Script = https://s1.trrsf.com/update-1770314720/fe/zaz-ui-t360/_js/transition.min.js
PUBLICIDADE

América Latina

Chilenos carregam casa por água e terra em festa patagônica

13 fev 2011 - 08h38
Compartilhar
Fernando Diniz*
Direto de Puerto Cisnes

"Carregar a casa nas costas" pode ser considerada uma expressão literal há quatro anos na cidade de Puerto Cisnes, na patagônia chilena. Depois de comer peixe frito, a população da cidade de 5 mil habitantes decide tornar móvel o imóvel, transportando-a pela água e nas ruas da cidade da região de Aysén.

Chilenos transportam casa no mar em festa na cidade de Puerto Cisnes, na Patagônia
Chilenos transportam casa no mar em festa na cidade de Puerto Cisnes, na Patagônia
Foto: Fernando Diniz / Terra

La Minga, como é conhecido o ritual, é uma cultura que Puerto Cisnes tomou emprestada da região do arquipélago de Chiloé, no sul do Chile. Originalmente, a Minga é uma cooperação entre vizinhos, que ajudam alguém que quer se mudar a transportar a casa pelas águas do arquipélago. Em Puerto Cisnes, a casa é uma doação da prefeitura para alguém que precisa de uma moradia.

"Resolvemos implantar a Minga há quatro anos para mostrar uma cultura do Chile para a população e aos turistas com uma dose de solidariedade", afirmou o prefeito da cidade, Arsenio Valdes, que está em seu segundo mandato. O transporte da casa é um dos atrativos da Festa do Pesca'o Frito, realizada no fim de janeiro. O evento foi uma forma de incentivar o consumo do peixe - principal economia da região, mas pouco consumido, já que a população é adepta à carne vermelha.

O prefeito é uma das pessoas que acompanha o translado da casa desde o início. O trajeto inicia no outro lado da baía às margens da cidade. A casa, sem chão, fica sobre uma balsa, e um barco acompanha a travessia. Aos poucos, outras embarcações vão se unindo, formando uma espécie de festa de Iemanjá superdimensionada.

Alguns chilenos preparam peixe assado a bordo, enquanto outros bebem cerveja ao som de uma música tradicional, que repete "em looping" durante os cerca de 700 m de trajeto. Um barco cheio de balões solta uma fumaça laranja para colorir a festa, prejudicando um pouco vista dos navegantes. Atentos, dois homens da Marinha acompanham a festa, mas não registram incidentes.

A casa chega tranquila às margens de Puerto Cisnes. A partir dali, começa a diversão. Com um colete salva-vidas, o prefeito da cidade desce em terra firme. Um homem ao seu lado, com um megafone, passa a dar instruções para a população, que trata de pegar duas cordas e começar a tirar o imóvel da água.

Adultos, jovens, mulheres e crianças se unem à tarefa, como se fosse um "cabo de guerra". Subir o barranco da beira da praia de Puerto Cisnes é o mais difícil. A casa, agora em cima de duas toras de madeira, desliza com dificuldade na areia e nas pedras das margens do mar. Parte da pequena residência, feita de zinco, sai do trajeto e sobe em um pequeno monte. "Agora só os da esquerda", coordena o homem com o megafone.

No trecho mais íngreme, perto do pavimento da rua à beira da praia, a prefeitura apela para um trator. Enquanto isso, a população se hidrata com água mineral fornecida pela organização do evento. A máquina interrompe o trabalho para que o cachorro Pancho - um vira-lata que acompanha todos os passos dos puxadores - seja retirado do caminho.

A casa chega ao asfalto, e os chilenos retornam às cordas. O trajeto permanece complicado; há outras subidas e curvas, mas a população parece não se importar. Motivadas pelo megafone - "puxem, puxem" -, a procissão chega à primeira parada: em vez de descanço, um pequeno baile de chamamé (dança típica). A água é substituída pelo vinho.

Começa a chover. Nada demais para a maior pluviometria da região. Depois de 1 km de chão, a casa chega a seu destino: um terreno na parte mais humilde da cidade. Na caçamba de uma caminhonete, o prefeito Arsenio Valdes passa a escritura da residência para os comtemplados: dois adolescentes que perderam o pai e a casa em um incêndio.

A festa fica mais animada; o prefeito serve mais vinho para a população e dança chamamé. Mais peixe e sopaipillas (um tipo de torta) são distribuídos. A animação com a chegada da casa é tanta - o trajeto dura cerca de seis horas - que os danos causados na estrutura durante a festa são ignorados. A prefeitura de Puerto Cisnes promete arrumar todo estrago causado pelo atrito da residência com o chão e instalar o piso.

*O repórter viajou a convite do Serviço Nacional de Turismo (Sernatur) do Chile.

Fonte: Terra
Compartilhar
Publicidade

Conheça nossos produtos

Seu Terra