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A esquerda pode estar renascendo na Europa?

Social-democratas, favoritos no pleito alemão deste domingo, estão no comando de todos os países da Escandinávia neste momento - uma região que costuma ser vanguarda de tendências políticas na Europa, explica cientista político.

25 set 2021 14h24
| atualizado às 15h00
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Alemanha vai às urnas neste domingo; social-democrata Olaf Scholz (esq) tem pequena vantagem sobre Armin Laschet, do partido de Merkel
Alemanha vai às urnas neste domingo; social-democrata Olaf Scholz (esq) tem pequena vantagem sobre Armin Laschet, do partido de Merkel
Foto: Reuters / BBC News Brasil

Com a era Merkel chegando ao fim na Alemanha, a centro-esquerda está na dianteira para ganhar as eleições deste domingo (26/9) na maior economia da Europa.

As pesquisas de opinião dão a liderança ao Partido Social-Democrata (SPD), com uma vantagem - bem pequena, é bom destacar - sobre a aliança conservadora do partido de Merkel (CDU) com o CSU, representada pela candidatura de Armin Laschet.

Uma vitória do SPD dificilmente traria rupturas: o partido é integrante minoritário da coalizão no poder atualmente, e seu candidato, Olaf Scholz, é ministro das Finanças de Merkel.

Assim, um governo Scholz seria, de muitas formas, um de continuidade - embora abraçando propostas como aumento de impostos aos mais ricos e com mudanças importantes para a América Latina e o Brasil que detalharemos mais adiante.

Por enquanto, porém, o que mais chama atenção é que, se a vitória for confirmada neste domingo, vai reforçar um aparente ressurgimento da social-democracia na Europa.

Para além da Alemanha, a centro-esquerda voltou ao poder neste mês na Noruega, onde o Partido Trabalhista venceu os conservadores e agora está em negociações para tentar formar uma coalizão majoritária de governo.

Com essa troca de governo norueguesa, todos os países escandinavos - Noruega, Suécia, Dinamarca, Islândia e Finlândia - passarão a ficar sob governos social-democratas, algo que não acontecia desde o final dos anos 1950. Além disso, Portugal e Espanha também são governados por partidos de centro-esquerda.

Bastião da social-democracia na Europa, com suas enraizadas políticas de bem-estar social, a Escandinávia é um exemplo importante.

Isso porque essa região também foi a que esteve na vanguarda do avanço de partidos e de políticos populistas no continente europeu, alguns anos atrás - e agora faz um regresso à centro-esquerda, explica à BBC News Brasil o cientista político Mathias Alencastro, pesquisador do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) e doutor pela Universidade de Oxford.

Jonas Gahr Stoere, vencedor da eleição na Noruega, agora tenta forma uma coalizão de governo
Jonas Gahr Stoere, vencedor da eleição na Noruega, agora tenta forma uma coalizão de governo
Foto: Reuters / BBC News Brasil

"Muita gente se antecipou e declarou a centro-esquerda como morta, e isso não aconteceu, exceto em países como França e Itália, onde ela realmente faliu", diz Alencastro. "Mas ela segue na Escandinávia, na Península Ibérica (Portugal e Espanha) e, agora, na Alemanha."

Para ele, muitos partidos novos, de populismo de esquerda e direita, viveram um momento de ascensão na Europa, mas não conseguiram se consolidar como gestores da máquina pública.

Em entrevista recente à agência France Presse, a pesquisadora Elisabeth Ivarsflaten, da Universidade de Bergen, na Noruega, apontou que o Partido Trabalhista norueguês parece ter se beneficiado de um anseio por um Estado mais forte e por menos desigualdades, sentimento impulsionado pela pandemia de covid-19.

Para Alencastro, o que a crise provocada pela pandemia faz, essencialmente, é "reforçar partidos muito vinculados à capacidade de administração do Estado".

"A experiência volta a ser uma característica valorizada", afirma ele.

Ascensão e queda da centro-esquerda europeia

A social-democracia costuma estar associada a um Estado maior e mais forte, seja com programas de bem-estar social (pagamento de benefícios ou fortalecimento de educação e saúde públicas, por exemplo), seja com uma ação regulatória mais presente.

Partidos social-democratas tiveram forte presença na Europa ao longo do século 20, sobretudo após a Segunda Guerra Mundial, mas perderam ímpeto - e eleitorado - nos últimos anos.

"Em seu auge, partidos ou coalizões com líderes (social-democratas) governavam 12 dos então 15 países da União Europeia" no final dos anos 1990, explicam os pesquisadores James F Dowes e Edward Chan em um artigo de 2018 publicado pela London School of Economics em seu blog.

"No entanto, em 2006, o número de governos liderados pela esquerda nesses países caiu para menos de cinco."

Os autores atribuem essa "erosão", no final dos anos 1990 ao início dos anos 2000, a um viés mais centrista da social-democracia nesse período e a uma "escassez de ideias" para lidar com os problemas da população, o que lhes teria feito perder sua base mais tradicional de eleitores, formada por trabalhadores.

Depois, veio a crise financeira de 2008, que fez os países europeus adotarem políticas fiscais cada vez mais rígidas - e fazendo minguar alguns programas de bem-estar estatais.

"Os social-democratas parecem ter sofrido as maiores consequências da crise econômica, com muitos deles perdendo eleitoralmente", prosseguem os autores.

Outro fator-chave, segundo eles, é a crise migratória que varreu a Europa (e que ainda está em curso) e "levou a um colapso sistemático de diversos partidos social-democratas europeus".

Crise de 2008 fez governos europeus adotarem políticas fiscais mais rígidas e distantes do bem-estar social
Crise de 2008 fez governos europeus adotarem políticas fiscais mais rígidas e distantes do bem-estar social
Foto: PA Media / BBC News Brasil

Eleitores descontentes e temerosos dessa onda migratória se voltaram, em parte, para partidos populistas, de esquerda ou, sobretudo, de direita.

"O declínio eleitoral da social-democracia no século 21 demonstra como eles perderam a compreensão da situação socioeconômica moderna, com eleitores buscando partidos mais radicais", escreveram os pesquisadores em 2018.

O que, então, mudou agora?

Adaptação aos novos tempos

Para voltar ao poder, a centro-esquerda precisou, de algum modo, se adaptar às pressões atuais e da direita, apontam analistas.

Na Dinamarca, por exemplo, o governo social-democrata manteve políticas antimigratórias rígidas caras ao eleitorado direitista, explicou à France Presse a acadêmica Elisabeth Ivarsflaten.

Na Alemanha, "o fato de Olaf Scholz ter a disciplina fiscal como promessa de campanha mostra a universalização de agendas típicas da direita", complementa Alencastro à BBC News Brasil.

"(A centro-esquerda) teve que abraçar bandeiras nacionalistas incompatíveis com seus valores universais."

Além disso, até agora, essas novas forças social-democratas não necessariamente vão contar com apoio popular excepcionalmente alto - pelo contrário, em um cenário de alta fragmentação partidária, seguem dependendo de coalizões para governar.

"Os social-democratas costumavam ser muito mais fortes, mas agora há uma fragmentação, e não há mais grandes partidos", disse ao jornal britânico Financial Times o ex-premiê sueco Carl Bildt, político alinhado à centro direita, ao comentar a vitória da centro-esquerda na Noruega.

E a fragmentação, agregou Buildt, "torna a governança uma tarefa mais difícil".

Por fim, a centro-esquerda que volta a emergir agora não passou por um processo de renovação geracional - não há grandes nomes novos em ascensão, por exemplo - nem por significativas modernizações de seus projetos de governo, explica Mathias Alencastro.

Um governo de centro-esquerda alemão potencialmente daria mais atenção à América Latina e ainda mais ênfase ao controle das mudanças climáticas, diz analista
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Foto: EPA / BBC News Brasil

Sendo assim, uma leitura possível é de que estão voltando ao poder menos por seus próprios méritos, e mais por uma desilusão do eleitorado com as demais alternativas.

"É uma demonstração de fraqueza do projeto populista", opina o cientista político brasileiro.

O que muda para o Brasil e a América Latina

Dito isso, Alencastro vê implicações importantes para o Brasil e a América Latina, sobretudo com a possível troca de partidos no comando da Alemanha.

"Do ponto fiscal ou gerencial, um governo de Olaf Scholz muda pouco" em relação ao governo Merkel, ele avalia.

"Mas os social-democratas devem ter uma orientação mais universalista do que Merkel", que manteve-se distante da América Latina em favor dos laços alemães fortes com a Europa e a Ásia.

"Talvez Scholz olhe a América Latina e o Brasil com mais interesse, porque (seu partido) SPD tem grande tradição de integração com a centro-esquerda daqui."

Alencastro também antevê, em um eventual governo Scholz, ainda mais ênfase nas mudanças climáticas como um pilar da diplomacia alemã - o que aumentaria ainda mais a pressão europeia sobre o avanço do desmatamento brasileiro registrado sob o governo de Jair Bolsonaro.

Isso pode ser reforçado com o Partido Verde alemão, atualmente em terceiro lugar nas pesquisas de opinião e que pode acabar compondo uma futura coalizão do governo no país.

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