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Seca do rio Danúbio provoca risco de desabastecimento na Europa Central e nos Bálcãs

As comunidades localizadas ao longo do rio Danúbio, o mais longo da União Europeia, estão preocupadas: os níveis da água estão atingindo mínimas históricas em toda a região. O desastre ecológico expõe a vulnerabilidade da Europa Central e dos Bálcãs, somada à falta de preparo dessas regiões diante das mudanças climáticas.

31 jul 2026 - 15h58
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Simon Rico, correspondente da RFI nos Bálcãs

Bancos de areia que se estendem até onde a vista alcança, barcos repousando sobre a lama rachada e o mau cheiro do lodo que seca. Imortalizada na valsa "O Danúbio Azul", do compositor austríaco Johann Strauss II, a paisagem do rio neste verão está longe de ser bela. Pelo contrário, alarma os moradores e aqueles que dele dependem para trabalhar ou viajar.

Em Budapeste, capital da Hungria, os cais - geralmente repletos de navios de cruzeiro - estão vazios, simbolizando uma quase paralisação da navegação devido à profundidade insuficiente da água em muitos trechos.

"Até agora, o verão de 2026 na Europa tem sido marcado por um calor excepcional e seca generalizada", confirma um estudo recente do observatório climático World Weather Attribution.

Há mais de uma década, essa rede de cientistas analisa os impactos do aquecimento global, apontando-o como um fator-chave na situação crítica que afeta atualmente toda a extensão do Danúbio, rio que percorre quase 3 mil quilômetros pelo continente, de oeste a leste.

Risco de desabastecimento

O Danúbio corta cerca de 14 países da Europa, cujas populações vêm sofrendo com a seca do rio, tendo que lidar com o risco cada vez maior de desabastecimento de água e, por consequência, com a queda na produção de alimentos, no caso dos agricultores.

Agricultores de toda a região temem colheitas escassas, com algumas estimativas sugerindo que a produção pode cair pela metade. "A situação é crítica", alerta Jozef Šumichrast, representante dos produtores rurais na Eslováquia, ainda em maio.

Atualmente, a irrigação já não é possível em partes da Romênia: a pressão da água está muito baixa para operar os sistemas de bombeamento. Em toda a bacia do rio Danúbio - que se estende do sul da Polônia ao norte da Albânia -, restrições estão sendo impostas gradualmente tanto a moradores quanto a empresas, com alguns países chegando a considerar cortes temporários no abastecimento.

Na Sérvia a situação é semelhante, apesar do aporte de água dos dois principais afluentes do grande rio, o Tisza e o Sava. Dejan Vladiković, do instituto meteorológico nacional, disse à rádio local Slobodna Evropa que "a situação hidrológica atual é muito desfavorável, particularmente ao longo de todo o curso do Danúbio".

"Não se espera nenhuma melhora antes de setembro", acrescenta Vladiković.

Efeito cascata

Danúbio registrou níveis de água baixíssimos este ano, após uma série de ondas de calor.
Danúbio registrou níveis de água baixíssimos este ano, após uma série de ondas de calor.
Foto: RFI

Quanto aos operadores de embarcações entrevistados por diversos veículos de comunicação na Europa Central e nos Bálcãs, seus relatos são consistentes: enfatizam a gravidade excepcional da seca, à medida que recordes de níveis baixos de água são quebrados sucessivamente.

A situação era previsível: as temperaturas do inverno foram amenas, limitando a camada de neve, e todos os meses desde a primavera, com exceção de junho, foram historicamente secos.

Alguns já pagaram o preço: um navio de cruzeiro operado pela empresa suíça Viking, por exemplo, encalhou em um banco de areia entre a Bulgária e a Romênia, e nenhuma tentativa de desencalhe funcionou até o momento.

Nessa área, a vazão do Danúbio é de apenas 1.700 m³/s - mal chegando a um terço de seu volume habitual. Para reduzir o calado (distância entre a superfície e o fundo do casco) e tentar manter seus cronogramas, as embarcações de carga diminuíram o volume de mercadorias transportadas. Essas medidas já estão afetando o transporte de certos produtos, como grãos e combustíveis. 

"As barcaças só conseguem transportar de 30% a 40% de sua capacidade total", observou o ministro de Energia da Sérvia - um fator que contribui para novos aumentos nos preços dos combustíveis nas bombas, que já estavam elevados.

O Danúbio se tornou uma rota comercial estratégica, ligando o Mar Negro ao Mar do Norte desde o início da guerra na Ucrânia. A situação é particularmente preocupante, uma vez que os meses de verão marcam o pico da temporada de exportação de grãos da Romênia, um dos principais produtores da UE.

Autoridades sobrecarregadas

O Danúbio (linha amarela) atravessa ou margeia dez países da Europa, reunidos na Comissão do Danúbio. Ele nasce na Floresta Negra, na Alemanha, e seu delta deságua no Mar Negro.
O Danúbio (linha amarela) atravessa ou margeia dez países da Europa, reunidos na Comissão do Danúbio. Ele nasce na Floresta Negra, na Alemanha, e seu delta deságua no Mar Negro.
Foto: RFI

Enquanto a Bulgária cogita interromper totalmente as atividades de sua única usina nuclear, em Kozloduy, às margens do Danúbio, devido à falta de água para resfriar suas instalações, a Hungria e a Romênia se viram obrigadas a desligar preventivamente alguns reatores por motivos de segurança.

A produção das usinas hidrelétricas também está afetada: a produção da imensa barragem sérvio-romena Portas de Ferro foi reduzida a um terço de sua capacidade, após ter registrado a menor produção de sua história na primavera.

Pegas de surpresa, as autoridades têm dificuldade de reagir e são acusadas de não terem previsto tal cenário. Na Hungria, o novo governo de Peter Magyar conta, pela primeira vez em 16 anos, com um ministro do Meio Ambiente.

Após declarar estado de emergência, ele apelou à maior cooperação na gestão conjunta da água a todos os países cortados pelo Danúbio. Muitos esperam que a crise atual sirva de lição e permita superar os interesses nacionais que ainda prevalecem ao longo de seu curso.

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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