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América Latina

EUA: Recrutamento acelerado no ICE expõe falhas, riscos e custo político crescente nos EUA

O debate sobre a expansão acelerada do Immigration and Customs Enforcement (ICE) ganhou novo fôlego neste começo de ano, após a morte de Renée Good, baleada por um agente da polícia de imigração em Minneapolis. O assassinato de Good, ocorrido em 7 de janeiro, provocou protestos, um dia de luto oficial na cidade e forte reação da opinião pública, reacendendo críticas às práticas da agência central da política de deportações em massa do presidente Donald Trump.

23 jan 2026 - 09h22
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Segundo levantamento da semana passada do instituto Quinnipiac, citado pela AFP, 57% dos eleitores americanos condenam as métodos do ICE, índice que sobe para 94% entre democratas e 64% entre independentes. Em outro sinal de desgaste inédito, pesquisa Economist/YouGov mostra que, pela primeira vez, a proporção de americanos favoráveis à extinção do ICE (46%) supera a dos que se opõem à medida (43%).

O comandante da patrulha de fronteira dos Estados Unidos, Gregory Bovino (à direita), durante uma operação do ICE em Minneapolis, Minnesota, em 21 de janeiro de 2026.
O comandante da patrulha de fronteira dos Estados Unidos, Gregory Bovino (à direita), durante uma operação do ICE em Minneapolis, Minnesota, em 21 de janeiro de 2026.
Foto: AFP - ROBERTO SCHMIDT / RFI

Expansão acelerada da agência

Essa rejeição crescente ocorre em meio a uma transformação estrutural da agência. Desde a aprovação do pacote orçamentário do governo Trump, o ICE passou a ocupar posição central na estratégia de segurança interna, com recursos financeiros inéditos e metas agressivas de recrutamento. Segundo a CNN, o governo pretende contratar até 10 mil novos agentes de deportação em questão de meses, impulsionado por bônus de contratação de até US$ 50 mil, além de benefícios como perdão de dívidas estudantis.

De acordo com o Departamento de Segurança Interna (DHS), o efetivo do ICE passou de cerca de 10 mil agentes para 22 mil em apenas um ano, um crescimento classificado como "sem precedentes" por especialistas ouvidos pela AFP.

Seleção negligente

Reportagens da CNN descrevem um processo de contratação conduzido em ritmo de emergência, para o qual a estrutura administrativa do ICE não estava preparada. Fontes internas afirmam que o setor de recursos humanos não consegue lidar com a contratação em massa, o que levou a falhas de comunicação, orientações contraditórias e contratações provisórias antes da conclusão das verificações de antecedentes.

O volume de candidaturas - mais de 175 mil, segundo o DHS - forçou o governo a deslocar funcionários da Agência Federal de Gestão de Emergências (FEMA) para apoiar o RH do ICE, um indicativo do colapso operacional do sistema, observa a CNN.

Jornalista "contratada" e falhas sistêmicas

As fragilidades do processo ganharam repercussão pública com o relato da jornalista Laura Jedeed, da Slate. Segundo ela, após uma entrevista de menos de seis minutos em uma feira de recrutamento no Texas, recebeu comunicações oficiais indicando uma oferta final de emprego, apesar de não ter fornecido documentos obrigatórios nem autorizado formalmente uma checagem de antecedentes.

Embora o DHS negue que tenha havido contratação definitiva, o episódio reforçou a percepção de que o sistema de recrutamento do ICE opera de forma opaca e desarticulada, justamente no momento em que a agência amplia rapidamente seu poder coercitivo, analisa o Guardian.

Paralelamente, o treinamento dos novos agentes foi reduzido para 47 dias no Federal Law Enforcement Training Center (FLETC), na Geórgia. Mais de 200 recrutas já foram desligados da academia por não atenderem a requisitos físicos ou acadêmicos, algo considerado raro no passado por instrutores veteranos, relata a CNN.

Métodos contestados e choque cultural

Além das falhas administrativas, as táticas operacionais do ICE vêm sendo cada vez mais questionadas, inclusive por vozes tradicionalmente alinhadas a Donald Trump. Citado pela AFP, Joe Rogan, que mantem um podcast com mais de 20 milhões de seguidores e foi um ferrenho defensor de Trump nas últimas eleições, comparou a atuação da polícia de imigração à da Gestapo, afirmando que agentes "equipados como militares" abordam pessoas nas ruas - inclusive cidadãos americanos sem documentos - em nome do controle migratório.

Para o professor de direito Steven Schwinn, da Universidade de Illinois em Chicago, ouvido pela AFP, essas práticas entram em choque com princípios centrais da cultura jurídica americana, especialmente no que diz respeito a controles de identidade, legalmente permitidos apenas em casos de "suspeita razoável".

"Imunidade" e desgaste político

O mal-estar é agravado pela proteção política explícita concedida aos agentes. O conselheiro da Casa Branca Stephen Miller declarou recentemente que os agentes do ICE têm "imunidade" para cumprir sua missão, enquanto o vice-presidente JD Vance afirmou que o policial envolvido na morte de Renée Good gozaria de "imunidade absoluta", relata a AFP.

Segundo o site Axios, o próprio Executivo reconhece, em pesquisas internas, uma erosão do apoio ao ICE inclusive entre eleitores conservadores. Um assessor próximo à Casa Branca resumiu a contradição: "O presidente quer expulsões em massa. O que ele não quer é o que as pessoas estão vendo".

Um "monstro orçamentário" às vésperas das eleições

O ICE deverá receber cerca de US$ 75 bilhões até 2029, segundo a CNN. A emissora Franceinfo estima o orçamento anual atual em US$ 37 bilhões, triplicado em apenas um ano - valor que supera o orçamento combinado de várias outras agências federais.

Às vésperas das eleições de meio de mandato, o custo humano, político e financeiro dessa expansão começa a pesar. Em um país  pressionado pela inflação e pelo custo de vida, a rápida multiplicação de agentes armados, recrutados às pressas e protegidos politicamente, tornou-se um dos pontos mais sensíveis - e potencialmente explosivos - do segundo mandato de Donald Trump.

Com agências

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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