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4 perguntas para entender a nova crise migratória em Ceuta, enclave espanhol na África

Milhares de migrantes chegaram do Marrocos a Ceuta nos últimos dias, gerando uma nova crise no enclave espanhol no norte da África.

31 jul 2026 - 15h52
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Dezenas de pessoas já morreram tentando chegar ao enclave espanhol de Ceuta, no norte da África
Dezenas de pessoas já morreram tentando chegar ao enclave espanhol de Ceuta, no norte da África
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Milhares de migrantes cruzaram nos últimos dias a fronteira entre o Marrocos e o enclave espanhol de Ceuta, no norte da África. O movimento gerou fortes reações, tanto na Espanha quanto na União Europeia, aumentando ainda mais as tensões diplomáticas entre Madri e Rabat.

Autoridades espanholas calculam que cerca de 60 mil pessoas conseguiram chegar ao território, por via terrestre ou marítima.

Vídeos e imagens mostrando milhares de pessoas nadando em direção à cidade de Ceuta viralizaram na quinta-feira (30/7) e a imprensa local noticiou que a movimentação na fronteira prosseguiu ao longo da noite.

As autoridades confirmaram a morte de pelo menos 57 pessoas que tentavam chegar ao território, que se encontra há séculos sob o controle espanhol.

Após um recente aumento das tentativas de cruzamento da fronteira, as autoridades locais solicitaram ajuda ao governo central em Madri, que destacou suas forças armadas para reforçar a segurança em Ceuta e na sua cidade-irmã de Melilla.

As autoridades afirmam que pelo menos 7 mil pessoas que entraram irregularmente no território nas últimas 24 horas são menores de idade.

Aqui explicamos em sete pontos o essencial sobre esta nova crise migratória.

1. Qual é a situação na fronteira?

Ceuta e Melilla são duas cidades autônomas que pertencem à Espanha há mais de cinco séculos. O Marrocos reivindica as cidades como parte do seu território desde que conquistou sua independência, em 1956.

O direito internacional não considera as cidades como colônias. E a Organização das Nações Unidas (ONU) não inclui Ceuta e Melilla na sua lista de territórios pendentes de descolonização, o que, na prática, respalda seu status como parte da Espanha.

Os dois enclaves constituem as únicas fronteiras terrestres entre a União Europeia e a África. Eles são protegidos por sistemas de duas barreiras, além de forte presença policial e militar.

Dezenas de milhares de migrantes cruzaram a fronteira do Marrocos em direção ao enclave espanhol de Ceuta, no norte da África, na noite de 31 de julho
Dezenas de milhares de migrantes cruzaram a fronteira do Marrocos em direção ao enclave espanhol de Ceuta, no norte da África, na noite de 31 de julho
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Depois da entrada dos migrantes vindos do Marrocos, o governo espanhol deslocou soldados do exército em Ceuta para reforçar a segurança local. As autoridades indicam que, em Melilla, também foram registrados 300 a 400 cruzamentos de fronteira na noite de quinta-feira (30/7).

Vídeos gravados naquele dia mostram uma avalanche de pessoas correndo pela praia de Tarajal, em Ceuta, e nas vizinhanças. A maioria parecia ser composta por homens jovens.

As duas cidades se transformaram há anos em um dos principais pontos de entrada de muitos migrantes africanos para a Europa, em busca de melhores oportunidades financeiras e qualidade de vida.

A situação é especialmente delicada em Ceuta. Sua população é de cerca de 83,6 mil habitantes, segundo os últimos números oficiais. Por isso, a chegada de até 60 mil pessoas representa um impacto significativo.

O caos persiste nas ruas de Ceuta desde quinta-feira, segundo a imprensa local.

"Ninguém sai na rua. Eles têm medo", declarou ao jornal espanhol ABC o segurança de um hospital muito próximo à fronteira.

"Este evento de agora é mais forte e agressivo do que já havíamos presenciado antes."

2. Qual foi a reação da Espanha?

Após o destacamento de tropas militares e o aumento do apoio naval, o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, se deslocou para Ceuta nesta sexta-feira (31/7).

Falando do enclave espanhol, ele chamou o ocorrido na quinta de "ataque, uma violação da integridade territorial da Espanha".

Sánchez culpou as máfias por "enganar muitos jovens" e anunciou a instalação de boias para criar uma barreira de contenção.

O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, e seu ministro do Interior, Fernando Grande Marlaska, caminham perto da muralha da fronteira de Tarajal, que separa o enclave espanhol de Ceuta, no norte da África
O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, e seu ministro do Interior, Fernando Grande Marlaska, caminham perto da muralha da fronteira de Tarajal, que separa o enclave espanhol de Ceuta, no norte da África
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Por outro lado, o prefeito da Cidade Autônoma de Ceuta, Juan Jesús Vivas, alertou na quinta-feira (30/7) sobre a gravidade da crise migratória. Ele afirmou que a situação atingiu um nível de "absoluta emergência humanitária e social".

Vivas pediu ao governo central em Madri que seja declarada "emergência nacional", frente ao aumento da chegada de migrantes da África.

Mas o Executivo espanhol defende que não pode ativar este dispositivo porque as normas estatais de proteção civil não contemplam os fluxos migratórios como risco, segundo o Sistema Nacional de Proteção Civil, nem existem planos específicos para sua administração.

Sánchez afirmou em várias ocasiões que seu governo está trabalhando para gerenciar a crise. E, durante sua visita a Ceuta, ele declarou que seu governo utilizará "todos os recursos do Estado" para garantir a segurança da cidade autônoma.

Mapa de parte da Europa e do norte da África, mostrando a localização das cidades de Ceuta e Melilla
Mapa de parte da Europa e do norte da África, mostrando a localização das cidades de Ceuta e Melilla
Foto: BBC News Brasil

A reação do primeiro-ministro também gerou críticas por parte da oposição.

O líder do Partido Popular, Alberto Núñez Feijóo, acusou Sánchez de agir com "fraqueza". Já o porta-voz no Congresso espanhol da Esquerda Republicana da Catalunha (ERC), Gabriel Rufián, responsabilizou o Marrocos, acusando Rabat de "chantagear" a Espanha e a Europa.

Por outro lado, o líder do partido Vox, Santiago Abascal, qualificou a crise migratória como uma "invasão".

3. Por que está acontecendo neste momento?

Na Espanha, alguns atribuíram o recente aumento da migração a uma sentença do Supremo Tribunal Espanhol, que determinou, três semanas atrás, que os migrantes interceptados no mar quando tentam chegar a Ceuta ou Melilla não podem ser devolvidos imediatamente ao Marrocos.

Na quinta-feira (30/7), o Ministério do Interior acusou as redes de tráfico de pessoas de "instrumentalizar" esta resolução judicial para "incentivar o fluxo de imigrantes sem documentos" para Ceuta.

O Ministério também anunciou um acordo com o Marrocos para reforçar a coordenação entre os dois países e agilizar o retorno dos migrantes que entraram de forma irregular "o mais breve possível".

O governo do presidente americano, Donald Trump, atribuiu a crise às "políticas globalistas de extrema esquerda" da Espanha
O governo do presidente americano, Donald Trump, atribuiu a crise às "políticas globalistas de extrema esquerda" da Espanha
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Outras vozes também criticaram o governo de Sánchez, tanto na Espanha quanto no exterior.

Na quinta-feira (30/7), a Casa Branca atribuiu a situação em Ceuta às "políticas globalistas de extrema esquerda" da Espanha.

"O presidente Trump vem alertando a Europa há tempos sobre as consequências de continuar implementando políticas globalistas de extrema esquerda, como facilitar a migração em massa", declarou à agência de notícias espanhola EFE a porta-voz da Casa Branca, Ana Kelly.

"A Espanha e outros países que adotaram esta filosofia destrutiva deveriam retificá-la de imediato ou correrão o risco do seu próprio desaparecimento."

4. O que diz o Marrocos?

A embaixadora do Marrocos na Espanha, Karima Benyaich, afirmou na quinta-feira (30/7) que a situação não é a desejada pelo Marrocos e pediu aos cidadãos marroquinos que cruzaram a fronteira para a cidade autônoma que regressem ao país.

"O governo do Marrocos solicita e deseja que aqueles concidadãos que atravessaram a fronteira retornem ao nosso país", declarou ela, durante um ato celebrado em Madri por motivo do 27° aniversário da coroação do rei marroquino, Mohamed 6°.

"Não é algo que nos agrade; queremos sempre uma imigração ordenada e segura para todos", destacou a embaixadora.

Nesta sexta-feira (31/7), a Espanha e o Marrocos reforçaram a barreira fronteiriça do enclave espanhol. Aparentemente, eles impediram em grande parte os cruzamentos em massa.

As autoridades espanholas afirmaram que milhares de migrantes regressaram voluntariamente ao Marrocos, mas a situação em Ceuta permanece delicada, frente ao grande número de cruzamentos da fronteira e ao desafio humanitário enfrentado pelo pequeno território.

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