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A confusão causada por carta que indicava saída das tropas americanas do Iraque

Segundo carta obtida por agências internacionais, EUA já se preparam para 'reposicionar suas forças' no país, após ação que matou general iraniano Soleimani ser considerada por iraquianos uma brecha de soberania.

6 jan 2020
18h33
atualizado às 18h51
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Equipamento militar americano sendo despachado dos EUA ao Oriente Médio após a morte de Soleimani, na sexta-feira; no Iraque há cerca de 5 mil militares americanos
Equipamento militar americano sendo despachado dos EUA ao Oriente Médio após a morte de Soleimani, na sexta-feira; no Iraque há cerca de 5 mil militares americanos
Foto: AFP / BBC News Brasil

Uma carta oficial do Exército dos EUA obtida por agências internacionais de notícias colocou em debate a saída das tropas americanas do Iraque nesta segunda-feira (6/1) — embora tenha sido desmentida posteriormente pelo governo americano.

Segundo a carta obtida pelas agências Reuters e France Presse, a coalizão militar liderada pelos EUA se prepara para retirar as tropas americanas no Iraque, seguindo uma resolução aprovada na véspera pelo Parlamento iraquiano em desdobramento da morte do general iraniano Qasem Soleimani em um ataque de drone americano em Bagdá.

"Senhor, em deferência à soberania da República do Iraque, e conforme requisitado pelo Parlamento e o primeiro-ministro, a CJTF-OIR vai reposicionar forças ao longo dos próximos dias e semanas", diz a carta assinada pelo general de brigada americano William H. Seely III, comandante da força-tarefa americana no Iraque. "Respeitamos sua decisão soberana de ordenar nossa saída."

CJTF-OIR é a sigla em inglês para Força-Tarefa Conjunta Combinada, coalizão internacional formada para combater o grupo autodenominado Estado Islâmico no Oriente Médio e liderada pelos EUA. A carta era endereçada a um órgão do Ministério da Defesa iraquiano.

A agência Reuters, bem como a France Presse, teve acesso à carta e diz ter confirmado sua autenticidade com uma fonte militar iraquiana.

No entanto, o secretário de Defesa dos EUA, Mark Esper, negou que os EUA tenham planos de sair do teritório iraquiano.

"Não houve qualquer decisão de deixar o Iraque", disse Esper a repórteres em Washington, quando questionado sobre a carta. "Não sei o que é essa carta. Estamos tentando descobrir de onde veio isso, o que é isso. Mas não foi tomada qualquer decisão sobre deixar o Iraque. Ponto."

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Foto: AFP / BBC News Brasil

Pouco depois, o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, Mark Milley, afirmou a jornalistas que a carta foi enviada "por engano" pelo general americano Frank McKenzie, comandante do Comando Central do Exército. "(A carta) não deveria ter sido enviada", declarou, agregando que o documento era apenas um "rascunho" que visava apenas notificar sobre o aumento de movimentação das tropas americanas no Iraque.

"Ela é mal-escrita e deixa implícita a retirada (das tropas). Não é isso que está acontecendo", afirmou.

Morte de Soleimani

A saída das tropas americanas do Iraque fora pedida no domingo em uma resolução do Parlamento iraquiano, que solicitava que o governo revogasse seu pedido de assistência da coalizão militar liderada pelos EUA. Embora a resolução não fosse vinculante e dependesse do governo para ser implementada, ela ganhou força após declarações do premiê iraquiano, Adel Abdul Mahdi.

"Apesar das dificuldades internas e externas que podemos enfrentar, isso é melhor para o Iraque, em princípio e na prática", afirmou Mahdi sobre a expulsão das tropas da coalizão.

Trata-se de uma repercussão direta da morte do general iraniano Qasem Soleimani, na quinta-feira passada, em território iraquiano.

O fato de o presidente americano, Donald Trump, ter ordenado um ataque a drone para matar Soleimani, em um comboio que saía do aeroporto internacional de Bagdá, foi considerado por autoridades iraquianas como uma violação da soberania iraquiana e dos termos negociados para autorizar a presença americana no país.

Além disso, Soleimani tinha forte influência sobre milícias xiitas iraquianas. No sábado, milhares de iraquianos foram às ruas em diferentes cidades do país para as cerimônias fúnebres em sua homenagem, antes que seus restos mortais fossem enviados ao Irã.

O que diz Trump

Hoje, os EUA têm cerca de 5 mil militares no país, a maior parte deles em cargos de apoio às forças do país no combate ao sunita Estado Islâmico.

Oficialmente, Trump respondeu à resolução do Parlamento iraquiano, no domingo, dizendo que haveria sérias repercussões se o Iraque expulsasse as tropas americanas do país, como sanções dos EUA contra o Iraque.

Ele também afirmou que essa retirada só ocorreria se o governo iraquiano pagasse pela base aérea que os EUA construíram no país.

Homenagem a Soleimani em Bagdá no sábado mostrou popularidade do iraniano entre parte da população iraquiana
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Foto: Reuters / BBC News Brasil

"Temos uma base aérea extraordinariamente cara que está lá. Custou bilhões de dólares para ser construída, muito antes de mim (na Presidência). Não vamos embora a menos que nos paguem", disse o presidente a repórteres.

Segundo a Reuters, porém, já era possível escutar o trânsito intenso de helicópteros militares americanos em Bagdá na noite de domingo, aparentemente para o transporte de militares para fora do país. Na carta obtida pela agência, os EUA avisam que no período de "reposicionamento de tropas" haveria "um aumento nas viagens de helicóptero dentro e ao redor da zona internacional de Bagdá".

Segundo a France Presse, como a carta era assinada apenas por uma autoridade americana, não está claro se a retirada de tropas se aplica a todos os 76 países que compõem a força-tarefa.

Situação delicada

Desde o ataque contra Soleimani, líderes xiitas rivais têm pedido que tropas americanas sejam expulsas do Iraque, em uma incomum demonstração de unidade entre facções que costumam disputar o poder entre si, informa a Reuters.

No âmbito geopolítico, o Iraque vive uma situação delicada: é tanto aliado dos EUA quanto próximo do vizinho Irã, que prometeu vingança contra os americanos pela morte de Soleimani.

Em meio à tensão, os EUA haviam orientado seus cidadãos a deixar o Iraque imediatamente e enviaram mais 3 mil militares ao Oriente Médio.

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