EUA: fascinação de Pete Hegseth pelas Cruzadas reforça componente religioso no conflito do Oriente Médio
A guerra continua no Oriente Médio. Entre aqueles que a personificam nos Estados Unidos está o secretário da Guerra, Pete Hegseth. Ele não se limita a comentar assuntos militares; acrescenta prontamente uma dimensão religiosa ao conflito.
Guillaume Naudin, da RFI
Durante uma coletiva de imprensa na terça-feira (31), Hegseth intercalou suas declarações com uma oração pelos soldados em combate. Em um culto no Pentágono, uma semana antes, ele havia pedido a Deus por "violência avassaladora contra aqueles que não merecem misericórdia".
É preciso destacar que Pete Hegseth tem uma interpretação bastante particular — e enfática — de sua fé. Ela remete claramente às Cruzadas, ou seja, que não representam o momento mais ecumênico da história do cristianismo.
Isso se evidencia em duas tatuagens que ele tem e nunca fez questão de esconder. No peito, traz uma cruz de Jerusalém, símbolo usado pelos cruzados nas guerras travadas na Terra Santa. No bíceps direito, ostenta duas palavras em escrita gótica: Deus vult, em latim, que significa "Deus o quer" — um grito de guerra dos cruzados ao massacrarem muçulmanos. E, para deixar claro que não é muçulmano, exibe desde o ano passado uma terceira tatuagem, em árabe: kafir, termo que significa "descrente" ou "infiel".
Controvérsia
Essas escolhas já lhe renderam críticas e problemas. O que está em jogo aqui é mais um choque de civilizações do que qualquer tentativa de diálogo. Quando era integrante da Guarda Nacional, as tatuagens — associadas ao movimento nacionalista cristão de extrema direita — levaram à sua exclusão da equipe de segurança na posse de Joe Biden, em 2021, quando milhares de soldados foram mobilizados em Washington após o ataque ao Capitólio, em 6 de janeiro.
Embora o conflito entre Israel e Irã já contenha um componente religioso, a leitura de Pete Hegseth introduz uma camada distinta — uma visão cruzadista cristã, própria do evangelicalismo político norte-americano e alheia às motivações originais do Oriente Médio.
As Cruzadas foram uma série de expedições militares lideradas por poderes cristãos europeus entre os séculos XI e XIII, oficialmente convocadas para retomar Jerusalém e outros territórios considerados sagrados que estavam sob domínio muçulmano.
Embora apresentadas como guerras religiosas, também envolveram disputas políticas, econômicas e territoriais. Seus símbolos, lemas e imaginário — como a cruz de Jerusalém e o grito Deus vult — tornaram-se marcadores de identidade guerreira cristã e, séculos depois, foram recuperados por grupos nacionalistas e extremistas em diferentes países.
No domingo (29), em Roma, Leão XIV, o primeiro papa nascido nos Estados Unidos, declarou que o Deus católico "rejeita a guerra e não ouve as orações daqueles que a promovem".
Enquanto o vice-presidente JD Vance e o secretário de Estado Marco Rubio são católicos, Pete Hegseth é um cristão evangélico particularmente proselitista. No Pentágono, levou consigo um pastor que, entre outras posições, é contrário ao voto feminino.
Hegseth também determinou que, a partir de agora, capelães do Exército norte-americano deixem de usar suas patentes no uniforme, adotando em seu lugar um distintivo religioso. A medida preocupa antigos líderes militares e religiosos entrevistados pelo jornal Washington Post, que temem que quem não aderir à nova orientação seja marginalizado.
Cristianismo eleitoral
Trata-se de uma ideologia religiosa que inspira boa parte da política atual nos Estados Unidos — por motivos de fé, mas sobretudo por razões eleitorais. Os cristãos evangélicos representam uma fatia significativa do eleitorado MAGA (Make America Great Again, lema do trumpismo). Ao longo da campanha, Donald Trump enviou diversos sinais a esse grupo. Fez isso novamente ao criar, recentemente, um Escritório da Fé na Casa Branca.
A influência também se estende à política externa. Na Nigéria, o governo Trump acusou as autoridades locais, sem apresentar provas, de permitir massacres de cristãos, antes de firmar com elas um acordo de cooperação na área da saúde que previa financiamento expressivo para instituições cristãs.
Por fim, a atual guerra no Oriente Médio, travada ao lado de Israel, não encontra resistência entre os evangélicos norte-americanos. Sua leitura literal da Bíblia os leva a crer que o fortalecimento de Israel é condição para a volta de Cristo à Terra após o Apocalipse.