jornalista Duda Teixeira que aproveita a efeméride dos 250 anos da independência dos Estados Unidos para abordar a vanguarda americana na criação e instituição dos pilares da democracia. Segundo ele, a obra trará ideias novas à historiografia e à produção literária do Brasil com relação à perspectiva de se olha os Estados Unidos.

"Tradicionalmente, o Brasil tem uma relação delicada com os americanos, pensando também na participação dos americanos na questão da ditadura militar, a forma como nós fomos encarados também durante aquele período da pré-Segunda Guerra Mundial, em que a questão cultural foi muito usada no Brasil para influenciar os brasileiros a se alinharem. O Brasil sempre foi utilizado historicamente como — ou pelo menos percebido pelos americanos —  como parte de um grupo que está aliado aos interesses de Washington. Então, por isso que há uma relação de tensão."

Mas, para o especialista, o trabalho será uma oportunidade para o público enxergar os Estados Unidos de uma outra maneira, "pensando que as principais inovações da forma como nós constituímos hoje governos, democracia, a estrutura de presidência, Câmara dos Deputados, Senado, o sistema de pesos e contrapesos, a execução desse sistema, tudo isso parte dos Estados Unidos". Segundo Martins, o livro propõe "uma forma de enxergar os americanos através das suas contribuições para processos democráticos em todo o mundo".

Solidez das instituições norte-americanas

O pesquisador da Temple University salienta que, apesar das medidas controversas e antidemocráticas da parte do líder republicano, o aniversário de 250 anos também será uma oportunidade para os americanos comemorarem a solidez nas instituições do país.

"Na transição entre o presidente Donald Trump e o presidente Joe Biden em 2020, nós tivemos a insurreição que aconteceu no Capitólio e nada disso afetou as instituições. Houve uma troca de governo, houve uma troca de partido na Casa Branca e as instituições prevaleceram, por mais que o outro lado não reconheça até hoje o resultado daquela eleição", observa.

"Mas o fato é que um presidente da oposição foi empossado e o mesmo presidente que foi derrotado dizendo que houve fraude eleitoral, ele se candidatou novamente, venceu as eleições e agora está novamente no poder, o que mostra também que existe um princípio de consolidação democrática através, sobretudo, das sólidas instituições que foram instauradas pelos Estados Unidos", conclui.

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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