Chilenos carregam casa por água e terra em festa patagônica
- Fernando Diniz*
- Direto de Puerto Cisnes
"Carregar a casa nas costas" pode ser considerada uma expressão literal há quatro anos na cidade de Puerto Cisnes, na patagônia chilena. Depois de comer peixe frito, a população da cidade de 5 mil habitantes decide tornar móvel o imóvel, transportando-a pela água e nas ruas da cidade da região de Aysén.
La Minga, como é conhecido o ritual, é uma cultura que Puerto Cisnes tomou emprestada da região do arquipélago de Chiloé, no sul do Chile. Originalmente, a Minga é uma cooperação entre vizinhos, que ajudam alguém que quer se mudar a transportar a casa pelas águas do arquipélago. Em Puerto Cisnes, a casa é uma doação da prefeitura para alguém que precisa de uma moradia.
"Resolvemos implantar a Minga há quatro anos para mostrar uma cultura do Chile para a população e aos turistas com uma dose de solidariedade", afirmou o prefeito da cidade, Arsenio Valdes, que está em seu segundo mandato. O transporte da casa é um dos atrativos da Festa do Pesca'o Frito, realizada no fim de janeiro. O evento foi uma forma de incentivar o consumo do peixe - principal economia da região, mas pouco consumido, já que a população é adepta à carne vermelha.
O prefeito é uma das pessoas que acompanha o translado da casa desde o início. O trajeto inicia no outro lado da baía às margens da cidade. A casa, sem chão, fica sobre uma balsa, e um barco acompanha a travessia. Aos poucos, outras embarcações vão se unindo, formando uma espécie de festa de Iemanjá superdimensionada.
Alguns chilenos preparam peixe assado a bordo, enquanto outros bebem cerveja ao som de uma música tradicional, que repete "em looping" durante os cerca de 700 m de trajeto. Um barco cheio de balões solta uma fumaça laranja para colorir a festa, prejudicando um pouco vista dos navegantes. Atentos, dois homens da Marinha acompanham a festa, mas não registram incidentes.
A casa chega tranquila às margens de Puerto Cisnes. A partir dali, começa a diversão. Com um colete salva-vidas, o prefeito da cidade desce em terra firme. Um homem ao seu lado, com um megafone, passa a dar instruções para a população, que trata de pegar duas cordas e começar a tirar o imóvel da água.
Adultos, jovens, mulheres e crianças se unem à tarefa, como se fosse um "cabo de guerra". Subir o barranco da beira da praia de Puerto Cisnes é o mais difícil. A casa, agora em cima de duas toras de madeira, desliza com dificuldade na areia e nas pedras das margens do mar. Parte da pequena residência, feita de zinco, sai do trajeto e sobe em um pequeno monte. "Agora só os da esquerda", coordena o homem com o megafone.
No trecho mais íngreme, perto do pavimento da rua à beira da praia, a prefeitura apela para um trator. Enquanto isso, a população se hidrata com água mineral fornecida pela organização do evento. A máquina interrompe o trabalho para que o cachorro Pancho - um vira-lata que acompanha todos os passos dos puxadores - seja retirado do caminho.
A casa chega ao asfalto, e os chilenos retornam às cordas. O trajeto permanece complicado; há outras subidas e curvas, mas a população parece não se importar. Motivadas pelo megafone - "puxem, puxem" -, a procissão chega à primeira parada: em vez de descanço, um pequeno baile de chamamé (dança típica). A água é substituída pelo vinho.
Começa a chover. Nada demais para a maior pluviometria da região. Depois de 1 km de chão, a casa chega a seu destino: um terreno na parte mais humilde da cidade. Na caçamba de uma caminhonete, o prefeito Arsenio Valdes passa a escritura da residência para os comtemplados: dois adolescentes que perderam o pai e a casa em um incêndio.
A festa fica mais animada; o prefeito serve mais vinho para a população e dança chamamé. Mais peixe e sopaipillas (um tipo de torta) são distribuídos. A animação com a chegada da casa é tanta - o trajeto dura cerca de seis horas - que os danos causados na estrutura durante a festa são ignorados. A prefeitura de Puerto Cisnes promete arrumar todo estrago causado pelo atrito da residência com o chão e instalar o piso.
*O repórter viajou a convite do Serviço Nacional de Turismo (Sernatur) do Chile.