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Afeganistão: botox vira febre no país onde mulheres não podem estudar, trabalhar ou se maquiar

Sob o regime talibã, o acesso feminino ao mercado de trabalho foi drasticamente reduzido no Afeganistão. Mulheres não podem viajar sozinhas por longas distâncias, são proibidas de frequentar universidades, academias e parques, e devem manter a voz baixa fora de casa. No entanto, no país onde salões de beleza e cabeleireiros foram oficialmente proibidos, as clínicas estéticas seguem funcionando, e a todo vapor.

17 set 2025 - 11h16
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Sob o regime talibã, o acesso feminino ao mercado de trabalho foi drasticamente reduzido no Afeganistão. Mulheres não podem viajar sozinhas por longas distâncias, são proibidas de frequentar universidades, academias e parques, e devem manter a voz baixa fora de casa. No entanto, no país onde salões de beleza e cabeleireiros foram oficialmente proibidos, as clínicas estéticas seguem funcionando, e a todo vapor.

Em foto de 3 de setembro de 2025, uma profissional aplica botox no rosto de uma mulher afegã em clínica estética de Cabul.
Em foto de 3 de setembro de 2025, uma profissional aplica botox no rosto de uma mulher afegã em clínica estética de Cabul.
Foto: AFP - WAKIL KOHSAR / RFI

"Se os salões estivessem abertos, nossa pele não estaria assim. Não precisaríamos de cirurgia", lamenta Hamidi, que fez seu primeiro procedimento de botox e lifting facial aos 23 anos. 

Apesar de condenarem alterações físicas com base em sua interpretação da lei islâmica, os talibãs não se pronunciaram sobre os procedimentos estéticos, mesmo após diversas solicitações da AFP.

Em meio à austeridade imposta pelo regime talibã, um universo paralelo floresce na capital afegã: clínicas de estética decoradas com lustres de cristal falso e sofás de veludo, onde procedimentos como aplicação de botox, preenchimento labial e transplante capilar se tornaram rotina.

Cerca de 20 clínicas prosperaram em Kabul nos últimos cinco anos, desde o fim das décadas de guerra, desafiando as rígidas normas religiosas, o conservadorismo e a pobreza que ainda marcam o país.

Médicos estrangeiros, especialmente da Turquia, viajam regularmente à cidade para treinar profissionais locais, que também fazem estágios em Istambul. Os equipamentos são importados da Ásia e da Europa.

Sob o véu islâmico, botox

Nas salas de espera, a clientela é majoritariamente feminina, mas homens com calvície também frequentem os consultórios. As mulheres, sempre cobertas da cabeça aos pés, exibem maquiagem elaborada — embora o uso da burca integral seja cada vez mais raro.

Aos 25 anos, Silsila Hamidi decidiu fazer seu segundo lifting facial, convencida de que o estresse de ser mulher no Afeganistão deixou marcas em sua pele. "Mesmo que os outros não nos vejam, nós nos vemos. Estar bonita no espelho nos dá força", disse antes de se submeter à cirurgia para levantar a parte superior do rosto, que, segundo ela, começava a ceder.

Formada em medicina, Hamidi não entrou em detalhes, mas atribuiu o desgaste da pele às "múltiplas pressões" enfrentadas pelas mulheres afegãs.

"Não ter cabelo ou barba é visto como sinal de fraqueza"

Profissionais do setor afirmam que as clínicas continuam abertas por serem classificadas como estabelecimentos médicos. Segundo relatos, o governo não interfere diretamente, mas a polícia da moral garante que haja segregação de gênero nos atendimentos: enfermeiros homens para pacientes homens, enfermeiras mulheres para pacientes mulheres.

Há quem diga que até membros do próprio regime são clientes. "Aqui, não ter cabelo ou barba é visto como sinal de fraqueza", afirma Sayed Zadran, vice-diretor da clínica Negin Asia, que ostenta equipamentos modernos fabricados na China.

Os transplantes capilares se tornaram populares desde que os talibãs determinaram que os homens devem manter a barba com, no mínimo, o comprimento de um punho, explica Bilal Jan, codiretor da clínica EuroAsia, prestes a inaugurar uma segunda unidade.

Nem todos os clientes têm recursos: alguns chegam a pedir empréstimos para fazer o procedimento antes do casamento, conta Jan.

Segundo o dermatologista Abdul Nasim Sadiqi, os métodos utilizados são os mesmos aplicados no exterior e não oferecem riscos. Os tratamentos com botox variam entre US$ 43 e US$ 87, enquanto os transplantes capilares custam de US$ 260 a US$ 509.

"Parece que estou na Europa"

Esses valores são inacessíveis para boa parte da população — quase metade dos afegãos vive na pobreza, segundo o Banco Mundial — mas representam uma pechincha para outros, como Mohamed Shoaib Yarzada, restaurador afegão radicado em Londres.

No Reino Unido, os implantes capilares custavam milhares de libras. Em sua primeira visita ao Afeganistão em 14 anos, ele aproveitou para restaurar o couro cabeludo. "Quando entro na clínica, parece que estou na Europa", comentou.

Para atrair clientes, as clínicas investem pesado nas redes sociais, com promessas de pele lisa, lábios volumosos e cabelos fartos.

O Afeganistão também tem seus influenciadores digitais, afirma Lucky Jaan, de 29 anos, codiretor da Negin Asia, que atende dezenas de pacientes por dia. "Muitos vêm sem necessidade real, apenas porque viram tendências no Instagram", explica Jaan, médico russo de origem afegã, com rosto impecavelmente liso.

Enquanto cerca de 10 milhões de afegãos enfrentam a fome e um terço da população não tem acesso à saúde básica, alguns preferem investir na aparência. "Há quem não tenha dinheiro para comer, mas ainda assim escolhe gastar com beleza", conclui o cirurgião.

(Com AFP)

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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