Um mês depois dos terremotos, EUA e Israel ampliam presença na Venezuela
A atuação de militares dos dois países em La Guaira expõe a reconfiguração das alianças internacionais do chavismo após a queda de Nicolás Maduro. A tragédia venezuelana completa um mês nesta sexta-feira (24).
Pedro Pannunzio, correspondente da RFI em Caracas
Até o momento, os dados oficiais, divulgados diariamente pelo governo de Delcy Rodríguez, indicam que 5.400 pessoas morreram. A tendência é que esses números subam nas próximas semanas, já que os trabalhos agora estão centrados na busca pelos corpos dos sobreviventes.
Desde o dia 24 de junho, quando os sismos de magnitude 7,2 e 7,5 derrubaram centenas de edifícios, sobretudo no estado de La Guaira, a Venezuela recebeu quase 40 equipes internacionais de socorristas para auxiliar nas buscas por possíveis sobreviventes. Com a janela para um resgate com vida fechada, quase todas as missões voltaram aos seus países. Há, no entanto, ao menos duas equipes internacionais que permanecem em solo venezuelano - e que escancaram os novos rumos do chavismo após o sequestro de Nicolás Maduro pelas forças norte-americanas.
Desde que La Guaira veio abaixo, militares dos Estados Unidos e de Israel trabalham lado a lado com o governo venezuelano. Parte do efetivo norte-americano está instalado no aeroporto de Maiquetía, o principal do país, localizado no epicentro da tragédia. Danificado pelos tremores, o aeroporto opera apenas voos diplomáticos e carregamentos humanitários. A operação comercial deve ser retomada em agosto, mas ainda não há uma data prevista.
Do lado de fora do terminal, a devastação continua a ditar o ritmo da cidade. Enormes blocos de concreto permanecem empilhados onde antes havia edifícios, barracas improvisadas abrigam famílias desalojadas e milhares de motos cruzam, todos os dias, as ruas congestionadas por caminhões e maquinário pesado, para transportar suprimentos aos voluntários e afetados pelos terremotos. Posicionado em frente à costa de La Guaira, outro elemento passou a fazer parte da paisagem: o porta-aviões USS San Antonio, onde está baseada outra parcela do contingente militar norte-americano.
Reconfiguração de alianças
A presença do navio é apenas a face mais visível do envolvimento dos Estados Unidos na resposta ao desastre. Ao todo, cerca de 2 mil militares norte-americanos estão baseados na Venezuela. "Em termos da estrutura militar, obviamente, o que se percebe é que os Estados Unidos têm o controle operacional do aparato militar venezuelano, não apenas em relação aos equipamentos, mas também à sua disposição e estratégia", disse Alejandro Velasco, venezuelano e professor de história latino-americana na Universidade de Nova York.
A presença de militares israelenses é outro indício da reconfiguração das alianças internacionais dos herdeiros de Hugo Chávez. Durante o governo do ex-presidente, Caracas rompeu relações diplomáticas com Israel, em 2009, na esteira dos ataques contra a Palestina. Hoje, militares israelenses circulam livremente pelo território venezuelano, apesar de os dois países ainda não terem restabelecido formalmente suas relações diplomáticas.
"Organizamos um painel de monitoramento que permite, através de parâmetros estabelecidos a partir de big data, de grandes quantidades de dados de inteligência artificial e outras tecnologias desenvolvidas em Israel, priorizar onde começar primeiro, o que reparar e o que deve ser demolido", disse Roni Kaplan, porta-voz das Forças de Defesa de Israel, durante uma entrevista ao canal venezuelano Venevisión, ao falar sobre as ações realizadas em conjunto com o governo Delcy Rodríguez.
Nessa semana, a delegação israelense foi recebida pela presidente interina. Em suas redes sociais, Kaplan publicou fotos do encontro e disse que "o chefe da delegação israelense, o brigadeiro-general Yosef (Yossi) Pinto, apresentou o trabalho conjunto realizado com nossos parceiros venezuelanos, tendo em vista o início da etapa de reconstrução das áreas afetadas pelos terremotos devastadores".
Para Velasco, a aproximação com antigos adversários escancara uma característica do chavismo: sua capacidade de adaptação. "O chavismo é, de certa forma, infinitamente adaptável. É profundamente camaleônico. Acho que isso é algo que muita gente não percebe, não entende ou talvez simplesmente não queira compreender."
Voluntários lideram as buscas
Enquanto as delegações estrangeiras redesenham o tabuleiro político da Venezuela, as buscas continuam em La Guaira. Um mês depois dos tremores, familiares das vítimas ainda procuram pelos corpos que permanecem sob os escombros.
Assim como nas primeiras horas após os desabamentos, a principal força que mantém os trabalhos de resgate é formada por voluntários. "Nós estamos aqui para apoiar, mas quem está comandando as buscas são os voluntários", confessou à RFI, nesta quinta-feira, um agente da Defesa Civil venezuelana, enquanto os familiares das vítimas entravam nos buracos abertos no concreto do que era um edifício de 12 andares em busca de algum sobrevivente.
Quase um mês depois da tragédia, eles ainda alimentavam a esperança de um milagre. Na noite anterior, disseram ter ouvido ruídos vindos debaixo da montanha de concreto. Equipes especializadas foram ao local e usaram aparelhos capazes de detectar sinais de vida. A possibilidade de haver sobreviventes foi descartada, para frustação dos familiares que acompanhavam as buscas sentados sob barracas improvisadas, numa tentativa de amenizar o calor.
Embora alguns ainda se apeguem à esperança de encontrar sobreviventes, a maioria já aceita que isso não acontecerá. Agora, buscam apenas recuperar os corpos dos parentes desaparecidos para, enfim, iniciar o processo de luto.
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