Maradona poderia ter melhorado em 48h se tivesse tomado diurético, diz médico em tribunal argentino
Um médico que acompanhou Diego Maradona em vida e presenciou sua autópsia afirmou nesta sexta-feira (15), em julgamento na Argentina, que o ex-jogador poderia ter apresentado melhora significativa em poucas horas se tivesse recebido um tratamento básico. A declaração foi feita durante audiência que apura responsabilidades médicas pela morte do ídolo, ocorrida em 25 de novembro de 2020.
Segundo o intensivista Mario Schiter, Maradona apresentava um quadro avançado de retenção de líquidos no momento da morte. De acordo com o especialista, havia acúmulo no pericárdio, na cavidade torácica e no abdômen — condição típica de insuficiência cardíaca congestiva. Ele sustentou que a administração de diuréticos poderia ter revertido rapidamente o quadro clínico.
"Pacientes nessas condições costumam responder em poucas horas. Em cerca de 48 horas, ele já deveria estar significativamente melhor", afirmou o médico, que disse ter contato frequente com casos semelhantes em unidades de terapia intensiva.
Segundo ele, intervenções desse tipo são rotineiras e, em muitos casos, permitem alta hospitalar em menos de um dia.
O depoimento foi dado ao longo de quase cinco horas, na décima audiência do processo realizado em San Isidro, na região metropolitana de Buenos Aires. A fala se soma a uma série de testemunhos de peritos que destacam a gravidade do estado clínico de Maradona, descrito como caracterizado por edema generalizado — expressão que indica retenção de líquidos em diversas partes do corpo.
O ex-jogador morreu durante internação domiciliar, pouco mais de três semanas após ter passado por uma cirurgia neurológica considerada bem-sucedida. A causa oficial foi edema pulmonar associado a parada cardiorrespiratória.
Negligência
O julgamento apura se houve negligência no acompanhamento médico durante o período pós-operatório. O principal acusado é o neurocirurgião Leopoldo Luque, que atuava como médico pessoal de Maradona. Ele responde ao lado de outros profissionais de saúde por homicídio com dolo eventual — quando há consciência de que uma conduta pode levar à morte.
A sessão desta semana foi marcada por tensão e terminou interrompida após um episódio envolvendo o próprio Luque. Sem aviso prévio, o médico exibiu imagens da autópsia do ex-jogador em plenário. Entre os presentes estava Gianinna Maradona, filha do ídolo, que não teve tempo de deixar a sala antes da exibição.
Ao ver as imagens do corpo do pai, Gianinna reagiu com indignação, levantou-se e saiu gritando insultos. A situação gerou comoção e levou à suspensão imediata da audiência. Habitualmente, registros desse tipo são apresentados durante o processo, mas com aviso prévio às partes, permitindo a retirada de familiares.
Penas podem chegar a 25 anos de prisão
Além de Luque, outros seis profissionais de saúde são julgados sob a acusação de terem contribuído para a morte do ex-jogador. Em caso de condenação, as penas podem chegar a 25 anos de prisão. Uma oitava pessoa envolvida no caso será julgada separadamente por um júri popular.
O processo atual é o segundo sobre o tema. O primeiro julgamento foi anulado em 2025 após vir à tona a atuação irregular de uma magistrada, que participava da produção de um documentário sobre o caso sem autorização formal.
A nova fase do julgamento ocorre em meio a forte atenção pública e mantém como foco central a qualidade do atendimento prestado a Maradona nos dias que antecederam sua morte. Para a acusação, houve falhas graves no monitoramento clínico e na adoção de medidas básicas. Já as defesas sustentam que o quadro do ex-jogador era complexo e incompatível com uma recuperação simples.
As próximas audiências devem seguir com novos depoimentos de especialistas e integrantes da equipe médica que acompanharam o ex-atleta.
Com AFP
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