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Uma igreja, duas fés: católicos e protestantes dividem o mesmo altar

31 jul 2026 - 15h47
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Com cada vez menos clérigos e fiéis, Igrejas Católica e Protestante na Alemanha têm promovido missas e cultos nos mesmos prédios, algo impensável há até bem pouco tempo. Mas cooperação vai além dos serviços religiosos.Vista de fora, é apenas mais uma das tantas igrejas típicas construídas na década de 1950 na Alemanha: uma obra bastante simples, nada espetacular. Mas a Igreja Católica São Pio, no bairro de Neuostheim, em Mannheim, é um caso à parte. Nela, cristãos católicos e evangélicos celebram a missa e o culto, a comunhão e a eucaristia no mesmo espaço e no mesmo altar.

A Igreja São Pio, em Mannheim, divide-se entre missas católicas e cultos evangélicos
A Igreja São Pio, em Mannheim, divide-se entre missas católicas e cultos evangélicos
Foto: DW / Deutsche Welle

Mas por que algo que poderia ser considerado impensável há algumas décadas ocorre em Neuostheim?

Tudo começou em 1970, de acordo com a católica e integrante da paróquia, Annette Hübner, de 57 anos, que há mais de 50 vive na vizinhança com a família. Na época, o padre apostou na cooperação por meio de missas ecumênicas. No final de 2009, um grave e irreparável dano causado pela água atingiu a vizinha Igreja Evangélica de São Tomás.

O uso conjunto provisório virou uma solução permanente, que se transformou em amizade ecumênica: "Ficou cada vez mais claro que faz total sentido continuarmos trabalhando juntos, até mesmo além dos cultos", diz Hübner.

"Um Senhor, uma fé, um batismo"

Na fachada da igreja, um banner proclama "Um Senhor, uma fé, um batismo". O que soa como uma frase teológica tirada de um sermão dominical ocorre também nos dias úteis. No país da Reforma Protestante, católicos e protestantes dividindo a mesma igreja não chega a ser novidade: historicamente, há 65 das chamadas "igrejas simultâneas" na Alemanha.

São igrejas para as quais o governante secular determinou a possibilidade de uso duplo logo após a Reforma - ou nas décadas seguintes - que levou à divisão da Igreja. Às vezes, era regulamentado com precisão quem poderia entrar no templo e em que horário. Os exemplos mais conhecidos são a Catedral de Altenberg, perto de Colônia, e a Catedral Evangélica de São Pedro, em Bautzen, na Saxônia.

Atualmente, o uso interconfessional de capelas em hospitais ou aeroportos é algo quase trivial, uma tendência que pode ser observada agora também nas comunidades: no estado da Renânia do Norte-Vestfália, as igrejas protestantes e católicas já haviam abordado o tema em 2017 no âmbito do jubileu de 500 anos da Reforma propagada por Martinho Lutero.

"E se nos unirmos todos?", esse é o título do "Guia prático para o uso ecumênico de igrejas e casas paroquiais", a exemplo das dioceses de Colônia, Aachen, Essen, Münster e Paderborn.

O documento faz menção à "tendência de redução no número de edifícios religiosos": segundo dados oficiais de 2025, havia 24.500 igrejas católicas e 21.100 igrejas evangélicas em todo o país, desde pequenas capelas até grandes catedrais. Ano após ano, dezenas são abandonadas, demolidas ou reaproveitadas para outros fins.

Frequentar igreja evangélica já foi "pecado"

Exemplos de novos espaços eclesiásticos compartilhados podem ser encontrados de leste a oeste e de norte a sul na Alemanha. Em Schildow, no norte de Berlim, haverá, no futuro, apenas uma igreja em funcionamento: a evangélica, por ser a mais representativa.

A assessoria de imprensa da Arquidiocese de Berlim se refere a um "projeto ecumênico com caráter exemplar". Em sua declaração, a dimensão do assunto fica evidente: "Apesar de toda a grande naturalidade ecumênica", os católicos "também se lembram de outras épocas, em que até mesmo a visita a uma igreja evangélica era considerada um pecado".

Mais ao leste, no bairro de Laubegast, em Dresden, a comunidade católica da Sagrada Família é recebida todos os sábados à noite em uma igreja evangélica. Os bispos católicos da Alemanha Oriental estão bastante acostumados a celebrar missas em comunidades protestantes. Em celebrações maiores, como crismas ou jubileus paroquiais, as igrejas católicas, que são relativamente pequenas, não são suficientes - e a comunidade evangélica dá uma mãozinha.

A Conferência Episcopal Alemã também aborda o tema e pretende apresentar um guia prático sobre o assunto - igualmente, devido à queda no número de fiéis, de igrejas que não são mais utilizadas, de dificuldades financeiras e da possibilidade de uso compartilhado. Quando questionados sobre o assunto, os bispos costumam falar de um "Simultaneum", relembrando o termo histórico.

Um altar que eram dois

Na igreja de São Pio, em Mannheim, é diferente: não é apenas uma solução provisória nascida da necessidade, mas sim a união em torno de muitos pontos em comum. De 2020 a 2022, o templo foi restaurado e reformulado. Onde antes ficava o altar, hoje está a pia batismal - central e comum nas igrejas. E na nave há um novo altar, que ora é vermelho, ora é cinza.

Segundo Hübner, "trata-se do arenito vermelho do altar da Igreja Evangélica e do travertino cinza do altar da Igreja Católica". Ambos foram triturados e fundidos para formar o novo altar. A superfície é, em parte, totalmente lisa, mas, em outras partes, também é áspera, com ranhuras visíveis: "Isso é simbolicamente muito bonito para nossa relação. Queremos nos unir. Mas ainda há pontos de atrito, questões não esclarecidas", acrescenta Hübner.

Desde 2018, não há mais creches evangélicas nem católicas no bairro. Em vez disso, ao lado da igreja de São Pio, foi construída a nova Creche Ecumênica de Neuostheim.

São Pio é uma das pioneiras nesse tema. Poucas igrejas mantêm um compromisso ecumênico consciente há tanto tempo. Outro exemplo é o Centro Emmaus, em Bad Griesbach, no extremo sudoeste da Alemanha, próximo a Passau, como seu próprio site afirma: "Um caso exemplar e uma bênção para o movimento ecumênico". Desde 1987, as igrejas Católica e Evangélica oferecem assistência pastoral ecumênica.

Deu tão certo que a Diocese Católica de Passau e o Decanato Evangélico-Luterano de Passau construíram um Centro Ecumênico de Assistência Espiritual em Balneários com um único espaço de culto, de propriedade conjunta das duas igrejas. Para isso, ambas fundaram uma sociedade de direito civil. Em outubro de 1992, o centro e a igreja foram inaugurados.

"Em 1992, o entusiasmo pelo projeto era muito, muito grande. Naquela época, as igrejas aqui na Baixa Baviera ainda não se davam muito bem", diz a pastora evangélica Tatjana Schnütgen. Hoje, a situação é diferente, e Schnütgen respalda uma "igreja quase ecumênica", que, "sempre que possível", celebram cultos juntas.

Trata-se, neste caso, de celebrações sem comunhão ou eucaristia. Ocasionalmente, também se abençoam o vinho e o pão, que são compartilhados entre todos ao ar livre após a celebração religiosa. E quanto aos clérigos? "Apreciamos o espírito de equipe em nossa igreja", afirma a pastora.

Exemplo no norte

A Igreja de Santa Brígida-Tomás, em Kiel, no norte da Alemanha, também tem uma história de muitas décadas: desde 1980, a paróquia católica de Santa Brígida e a paróquia evangélica de Tomás compartilham o mesmo prédio - algo regulamentado juridicamente.

Oficialmente, a igreja pertence à parte católica, e a casa paroquial, ao lado evangélico: "Mas nós usamos ambas as partes em conjunto e em pé de igualdade. O lado evangélico adquiriu a impressora, mas ela também é usada pelo lado católico", diz, em tom bem-humorado, a pastora Rebekka Ulrich.

Aos 36 anos, a pastora vê "uma quantidade incrível de pontos em comum", como missas e festas em conjunto, além do diálogo ecumênico. As comunidades também escolhem juntas um lema anual, e a canção do mês - ora do hinário evangélico, ora do católico - é cantada por todos.

Um organista para todos

O órgão também é tocado pelo mesmo organista: aos domingos, ele toca na missa católica às 9h30min e, mais tarde, às 11h, no culto evangélico. Mas nem tudo é tão simples: o relato de Ulrich aponta que a diminuição geral do número de padres está causando problemas para a Igreja Católica.

Em Mannheim, Hübner descreve que o caminho foi longo, mas que valeu a pena. Agrupar-se para permanecerem no bairro foi uma das intenções das igrejas católica e protestante. As crises, no entanto, continuam: nos dois lados, o número de clérigos está diminuindo e, com isso, cresce o número de celebrações sem padres ou pastores.

Até mesmo a tradição das igrejas orientais está presente em Mannheim: desde 1971, existe também o Centro das Igrejas Orientais Cirilo e Metódio, com sede na igreja de São Pio. Uma vez por mês, é celebrada a missa católica no rito bizantino. Na área de entrada da igreja, desde a restauração, há um espaço especialmente projetado com ícones e uma iconóstase. Tudo isso sob o teto da mesma igreja.

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