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'Me arrependo profundamente e levo esse erro como lição de vida', diz músico brasileiro ameaçado na Argentina

O cantor João Bueno descreveu à RFI as ameaças de morte que tem recebido por ter publicado nas redes sociais uma associação entre a derrota da seleção argentina na final da Copa do Mundo e a Guerra das Malvinas. A agressividade dos ataques aos brasileiros levou ao cancelamento do 10º Festival de São João em Buenos Aires, sob ameaças de bomba e de uma manifestação prevista para este sábado (25). A extrema direita aproveitou o episódio para elaborar um projeto de lei para cobrar dos brasileiros pelo ensino universitário público e pelos serviços de Saúde, atualmente gratuitos.

25 jul 2026 - 11h07
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Márcio Resende, correspondente da RFI em Buenos Aires

João Bueno em show em Buenos Aires. (Arquivo Pessoal)
João Bueno em show em Buenos Aires. (Arquivo Pessoal)
Foto: © Arquivo pessoal / RFI

O músico e cantor João Bueno, de 23 anos, volta ao Brasil como forma de acalmar os exaltados ânimos dos argentinos que, desde o domingo passado (19), o insultam e o ameaçam de morte como vingança por uma postagem nas redes sociais.

"Eu me arrependo de ter tocado nesse assunto sensível que eu desconhecia. Eu me arrependo de não ter pesquisado antes sobre essa história. Eu me arrependo de tudo porque estraguei a minha vida aqui. Eu me arrependo profundamente e estou levando como lição para a minha vida", desabafa à RFI.

O músico embarcou rumo ao Brasil aonde chega neste sábado, mas a cidade de destino será mantida em sigilo por questões de segurança. A cada minuto, nas redes sociais, Bueno recebe ofensas, figurinhas de macacos, de bananas e ameaças de morte por ter publicado no Instagram "Perderam as Malvinas, perderam o Diego e perderam a Copa", em referência à Guerra das Malvinas, ao ídolo Diego Armando Maradona e à derrota na final da Copa do Mundo para a Espanha.

"Estou recebendo muitas ameaças de morte. Se eu olhar agora no meu Instagram. Haverá uma nova ameaça. É minuto a minuto, até segundo a segundo. Mandam ameaças também a membros da minha família e a qualquer pessoa cujo sobrenome seja 'Bueno'. Tive de sair de casa porque a qualquer momento poderia vazar também o meu endereço e as ameaças virtuais passariam a ser um atentado real", descreve aterrorizado.

Guerra das Malvinas

O músico especializado em sertanejo chegou há três anos a Buenos Aires, período durante o qual a questão da legítima reivindicação argentina sobre as Ilhas Malvinas não tinha tido tanta repercussão como durante este campeonato mundial, quando a seleção argentina enfrentou a Inglaterra numa das semifinais. A vitória argentina no campo de futebol foi uma vingança simbólica em relação à derrota no campo de batalha em 1982. A reivindicação argentina permeou o jogo e materializou-se na bandeira exposta pelos jogadores da seleção na qual se lia "As Malvinas são argentinas", lema com o qual a diplomacia brasileira concorda, apoiando a causa em cada votação na ONU.

João Bueno não tinha conhecimento do tema enquanto vivia no Brasil e não percebeu a dimensão da ferida ainda aberta na sociedade argentina até hoje. Da publicação nas redes sociais, o que ofendeu profundamente os argentinos foi justamente a questão Malvinas. Ao mencionar o tema, o cantor elevou a ofensa a uma causa patriótica que une todos os argentinos.

"Quando eu escrevi 'Perderam as Malvinas', eu não tinha noção nenhuma da magnitude do assunto para os argentinos. Agora, eu sei que é uma causa muito nobre para eles. Aprendi da pior maneira e peço perdão. O que fiz foi errado, um erro grande", suplica o brasileiro.

A publicação de Bueno no Instagram ficou disponível por apenas 30 minutos. Apesar disso, foi o tempo suficiente para que algum dos seus seguidores enviasse a publicação a outras redes sociais, chegando ao X. No perfil do músico, estava o número de celular para contratações musicais. E foi aí que começou o pesadelo.

"No Instagram, tive 650 mil visualizações. Passei de quatro mil a 34 mil seguidores. A publicação no X, que revelava os meus contatos pessoais teve 2,5 milhões de visualizações. Um canal de TV aberta divulgou o assunto. Nas redes sociais, estão oferecendo uma recompensa para quem descobrir o meu endereço. Tive de sair de casa. É tudo muito louco e exagerado", assusta-se.

Quando a seleção brasileira foi eliminada no jogo contra a Noruega, o músico recebeu mensagens chamando-o de macaco, que ele deveria voltar para a favela, enviando emojis de bananas e de macacos. Um vizinho passava cartas com ofensas por baixo da porta e gritava insultos a João por ter comemorado um gol do Brasil durante o campeonato. O músico só pretendia revidar a rivalidade sem saber que tocaria no ponto mais sensível dos argentinos.

"Eu só queria atingir os amigos que tinham publicado contra o Brasil. Era para ser um desabafo sadio de futebol. No calor do momento, fiz essa besteira de ter escrito aquilo. Nunca fui de arrumar confusão. Sempre fugi das brigas. Aprendi que devo pensar muito antes de dar a minha opinião, que devo pesquisar muito sobre a história e a cultura local. Nunca mais vou publicar nada sobre futebol nem política. Nem mesmo se o Brasil ganhar a Copa do Mundo", promete.

"Eu acho que, pra mim, a música em Buenos Aires acabou. Terei de mudar o foco porque vai ser muito difícil eu poder voltar a trabalhar aqui. Vou começar a investir na minha carreira agora no Brasil", lamenta.

Festival cancelado

O caso teve desdobramentos. O 10º Festival de São João, marcado para este sábado (25) no Teatro Verdi, na capital argentina, foi cancelado depois de ameaças de bomba, de morte aos organizadores e dos músicos e de um protesto que se organizava contra o público previsto em 1.400 pessoas.

Durante 12 horas, a partir das 13 horas deste sábado, dez atrações musicais de vários gêneros e diversas opções de gastronomia pretendiam atrair brasileiros e argentinos para um evento típico do Brasil, mas os músicos e os organizadores também receberam ataques pessoais. João Bueno era um deles.

"Eu me sinto culpado porque outros músicos foram afetados. Os outros músicos não têm culpa de cada. Muita gente vive desses eventos. Eu pedi desculpas, mas não tenho como conter o que está acontecendo", diz Bueno.

Num primeiro momento, João Bueno foi excluído do festival. Posteriormente, todos os envolvidos com o festival foram atacados, comprometendo o evento, organizado pela Associação de Mulheres e Mães Brasileiras na Argentina (AMMBRAR).

"A ideia inicial era só cancelar a participação do João, mas as ofensas se espalharam a todos. Chamam a gente de macaca, de prostitutas. Avisam que vão nos matar, decapitar os nossos filhos, que vão nos apunhalar na rua. Dizem que devemos ser deportados. Nem consigo ver mais as mensagens porque o próprio Instagram as bloqueia devido aos seus conteúdos agressivos. Estamos assustados", conta Ana Paula Santana, fundadora e presidenta da AMMBRAR.

"Tivemos de cancelar toda a festa porque ameaçaram bombardear todo o teatro. Não acredito que possam chegar a esse extremo, mas, por trás de tantos perfis falsos e de tantas ameaças virtuais, pode haver algum doido que passe à realidade. Somos famílias, somos mães com filhos, a maioria casadas com argentinos. Temos compromissos com crianças. Não podemos arriscar. De concreto, descobrimos que estavam organizando uma marcha de protesto até a porta do teatro. Também invadiram a página web do espaço. Não tínhamos mais como continuar com o evento", disse Ana Paula.

"João é muito jovem. Não apoio o que ele fez num momento de impulso, mas acredito nele. Ele chorou, explicando que não tinha ideia de quanto isso era um tema delicado para os argentinos. Eu acredito nele. Senti muita verdade. Ele está pagando um preço altíssimo pelo que fez. Faz parte do amadurecimento. Ele não tinha consciência da dimensão do comentário. Está com a cabeça destruída por esse linchamento digital", pondera Ana Paula.

"Por mais que a gente peça desculpas e que tente instaurar a paz, parece que as pessoas querem ver algum morto. A sensação é de que querem ver sangue", observa.

"Ainda não estou preparada para isso. Em 10 anos de residência na Argentina, nunca me ofenderam. Nunca sofri nenhum tipo de preconceito nem de discriminação. Não posso acusar os argentinos de racistas porque nunca sofri nada de nenhuma maneira. Pelo contrário: sempre fui muito respeitada. Não é normal a proporção que esse episódio está tomando. Deve ser o calor do momento", avalia.

Estudantes ameaçados

As ameaças sofridas por João, por Ana Paula e pelos músicos do festival repetiram-se a cerca de outras quinze pessoas, estudantes de Medicina que festejaram nas redes sociais a vitória da Espanha na final.

Rapidamente, usuários da rede social X prepararam uma planilha com o nome e os contatos de cada universitário que torceu contra a Argentina. A indignação passa pelo argumento de que esses brasileiros estudam de graça no país, desrespeitando quem não lhes cobra pelo ensino. Futebol e política se misturam nessa lógica nacionalista.

"Não vou sossegar enquanto não vir a cabeça de um brasileiro perfurada na praça", escreveu um homem nas redes sociais. "Todos os brasileiros devem ser deportados", acrescentaram centenas de outros. "Comem a nossa comida, comem no nosso prato e cospem no prato que comem", ecoaram outros. Muitos pedem que os brasileiros "traidores da pátria" sejam expulsos das universidades e, se já forem formados, que tenham o título revogado.

Os dados pessoais desses estudantes também foram expostos pelo sensacionalista canal de TV Crónica, incentivando que os estudantes estrangeiros sejam cobrados por mais que façam parte da rede pública.

Cobrança aos estrangeiros

O debate que pede pela cobrança de estrangeiros nas universidades e na rede pública de Saúde tem sido impulsionado, sem sucesso, pelo presidente Javier Milei. Quer seja pela Constituição argentina, pelo Tratado Internacional do Mercosul, pelo convênio bilateral Brasil-Argentina, pela autonomia das universidades ou pela jurisdição dos hospitais, o Governo Federal tem poucas chances de implementar a cobrança.

No entanto, o deputado de extrema direita Agustín Romo, da província de Buenos Aires (que não inclui a capital argentina), a mais importante do país, onde vivem 40% dos argentinos, apresentou nesta semana um projeto de lei na Assembleia Legislativa para cobrar dos estrangeiros sem residência permanente pelo ensino atualmente gratuito e pelo uso dos hospitais públicos.

O presidente Javier Milei, por sua vez, passou a semana publicando mensagens para se defender do que chama de uma campanha internacional contra a Argentina durante a Copa do Mundo e, sobretudo, após a final com a Espanha.

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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