Democratas apostam em onda progressista e retomada de Congresso nos EUA, apesar de temor por rejeição
A menos de dois meses das eleições legislativas de 3 de novembro nos Estados Unidos, os democratas veem surgir uma oportunidade rara de retomar o controle do Congresso diante do desgaste de Donald Trump. Mas o avanço de candidatos ligados à ala mais à esquerda do partido e controvérsias envolvendo figuras como o influenciador Hasan Piker abriram um debate interno: até que ponto a energia do campo progressista pode ajudar os democratas a conquistar votos sem afastar eleitores decisivos para a disputa?
Apoiado em vitórias nas primárias, o Partido Democrata aposta no avanço de sua ala progressista para retomar o Congresso americano, aproveitando o desgaste de Trump entre os latinos devido às suas duras políticas migratórias. Contudo, a liderança partidária teme que a radicalização ideológica e recentes controvérsias com influenciadores de esquerda afastem eleitores moderados essenciais, ameaçando o sucesso da sigla na eleição de novembro caso o discurso não seja calibrado para o centro.
Vincent Souriau, correspondente da RFI em Washington, com informações da AFP
As disputas das primárias dos últimos meses, somadas às polêmicas envolvendo influenciadores progressistas, transformaram esse debate em um dos temas centrais da campanha.
A influência crescente da ala mais à esquerda do Partido Democrata ganhou visibilidade após uma série de vitórias inesperadas em eleições primárias realizadas ao longo do verão norte-americano. O fenômeno tem sido frequentemente associado ao impulso político gerado por Zohran Mamdani, eleito prefeito de Nova York há menos de um ano e transformado rapidamente em uma referência para setores progressistas da legenda.
O exemplo mais recente veio da Flórida. Na primária democrata para uma vaga no Senado realizada em 18 de agosto, Angie Nixon, integrante da organização Democratic Socialists of America (DSA), derrotou Alex Vindman por uma diferença de doze pontos percentuais. O resultado chamou atenção por ocorrer em um estado que, nos últimos anos, se tornou cada vez mais favorável aos republicanos.
Poucos dias antes, em 5 de agosto, Abdul El-Sayed conquistou a indicação democrata para a disputa por uma cadeira no Senado em Michigan. Embora não seja formalmente filiado ao DSA, ele é identificado com a ala mais progressista do partido e recebeu apoio de figuras como Bernie Sanders durante a campanha.
Em Washington, outro sinal da força dessa corrente surgiu ainda em junho, quando Janeese Lewis George, integrante do DSA, venceu a primária democrata para a prefeitura da capital norte-americana. Em uma cidade onde os democratas dominam amplamente a política local, ela aparece como favorita para se tornar a primeira prefeita ligada ao socialismo democrático da história do Distrito de Columbia.
Somados a outras disputas municipais e estaduais menos conhecidas nacionalmente, esses resultados alimentaram a percepção de que parte do eleitorado democrata busca candidatos dispostos a romper com o que considera uma postura excessivamente moderada da direção partidária.
Até onde vai o avanço da esquerda democrata
A questão, contudo, é saber se essas vitórias representam uma transformação estrutural do partido ou apenas uma sucessão de casos isolados amplificados pela repercussão nacional.
Para Elaine Kamarck, pesquisadora da Brookings Institution que acompanha a esquerda norte-americana há mais de duas décadas, o peso eleitoral do DSA costuma ser superestimado. Segundo ela, os triunfos mais emblemáticos geram forte atenção da imprensa, mas não refletem necessariamente uma expansão equivalente da influência da organização em todo o país.
"Se eles apresentassem muitos candidatos e vencessem sempre, poderíamos dizer 'uau, vejam isso'. Mas não é o que acontece", afirma Kamarck. "As eleições que eles ganham fazem muito barulho. Mas existem dezenas de milhares de disputas locais nos Estados Unidos, e eles apresentam apenas algumas centenas de candidatos."
Ainda assim, a pesquisadora reconhece que existe uma insatisfação crescente entre os eleitores mais jovens do Partido Democrata. Para esse grupo, a legenda tem reagido de forma tímida aos ataques políticos e institucionais de Trump, o que cria espaço para lideranças que prometem confrontos mais diretos.
O desafio é que o entusiasmo da base pode não coincidir com as necessidades eleitorais de uma disputa nacional. Para recuperar o Congresso, os democratas precisam ampliar sua coalizão para além dos militantes mais engajados e conquistar uma parcela significativa dos eleitores independentes.
Essa preocupação ajuda a explicar por que diversos candidatos progressistas vêm ajustando o discurso à medida que a campanha se aproxima da reta final. Em Michigan, por exemplo, Abdul El-Sayed tem procurado apresentar uma imagem menos ideológica, declarando-se capitalista e reivindicando simultaneamente os legados de Bernie Sanders e Barack Obama.
O fator Hasan Piker e o temor dos democratas
As preocupações da direção democrata se intensificaram nas últimas semanas por causa da controvérsia envolvendo Hasan Piker, um dos maiores influenciadores políticos da esquerda norte-americana.
Com mais de três milhões de seguidores na plataforma Twitch, Piker combina comentários sobre política internacional, cultura digital e temas sociais em transmissões diárias que atraem um público predominantemente jovem. Autodeclarado socialista e anti-imperialista, ele também se tornou um dos mais contundentes críticos de Israel no ambiente digital norte-americano.
A situação ganhou proporções nacionais após declarações feitas em 20 de agosto, quando o influenciador sugeriu que judeus que vinculam sua identidade ao apoio ao Estado de Israel poderiam acabar se expondo à violência. As declarações provocaram acusações de antissemitismo e foram imediatamente exploradas pelo Partido Republicano.
A reação dentro do campo democrata foi rápida. Abdul El-Sayed, que havia feito campanha ao lado de Piker durante as primárias em Michigan, divulgou um comunicado afirmando que o influenciador não representava sua candidatura. "A segurança dos judeus é tão importante para mim quanto a segurança das minhas próprias filhas", declarou.
A senadora democrata Elissa Slotkin também condenou os comentários. "Nenhuma comunidade deve enfrentar ameaças de violência por causa de suas ideias políticas", afirmou.
O desconforto ficou evidente até entre dirigentes tradicionalmente alinhados à ala progressista. A deputada Debbie Dingell, de Michigan, resumiu a irritação ao afirmar durante um evento político que estava cansada de responder perguntas sobre Hasan Piker.
O próprio influenciador rejeita as acusações. Nesta semana, afirmou ter combatido o antissemitismo durante toda sua vida e disse ser alvo de uma "campanha de difamação organizada" acompanhada de manifestações islamofóbicas.
O desgaste de Trump abre novas oportunidades
Enquanto os democratas tentam administrar suas divisões internas, os sinais de desgaste da base eleitoral de Trump oferecem esperança à oposição.
Em Los Angeles, onde vivem cerca de cinco milhões de latinos, empresários e trabalhadores que apoiaram o presidente em 2024 relatam crescente frustração com os efeitos econômicos da política migratória adotada pela Casa Branca.
Segundo a pesquisadora Miriam Torres, da Universidade da Califórnia, uma área atingida por operações da polícia migratória perdeu aproximadamente US$ 1 milhão em atividade econômica durante apenas quinze dias de ações.
Desde a intensificação das operações, em junho de 2025, comerciantes do Fashion District, importante polo de confecções e tecidos no centro de Los Angeles, afirmam que o fluxo de consumidores diminuiu significativamente. Muitos relatam queda nas vendas, aumento do endividamento e demissões.
O impacto não se limita aos empresários. José, trabalhador da construção civil que atua na região desde os anos 1980, afirma evitar serviços em bairros onde há relatos da presença da polícia migratória. Segundo ele, parte dos eleitores latinos que apoiaram Trump passou a reconsiderar essa escolha diante dos efeitos econômicos das medidas do governo.
Essa combinação entre dificuldades econômicas e insatisfação com políticas públicas alimenta a expectativa democrata de avançar em estados competitivos. Ao mesmo tempo, o partido sabe que a oportunidade pode ser desperdiçada caso o debate eleitoral seja dominado por controvérsias envolvendo figuras radicais ou por disputas internas.
No fim das contas, o teste decisivo para a influência da esquerda democrata e para a capacidade do partido de transformar o desgaste de Trump em votos ocorrerá em 3 de novembro.
Se os democratas recuperarem uma ou as duas casas do Congresso, os progressistas reivindicarão parte importante desse resultado. Em caso de derrota, dirigentes moderados dificilmente deixarão de questionar se algumas das vozes mais estridentes da legenda ajudaram mais os republicanos do que a própria oposição.
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