Script = https://s1.trrsf.com/update-1779108912/fe/zaz-ui-t360/_js/transition.min.js
PUBLICIDADE

América Latina

Publicidade

Colombianos votam para escolher sucessor do presidente Petro, após campanha marcada pela violência

Os 41 milhões de eleitores da Colômbia começam a escolher neste domingo (31) o sucessor do presidente Gustavo Petro. A esquerda busca se manter no poder, após a vitória inédita há quatro anos, e a extrema direita promete segurança diante do aumento da violência de grupos armados.

31 mai 2026 - 12h09
Compartilhar
Exibir comentários

Isabelle Le Gonidec, da RFI em Paris

Ivan Cepeda, Paloma Valencia e Abelardo de la Espriella são os três principais candidatos às eleições presidenciais da Colômbia, cujo primeiro turno é realizado neste 31 de maio de 2026.
Ivan Cepeda, Paloma Valencia e Abelardo de la Espriella são os três principais candidatos às eleições presidenciais da Colômbia, cujo primeiro turno é realizado neste 31 de maio de 2026.
Foto: AFP - RAUL ARBOLEDA,SERGIO YATE,LUIS ACOSTA / RFI

As seções eleitorais estão abertas das 8h às 16h, pelo horário local, e os resultados do primeiro turno são esperados algumas horas após o fechamento das urnas. O país sul-americano vivencia o pior surto de violência desde a assinatura do acordo de paz com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) em 2016. Centenas de líderes comunitários e civis foram assassinados ou morreram em ataques, e um candidato à presidência foi morto.

Os principais candidatos na eleição divergem sobre como encerrar o conflito armado interno, que já dura seis décadas. De um lado, há a proposta de continuar negociando a paz com os grupos armados, que se expandiram nos últimos anos. O campo oposto propõe usar a força para derrotar as guerrilhas, ex-paramilitares e cartéis.

A violência marcou a campanha, na qual três candidatos se destacaram: Ívan Cepeda, de esquerda, apoiado pelo Pacto Histórico; Paloma Valencia, do Centro Democrático; e Abelardo De la Espriella, um advogado de extrema direita que ingressou recentemente na política. Doze chapas disputam a presidência e a vice-presidência, e as pesquisas mostram Cepeda à frente no primeiro turno há várias semanas.

Violenta campanha

Os três principais candidatos escolheram Barranquilla, a quarta cidade mais populosa da Colômbia, na costa caribenha, para encerrar suas campanhas neste fim de semana. Em terceiro lugar nas pesquisas, Paloma Valencia dividiu o palanque com autoridades locais, enquanto De la Espriella fez um discurso, sozinho no palco, às margens do rio Magdalena. Ívan Cepeda, por sua vez, encerrou a campanha em um bairro operário.

Três estilos, três projetos políticos e três personalidades diametralmente opostas, que apresentaram suas propostas por meio da imprensa e das redes sociais sem debates diretos entre eles, em um clima altamente polarizado e, por vezes, esdrúxulo. Abelardo De la Espriella, por exemplo, alardeou o tamanho do seu pênis em um programa de televisão para atrair eleitoras.

A candidata do Centro Democrático também ganhou destaque com um vídeo no qual encena um debate simulado criado por inteligência artificial (IA) com um holograma de Cepeda, que desaparece em uma nuvem de fumaça quando lhe é feita uma pergunta. A campanha ainda teve a divulgação de uma gravação de áudio, apontada posteriormente falsa por uma investigação policial, na qual um suposto porta-voz de uma dissidência das antigas FARC é ouvido pressionando eleitores a elegerem Cepeda.

Assassinato de candidato

As ameaças à segurança de candidatos e eleitores são uma realidade em regiões onde grupos armados atuam, como Guaviare, Cauca, Antioquia, Meta e Caquetá.

Segundo o Registro Nacional, órgão público responsável pelas eleições, em cerca de 100 municípios, a entrega segura do material eleitoral não pôde ser garantida. Um mapa de risco eleitoral foi elaborado pela Missão de Observação Eleitoral, destacando a insegurança em várias centenas de municípios devido à presença de grupos armados, mas enfatizando que não há risco significativo de interferência nos processos de votação. Os grupos armados representam uma ameaça à segurança, mas não influenciam as escolhas dos eleitores.

O assassinato, em junho de 2025, de Miguel Uribe, senador e provável candidato do Centro Democrático à eleição presidencial de 2026, serve como um lembrete de que líderes políticos são alvos de máfias, grupos paramilitares e guerrilhas. Segundo a investigação oficial, a organização criminosa Segunda Marquetalia, liderada por Iván Márquez e um dos grupos mais significativos derivados das antigas FARC que rejeitaram o acordo de paz, ordenou a morte.

Nos últimos meses, o país foi atingido por diversos atentados, como o de 25 de abril, que matou cerca de 20 pessoas em Cauca. O recrudescimento da violência representa um duro golpe para a política de paz com todos os grupos armados, iniciada em 2022 por Gustavo Petro no começo de seu mandato.

A própria campanha eleitoral foi marcada por assassinatos, incluindo os de vários membros das equipes dos candidatos Paloma Valencia e De la Espriella no município de Meta nas últimas semanas. Os candidatos acusaram o presidente de ser responsável por essa violência. "Exigimos garantias para a oposição política por parte do governo", publicou Paloma Valencia.

Embora as vítimas mais recentes sejam classificadas como politicamente de direita, são os partidos de esquerda e os ativistas sociais que pagam o preço mais alto pela insegurança. Nos últimos anos, defensores dos direitos ambientais e indígenas, ex-guerrilheiros das FARC que retornaram à vida civil e até mesmo jornalistas - como o jovem Mateo Pérez, que investigava a economia ilícita ligada a grupos armados - foram vítimas de grupos paramilitares com interesses privados.

Ívan Cepeda, herdeiro de Petro

Nesse contexto, a oposição de direita mirou Ívan Cepeda, que lidera as pesquisas e cuja candidatura foi reforçada pela vitória do Pacto Histórico nas eleições legislativas de março. O possível sucessor de Gustavo Petro, o primeiro presidente de esquerda da Colômbia, é acusado de se beneficiar do aparato estatal em sua campanha e de contar com o apoio de grupos armados, após ter sido mediador e participante de longa data do processo de paz com os grupos criminosos.

"Ívan Cepeda conta com o apoio visível e ativo do presidente Petro, das redes dentro da administração pública e, sobretudo, de grandes setores da população, beneficiários das políticas atuais e preocupados com sua continuidade", observa Mauricio Trujillo, ex-deputado e ex-cientista político do Centro Nacional de Pesquisas Científicas da França (CNRS). 

"Mas o apoio do presidente também pode ser um fardo, forçando Ívan Cepeda a se distanciar de seu antecessor e a se desvencilhar de seus fracassos, particularmente na área da segurança."

Filho de um dos fundadores do Partido Comunista Colombiano, assassinado em 1994 por paramilitares, Cepeda, nascido em 1962, é um ativista de direitos humanos de longa data. Ele luta pelo reconhecimento dos direitos das vítimas do conflito armado na Colômbia e pela tipificação do crime de homicídio político.

Filósofo, ele viveu a infância em Cuba, no Leste Europeu e na Rússia, devido ao exílio político de seus pais. Após o assassinato de seu pai, foi forçado a se exilar novamente, desta vez na França, onde estudou direito internacional humanitário.

Ao retornar à Colômbia, foi eleito para a Câmara dos Deputados e, posteriormente, para o Senado. Ele atua no Parlamento desde 2010 e se tornou uma das vozes mais proeminentes da esquerda e um dos principais defensores das vítimas da violência, tanto no Parlamento quanto no movimento que fundou, o Movice.

Cepeda é um dos mais ferrenhos opositores políticos de Álvaro Uribe, ex-presidente (2002-2010), a quem acusa de fomentar o paramilitarismo. Menos ativo nas redes sociais do que seus oponentes, conduziu uma campanha discreta e popular ao lado de sua candidata a vice-presidente, Aida Quilcué, indígena do povo Nasa, ativista pelos direitos indígenas e também senadora.

Batalha da direita

Na direita, os dois rivais de Cepeda disputam posições no segundo turno. Paloma Valencia, de 47 anos, foi escolhida para assumir a liderança do partido Centro Democrático, fundado por Álvaro Uribe, que é de centro-direita apenas no nome .

Senadora desde 2014, ela é herdeira de uma linhagem de líderes políticos. No espectro da política colombiana, as mesmas famílias concentram o poder há gerações - "a velha guarda", como disse seu rival Abelardo De la Espriella.

Economicamente liberal, ela é defensora de uma linha dura em segurança e socialmente muito conservadora, contrária à legalização do aborto. Paloma Valencia, no entanto, "introduziu uma dimensão inédita à campanha", observa Mauricio Trujillo, ao escolher Juan Daniel Oviedo como seu vice, que pode ser o primeiro vice-presidente abertamente gay na Colômbia.

Bem estabelecida nas regiões produtoras de café e em Bogotá, ela também busca apoio no Caribe, região de onde a família de De la Espriella é originária. Segundo as pesquisas mais recentes, ele aparece em segundo lugar.

Rico e elegante, advogado e empresário, Abelardo De la Espriella, de 47 anos, é apelidado de "El Tigre" e afirma ser discípulo de Javier Milei. A imprensa colombiana também o compara ao presidente de El Salvador, Nayib Bukele, de quem se inspira para propor megaprisões.

O advogado, que se apresenta como uma cara nova, sem ligações com a classe política tradicional colombiana, é adepto de uma linha dura. Figura controversa, ele é acusado de ter ligações com o narcotráfico. Como advogado, com escritório em Miami, defendeu, entre outros, Alex Saab, um colaborador do governo Maduro expulso recentemente da Venezuela e acusado de ser testa-de-ferro do ex-presidente no narcotráfico.

De la Espriella também tem ligações com o paramilitarismo. Ele confessa sua admiração e amizade por Salvatore Mancuso, que foi condenado a 40 anos de prisão na Colômbia em janeiro deste ano.

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
Compartilhar

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.

Publicidade

Conheça nossos produtos

Seu Terra