A guerra no Oriente Médio pode comprometer a participação do Irã na Copa de 2026?
A guerra desencadeada pelos Estados Unidos e Israel coloca em dúvida a participação da seleção do Irã no torneio, cujos três jogos da fase de grupos estão programados para serem disputados nos EUA.
A Copa do Mundo de 2026 será a 23ª edição do evento da Fifa e acontece de 11 de junho a 19 de julho na América do Norte, entre Canadá, Estados Unidos e México. Esta é a primeira vez que o torneio será coorganizado por três países.
Mas, a cerca de 100 dias do início da competição, várias questões permanecem, incluindo a participação do Irã.
Qual é a posição do Irã?
A possibilidade de um boicote do Irã à Copa do Mundo surgiu poucas horas após o início da operação israelense-americana: o presidente da Federação Iraniana de Futebol, Mehdi Taj, levantou essa possibilidade, afirmando também que a decisão final caberia às "autoridades esportivas".
"Esses eventos não ficarão sem resposta (...) Mas o que é certo, por enquanto, é que, com esse ataque e essa crueldade, a Copa do Mundo não pode ser vista com esperança", declarou o dirigente na televisão iraniana no sábado, acrescentando que todas as partidas do campeonato nacional foram suspensas.
A seleção iraniana, que se classificou para sua sétima Copa do Mundo, está no Grupo G (junto com Bélgica, Egito e Nova Zelândia), com uma partida marcada em Seattle e duas em Los Angeles, cidade que abriga uma grande diáspora iraniana desde a Revolução Islâmica, majoritariamente pró-monarquia Pahlavi, deposta em 1979.
Qual a posição da Fifa?
A Federação Internacional de Futebol (Fifa) mantém-se cautelosa em relação à possível ausência do Irã na Copa do Mundo. "Realizamos uma reunião, mas ainda é cedo para comentar os detalhes. Acompanharemos de perto a evolução da situação em todas as frentes, em todo o mundo", afirmou o secretário-geral, Mattias Grafstrom. Segundo uma fonte próxima à organização, ainda não houve conversas com a Federação Iraniana sobre uma possível desistência.
A menos de 100 dias da partida de abertura da competição, a situação no Irã é, em todo caso, extremamente delicada para o presidente da Fifa, Gianni Infantino, que continua demonstrando laços estreitos com o presidente dos EUA, Donald Trump. Além disso, o conflito também afeta outros países classificados para a Copa do Mundo, como Arábia Saudita, Catar e Jordânia, que são alvos de bombardeios iranianos.
O que estipulam os regulamentos?
O boicote de uma das seleções participantes não é uma situação prevista nos regulamentos da Fifa. Segundo uma fonte próxima à organização, "uma decisão específica terá que ser tomada em relação a uma repescagem" para outra seleção caso a ausência do Irã seja confirmada.
O Artigo 6º do regulamento da Copa do Mundo de 2026 menciona o conceito de "força maior" e concede aos organizadores "total liberdade" para tomar "as medidas necessárias". Em caso de desistência ou exclusão de um país, a Fifa tem, portanto, total autonomia para reagir e "pode decidir substituir a equipe participante em questão por outra associação".
A ausência do Irã poderia, logicamente, beneficiar uma seleção da zona asiática, que já conta com oito equipes classificadas para esta primeira Copa do Mundo com 48 seleções. Um nono país asiático poderá se classificar se o Iraque vencer a final da repescagem intercontinental em 31 de março, em Monterrey, no México. O Iraque se juntaria então à França no mesmo grupo que Noruega e Senegal.
Há algum precedente?
Embora os Jogos Olímpicos tenham enfrentado boicotes ao longo de sua história, os mais emblemáticos ocorrendo durante a Guerra Fria, em 1980, em Moscou, e em 1984, em Los Angeles, a Copa do Mundo da Fifa nunca enfrentou uma situação semelhante, apesar de ameaças.
A mais notável foi em 1978, quando alguns jogadores queriam protestar contra a ditadura militar na Argentina, mas o boicote nunca se concretizou. Turquia, Escócia e Índia tiveram que se retirar da Copa do Mundo de 1950, no Brasil, mas as motivações eram financeiras, e esses três países não foram substituídos.
Há também exemplos de exclusões que afetam países em guerra: em 1992, a Iugoslávia foi retirada do Campeonato Europeu pela Uefa devido ao conflito nos Balcãs e foi substituída pela Dinamarca duas semanas antes do início do torneio.
A Rússia e seus clubes, por outro lado, foram suspensos de todas as competições internacionais pela Fifa e pela Uefa após a invasão da Ucrânia, que começou em fevereiro de 2022.
RFI com AFP