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Moro tem domicílio eleitoral em SP contestado: Entenda o vaivém da pré-candidatura do ex-juiz

Transferência de Curitiba para São Paulo é alvo do Ministério Público; de presidenciável que chegou a 10% nas pesquisas, hoje ele já não sabe ao certo que cargo vai disputar

17 mai 2022 14h46
| atualizado às 15h16
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O ex-juiz Sérgio Moro e sua mulher, Rosângela Moro, se tornaram alvo de investigação da Polícia Federal nesta segunda-feira, 16, acionada pelo Ministério Público de São Paulo (MP-SP) para avaliar se o casal cometeu fraude ao mudar o domicílio eleitoral do Paraná para São Paulo, em abril. Segundo o despacho da promotoria, "o vínculo residencial, social e afetivo" dos dois seria Curitiba, onde o ex-juiz ficou conhecido por conduzir processos da Operação Lava Jato.

Então ministro da Justica, Moro participa de sessão solene na Câmara, em dezembro de 2019: transferência do domicílio eleitoral de Curitiba para São Paulo é alvo do MP. Foto: GABRIELA BILO

Agora, o ex-juiz deve prestar depoimento à PF para justificar a troca, que teria acontecido com o objetivo de concorrer a um cargo ao Legislativo em São Paulo. Em nota, Moro afirmou que "não há nada ilegal" e apresentará as informações às autoridades. O ex-juiz, que também foi ministro da Justiça e Segurança Pública no governo Bolsonaro, está filiado ao União Brasil, assim como a mulher, Rosângela, que é advogada.

Este se tornou mais um obstáculo na trajetória da pré-candidatura de Moro, que de postulante à Presidência pelo Podemos, em novembro do ano passado, já mudou de partido e admite que pode até não disputar nenhum cargo em sua nova legenda: o União Brasil. Na nova sigla, perdeu a condição de pré-candidato ao Planalto e enfrenta um racha interno para se viabilizar na disputa ao Senado; o que pode lhe deixar emparedado entre tentar a vice-presidência na chapa puro sangue com Luciano Bivar ou concorrer à Câmara dos Deputados, visando ser o "puxador de votos" da bancada. A ação que corre no MP-SP deixa esse cenário ainda mais nebuloso.

Em vídeo divulgado em suas redes sociais nesta terça, ele se coloca como vítima de perseguição política. "É sério que essa é a discussão quando tem condenado em três instâncias solto por aí posando de salvador da pátria?", questionou, referindo-se à pré-candidatura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Entenda o vaivém da pré-candidatura do ex-juiz:

Novembro de 2021: Filiação ao Podemos

Com discurso de candidato ao Planalto, Sérgio Moro se filiou ao Podemos ampliando seu já conhecido discurso de combate à corrupção. "Chega de corrupção, chega de mensalão, chega de petrolão, chega de rachadinha. Chega de orçamento secreto", disse, se referindo aos escândalos envolvendo o governo Jair Bolsonaro (PL) e o ex-presidente Lula, mas sem mencionar os nomes dos rivais. A filiação foi formalizada via diretório regional do Paraná.

Dezembro de 2021: TCU contesta contratos de Moro com consultoria americana

Em dezembro, o ministro Bruno Dantas, do Tribunal de Contas da União (TCU), determinou que a Alvarez & Marsal apresentasse os documentos ligados à saída de Moro da empresa, em outubro, quando o ex-ministro se lançou na política. Ele atuou na área de compliance da consultoria americana, que presta serviços a empresas de denunciados na Lava Jato, o que motivou os questionamentos. Dantas pediu informações sobre os valores recebidos por Moro, incluindo as datas das transações.

Nas semanas seguintes, o Ministério Público junto ao TCU encaminhou pedido para que o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) fosse acionado a quebrar o sigilo do salário de Moro. Em defesa, ele chamou as acusações de levianas e apresentou os valores que recebia da consultoria.

Início de março de 2022: 'Separação de corpos'

Até o começo do ano, Moro não ultrapassou a faixa de 10% nas pesquisas de intenção de voto. Após um entusiasmo inicial, parte do Podemos passou a ver com reticências a candidatura. Sua agenda de pré-campanha também não deslanchou. O ex-juiz passou a participar de eventos com público reduzido, nos quais falava para antigos apoiadores e fãs da Lava Jato. Sem arregimentar apoios relevantes, Moro enfrentou desgastes internos no Podemos e se cercou de um grupo de confiança, apartado da cúpula do partido.

Além da desconfiança interna, a direção da sigla passou a ser pressionada por parlamentares a não destinar altas quantias à campanha presidencial. A falta de sintonia na pré-campanha estimulou aliados do ex-juiz a iniciar uma captação paralela de recursos para custear futuras despesas, com uma meta de arrecadar R$ 25 mil por mês de um universo de aproximadamente 40 empresários.

Meados de março de 2022: Distanciamento do MBL

O ex-juiz sofreu dois desgastes com membros do Movimento Brasil Livre (MBL), então seus principais aliados na interlocução com eleitores jovens e o universo digital. O primeiro problema foi uma declaração crítica à criminalização do partido nazista, feita pelo deputado Kim Kataguiri (SP), à época aguardando a formalização da entrada no Podemos, em fevereiro. No começo de março, vieram à tona os comentários de cunho sexista do ex-deputado estadual Arthur do Val sobre mulheres ucranianas. O MBL havia filiado diversas lideranças ao partido em acordo com o ex-juiz. Com as falas de Arthur, porém, o grupo deixou o partido, enquanto Moro repudiou as falas na tentativa de conter o desgaste. Sem decolar, o ex-juiz passou a apelar para aparições em programas conservadores e conversa com influenciadores digitais que abandonaram o presidente Jair Bolsonaro.

Fim de março de 2022: Filiação ao União Brasil

Sem apoio no Podemos e com caixa reduzido, Moro se filiou ao União Brasil, abrindo mão momentaneamente de disputar o Palácio do Planalto. O ex-juiz, porém, foi recebido na nova sigla com reticências. A condição de que Moro abrisse mão do plano de lançar uma candidatura presidencial foi determinante para que o União Brasil aceitasse sua filiação. Ainda, ele deixou o Podemos sem informar à presidente do partido, Renata Abreu, ou a aliados como o senador Álvaro Dias. Rosângela Moro, que havia se filiado ao Podemos no dia anterior, seguiu o marido na nova legenda.

Pouco após a troca de legenda, Dias disse que o partido "não foi responsável pela desistência de Sérgio Moro da corrida eleitoral" e que "não se mede a grandeza de um partido pelo fundo eleitoral". A pré-campanha de Moro custou ao menos R$ 2 milhões até então, segundo o Podemos.

Abril de 2022: Ameaça de desfiliação

Um dia depois de divulgar nota na qual anunciava que abriria mão "neste momento" de sua pré-candidatura à Presidência e se filiaria ao União Brasil, Moro afirmou que não desistiu "de nada", mas que não pretende concorrer a deputado federal, como vinha sendo cogitado. A declaração provocou imediata reação da ala oriunda do DEM no União Brasil. O secretário-geral do partido, ACM Neto, e o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, disseram que pediriam a desfiliação do ex-juiz caso ele não desistisse de ser candidato a presidente. Mais tarde, o nome do ex-juiz foi aventado para disputar o Senado pelo União Brasil, mas a vaga estaria reservada ao presidente da Câmara Municipal de São Paulo, Milton Leite, o que reforça a indefinição sobre o futuro de Moro nas eleições de outubro. Por enquanto, não há sinal de acordo no União Brasil.

Maio de 2022: Domicílio eleitoral

Ao deixar o Podemos, Moro e sua esposa, a advogada Rosângela Moro, também trocaram o domicílio eleitoral para São Paulo. A mudança virou objeto de investigação da Polícia Federal, acionada pelo Ministério Público de São Paulo (MP-SP) após demanda de advogada filiada ao PSB. A promotoria quer saber se o casal cometeu fraude ao mudar o domicílio já que, segundo o despacho, "o vínculo residencial, social e afetivo" dos dois seria Curitiba, capital do Paraná, onde o ex-juiz ficou conhecido pelo julgamento dos processos da Operação Lava Jato.

Para além dos obstáculos jurídicos, segue à mesa a possibilidade de Moro, junto a Rosângela, concorrer a um cargo no Legislativo por São Paulo, tentar o Senado ou ser vice em uma chapa única do União Brasil. O ex-juiz abandonou as viagens pelo País e já concentra sua agenda na capital paulista e no interior do Estado.

Estadão
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