Le Monde repercute ataques à deputada Erika Hilton e denuncia 'banalização da transfobia' no Brasil
Os ataques à deputada Erika Hilton após a escolha de seu nome para presidir uma comissão parlamentar federal com o objetivo de defender os direitos das mulheres são destaque no jornal francês Le Monde desta sexta-feira (3). A matéria contextualiza a eleição de Hilton para liderar a comissão, criada em 2016. É a primeira vez na história que o cargo é ocupado por uma pessoa transgênero. O Brasil é o país onde mais se mata pessoas trans no mundo, e a maioria delas são mulheres negras e jovens.
"No dia 11 de março, Erika Hilton, de 33 anos, deputada do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL, de esquerda), entrou para a história: com 10 votos a favor e 12 votos em branco, tornou-se a primeira pessoa transgênero a ser eleita para presidir uma comissão parlamentar federal, criada em 2016 para defender os direitos das mulheres", contextualiza o jornal francês Le Monde nesta sexta-feira (3), no início da matéria.
"Esta presidência é o símbolo de uma democracia em crescimento", reagiu a deputada destacada pela reportagem, enquanto diversas figuras da direita contestaram sua eleição, considerada "injusta". "Para ser mulher, é preciso ter um útero e menstruar", declarou o ultraconservador Carlos Roberto Massa na televisão, publica o vespertino.
Black face no Congresso para justificar transfobia
Em outro caso emblemático, segundo o Monde, "a deputada de extrema-direita e evangélica Fabiana Barroso se pintou de marrom na Assembleia Legislativa de São Paulo: 'Após 32 anos como pessoa branca, não basta me travestir de pessoa negra para me tornar uma', declarou, em protesto contra a eleição de Hilton".
Segundo o diário, a polêmica evidencia a banalização da transfobia no Brasil, onde 80 pessoas transgênero foram assassinadas em 2025, colocando o país no topo da lista dos que mais matam esse público no mundo, segundo a Associação Nacional de Travestis e Pessoas Transgênero (ANTRA).
"Determinada a se defender, a deputada Erika Hilton diz não se deixar intimidar e processou quem a acusa. Ao mesmo tempo, 12 organizações feministas e de defesa dos direitos humanos assinaram uma petição para expressar seu apoio à manutenção de Erika Hilton no cargo e à legitimidade da sua eleição pelos deputados", diz Le Monde.
Em escala global, relatórios como o Trans Murder Monitoring mostram que o Brasil concentra cerca de 30% dos assassinatos de pessoas trans no mundo, e a América Latina responde por cerca de 68% desses casos. Historicamente, o país lidera esse ranking desde 2008, chegando a representar mais de 30% das mortes globais recentes. As vítimas são majoritariamente mulheres trans, negras e jovens, o que evidencia a interseção entre transfobia, racismo e desigualdade social como fatores estruturais da violência.
Ao mesmo tempo, desde 2016 o país é apontado por sites como RedTube como um dos maiores — e em alguns casos o principal — consumidor de pornografia trans no planeta, mantendo presença constante entre os primeiros colocados.