Extrema direita e esquerda criticam gestão de incêndios na França, mas barraram projetos de combate ao fogo
A nove meses das eleições presidenciais na França, os violentos incêndios florestais que atingem o país neste verão também alimentam o debate político. O governo do presidente Emmanuel Macron é criticado pela gestão do fogo, mas os partidos mais vocais da oposição - Reunião Nacional (RN), de extrema direita, e França Insubmissa, de esquerda radical - bloquearam no Parlamento uma série de medidas que poderiam ter ajudado o país a enfrentar melhor o problema.
Durante vários dias, em julho, as oposições criticaram o histórico de Macron no combate a incêndios, com foco na falta de aeronaves Canadair e no lento processo para a utilização de aviões A400M. Em 2024, o então primeiro-ministro Gabriel Attal congelou € 53 milhões para a segurança civil, abandonando a compra de novos bombardeiros aquáticos Canadair.
Entretanto, a análise de várias votações realizadas nos últimos anos na Assembleia Nacional e no Senado revela uma lacuna entre os discursos e as propostas parlamentares dos partidos opositores. Entre 2023 e 2024, a aquisição de 36 helicópteros quase foi interrompida devido ao bloqueio do Reunião Nacional e da França Insubmissa.
A sigla de Jean-Luc Mélenchon afirma não ter se oposto ao orçamento destinado ao equipamento dos bombeiros, mas sim a um texto considerado focado demais na segurança - a maior parte do projeto abordava o reforço dos recursos da polícia e a cibersegurança.
Aumento dos salários dos bombeiros
Também em 2023, um ano depois de graves incêndios atingirem a mesma região de Bordeaux que agora volta a sofrer com o fogo, um texto relativamente consensual, que obrigava os proprietários a limparem o mato em volta de suas casas e melhorava a coordenação dos serviços de emergência, foi vetado por 19 deputados da esquerda radical.
No ano passado, o projeto de lei do Orçamento propôs o aumento de um imposto para melhor financiar os Serviços Departamentais de Bombeiros e Salvamento (Sdis). No entanto, os deputados aliados da líder Marine Le Pen votaram contra a iniciativa, que previa o aumento dos salários dos "soldados do fogo".
Já a esquerda propôs uma série de emendas que resultaram no abandono do texto, em meio ao bloqueio político no Parlamento para a votação do Orçamento.
Bloqueio também no Parlamento Europeu
Visado por ataques de todos os lados, o presidente Emmanuel Macron disse que "não é hora de ficar apontando culpados no meio da batalha", durante uma visita à região de Bordeaux, epicentro de graves incêndios desde a semana passada.
A emissora Franceinfo lembra que a oposição do Reunião Nacional a textos sobre o tema é particularmente forte no Parlamento Europeu. Em fevereiro de 2024, o grupo parlamentar ao qual o RN pertence votou contra a lei de restauração da natureza, que visava reconstruir ecossistemas florestais degradados.
Incêndios em Bordeaux
Depois de nove dias de combate ao fogo, que devastou 42 mil hectares de floresta na região de Bordeaux, os bombeiros continuam a trabalhar nesta sexta-feira (31) para concretizar a "esperança" de um controle iminente do incêndio, ainda ativo em vários locais, mas "contido". Mais residentes puderam retornar às suas casas.
Graças a uma "situação estável", após uma noite com tempo "favorável", a prefeitura autorizou a volta dos moradores de dois novos municípios, Biganos, de 11 mil habitantes, e Audenge, de 10 mil, assim como aos parques de camping de Lacanau, de onde foram evacuadas 4 mil pessoas.
No posto de comando dos bombeiros de Lège-Cap-Ferret, as temperaturas caíram e o ar está menos contaminado pela fumaça. "Sempre há esperança, estamos trabalhando para isso, mas não posso garantir que o incêndio será resolvido neste fim de semana", declarou o oficial de comunicações Eric Pitault.
Os focos do incêndio estão nos vilarejos de Claouey, Lanton e Porge, o mais atingido. No total, 3,3 mil bombeiros de toda a França - dos quais 267 ficaram feridos até o momento - 1,5 mil soldados, 1.250 agentes da polícia, além de centenas de voluntários, estão mobilizados no combate ao fogo, apoiados por 24 aeronaves.
O sudeste da França também é afetado por vários incêndios, na Córsega, nos Alpes e no departamento de Var, que estão em alerta para uma nova onda de calor.
Em toda a França, 308 pessoas foram presas em investigações sobre incêndios, dos quais dois terços são suspeitos de terem sido provocados intencionalmente. No entanto, os maiores incêndios da temporada parecem ter sido acidentais, de acordo com as primeiras conclusões das investigações, sob o comando do Ministério do Interior.
Com AFP
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