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Crise no STF expõe desgaste institucional e desafia credibilidade da Corte, aponta cientista político

Nos últimos anos, o Supremo Tribunal Federal (STF) consolidou-se como um dos principais protagonistas da vida pública brasileira, acumulando decisões de forte impacto político e institucional. Ao mesmo tempo, a Corte passou a enfrentar questionamentos crescentes sobre os limites de sua atuação e sobre sua capacidade de preservar a confiança da sociedade. A crise mais recente, desencadeada pelos desdobramentos das investigações envolvendo o Banco Master e seu controlador, Daniel Vorcaro, aprofundou o debate sobre transparência, imparcialidade e prestação de contas no Judiciário.

17 set 2026 - 11h45
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Resumo
Segundo o cientista político Carlos Ranulfo, o STF enfrenta grave crise de credibilidade que amplia a instabilidade nacional. Embora tenha sido essencial para frear ameaças democráticas no governo Bolsonaro, a Corte sofre forte desgaste devido a ataques da extrema-direita e a deslizes éticos dos próprios magistrados, como o recente escândalo do Banco Master envolvendo ministros. O desafio de recuperar a confiança institucional será agravado pela nomeação de cinco novos membros nos próximos anos.

Maria Paula Carvalho, da RFI

Para o cientista político Carlos Ranulfo Félix de Mello, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o episódio se insere em um contexto mais amplo de instabilidade política que o país atravessa desde as eleições de 2022. 

"O país parecia que, com a vitória de Lula em 2022, iria entrar no rumo normal. Mas não entrou. E isso agora está agravado pela crise do Supremo Tribunal Federal, que hoje está completamente desacreditado", afirma. 

"Essa fraude do Banco Master não atinge só o Supremo, atinge vários políticos e atinge todo mundo. Atinge o próprio Flávio Bolsonaro, que é um dos candidatos. Então, o país está numa crise muito grande", diz. 

Apesar das críticas ao momento atual da Corte, Ranulfo faz questão de destacar o papel desempenhado pelo Judiciário brasileiro durante os anos de maior tensão institucional do governo Jair Bolsonaro. 

"Quem garantiu a democracia no Brasil, no governo Bolsonaro, foi o Supremo e foi o TSE depois", afirma. "Sem um Judiciário independente e forte, a democracia no Brasil teria piorado muito." 

O cientista político considera que existe uma aparente contradição entre o prestígio conquistado pela Corte ao atuar como barreira contra ameaças institucionais e a atual crise de credibilidade. Segundo ele, parte desse desgaste decorre de erros cometidos pelos próprios ministros. 

"O Supremo se enredou em uma série de problemas. Decisões monocráticas e ministros se envolvendo onde não deveriam se envolver ou estabelecendo relações com empresários daqui e dali, aceitando convites para isso ou para aquilo. E aí acaba se desmoralizando", avalia. 

Ranulfo também ressalta que o tribunal vem sendo alvo de uma campanha sistemática de ataques por parte da extrema direita, sobretudo após as condenações relacionadas aos atos golpistas. "A extrema direita não aceita a prisão do Jair Bolsonaro. Acha que o julgamento foi uma fraude. Não foi. As provas são evidentes. Os caras tentaram o golpe", afirma. 

Imagem do Judiciário é abalada

Ainda assim, ele reconhece que as revelações recentes envolvendo integrantes da própria Corte contribuíram para enfraquecer a imagem institucional do STF. 

"No caso Master, dois ministros foram pegos com problemas. Primeiro foi o caso do Dias Toffoli. Agora, o caso do Moraes, que era um personagem emblemático na defesa da democracia no Brasil e foi pego em diálogos comprometedores com Daniel Vorcaro", aponta. 

Carlos Ranulfo Félix de Melo é cientista político da UFMG.
Carlos Ranulfo Félix de Melo é cientista político da UFMG.
Foto: RFI

Na avaliação do professor da UFMG, esse cenário fortalece politicamente grupos que defendem mudanças profundas no tribunal. "Quando esse negócio vira um escândalo nacional, esses candidatos se fortalecem e aí o Supremo perde credibilidade", diz. 

Renovação do STF

Para além da crise imediata, Ranulfo chama atenção para outro fator que poderá marcar o futuro da Corte: a ampla renovação em sua composição nos próximos anos. Segundo ele, independentemente de quem vença a próxima eleição presidencial, haverá um volume expressivo de indicações para o STF. 

"O próximo presidente, seja ele quem for, vai nomear cinco ministros do Supremo", afirma. Para o cientista político, esse processo torna ainda mais delicada a tarefa de recompor a autoridade institucional do tribunal. "A recuperação da sua credibilidade não depende das urnas. Essencialmente, é por isso que o problema é mais amplo", conclui. 

A análise sugere que a crise atual ultrapassa os desdobramentos do caso Banco Master e os embates políticos do momento. Mais do que o resultado de investigações ou julgamentos específicos, o desafio colocado diante do STF é reconstruir a confiança pública em uma instituição que foi decisiva para a preservação da democracia brasileira nos últimos anos, mas que hoje enfrenta questionamentos sobre sua própria legitimidade. 

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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