Missão da Nasa para simular Marte termina após equipe ficar 378 dias isolada nos EUA
Quatro voluntários concluíram uma missão simulada de 378 dias em um habitat de 158 m² da Nasa, em Houston, visando preparar futuras viagens tripuladas a Marte previstas para a década de 2030. Sem ver a luz solar, o grupo realizou tarefas operacionais, cultivou plantas e lidou com recursos limitados e atrasos de até 22 minutos na comunicação externa. O experimento avaliou a adaptação física e psicológica da tripulação a exigências extremas e ao confinamento prolongado fora da Terra.
Quatro participantes ficaram confinados em preparação para futura viagem ao planeta vermelho. Comunicação com autoridades e família era deliberadamente limitada, e eles não viram a luz do sol.Os quatro integrantes de uma missão simulada a Marte deixaram no sábado (31/10) o isolamento após 378 dias no Centro Espacial Johnson, em Houston, nos Estados Unidos. A iniciativa da Nasa, a agência espacial americana, foi concebida para ajudar a preparar uma possível futura missão tripulada ao planeta vizinho da Terra.
"Estamos honrados e orgulhosos por ter contribuído para esse gigantesco empreendimento, que culminará com o envio dos primeiros seres humanos a Marte", disse o comandante Ross Elder. Os demais integrantes da missão foram o oficial científico Matthew Montgomery, o engenheiro de voo James Spicer e a médica Ellen Ellis.
Os quatro entraram no habitat de 158 metros quadrados, construído por impressão 3D, em 19 de outubro de 2025. Segundo a Nasa, o objetivo era compreender melhor como astronautas se adaptam às rotinas e exigências da vida cotidiana em missões de longa duração além da Terra, de modo a mantê-los saudáveis, produtivos e conectados.
"Estamos muito animados para sair e sentir o sol pela primeira vez em mais de um ano ou, dependendo da previsão do tempo, tomar uma boa chuva", brincou Spicer. Já Ellis revelou que o que mais queria era abraçar o marido novamente.
Simulando o planeta vermelho
Os módulos de descanso na instalação têm aproximadamente dois por três metros. O local também inclui uma espécie de sala de estar com televisão e poltronas, estações de trabalho com computadores e uma enfermaria.
Numa pequena área externa, os participantes simulavam caminhadas e atividades realizadas na superfície marciana, como o cultivo de plantas em solo parecido com o do planeta vermelho. Eles eram também os únicos responsáveis pela manutenção da área habitável e dos equipamentos.
"Não houve troca de equipe como acontece normalmente na Estação Espacial Internacional. Essas condições tornam a missão extremamente exigente", destacou, por sua vez, Sarah Whiting, cientista do projeto.
Os quatro participantes não eram astronautas profissionais da Nasa. Para se candidatar, era preciso ter entre 30 e 55 anos, ser saudável e motivado, não fumar, possuir cidadania americana ou residência permanente, além de formação universitária em área científica e pelo menos mil horas de voo.
Comunicação propositalmente lenta
A comunicação com autoridades da Nasa era realizada sob atrasos programados, para reproduzir as limitações das comunicações interplanetárias.
"Esses atrasos exigem paciência, planejamento cuidadoso e maior independência, qualidades essenciais para futuros astronautas que viajarão milhões de quilômetros longe de casa", disse a diretora do Centro Espacial Johnson, Vanessa Wyche.
Os participantes podiam se comunicar com familiares e amigos, mas apenas no chamado "tempo de Marte". Até mesmo uma mensagem de texto levava cerca de 22 minutos para ser transmitida.
Após o experimento, Spicer contou ter recebido cerca de 4 mil mensagens de familiares e amigos durante o período de isolamento. Segundo ele, esse contato foi seu principal apoio emocional.
Segundo Wyche, que recepcionou a equipe ao fim da experiência, os novos participantes conseguiram viver com recursos limitados, manter o habitat em funcionamento e executar operações simuladas de Marte. Agora, os quatro participarão de duas semanas de avaliações pós-missão e entrevistas com cientistas da Nasa.
Decolagem na próxima década
Esta foi a segunda missão do tipo pela Nasa. A primeira ocorreu entre 2023 e 2024 e também manteve quatro participantes isolados por 378 dias no mesmo local.
A agência espacial americana, que já explorou Marte com veículos robóticos e sondas orbitais, tem planos de enviar seres humanos ao planeta já na década de 2030. Antes disso, a agência pretende levar astronautas de volta à Lua pela primeira vez desde 1972.
"Temos uma janela de oportunidade cada vez mais estreita para manter a liderança dos Estados Unidos no espaço", disse Ellis. "Vamos assumir a dianteira, liderar por meio da ciência que beneficiará nossa economia e garantir nosso legado no espaço para os filhos dos nossos filhos."
Já Elder chamou o "objetivo de levar seres humanos a Marte" de "não apenas alcançável, mas inevitável", enquanto o mundo vislumbra uma nova corrida espacial.
Programas semelhantes também já foram, há cerca de quinze anos, conduzidos na Europa, na Rússia e na China. Já em agosto de 2026, a Agência Espacial Europeia (ESA) e o Centro Aeroespacial Alemão (DLR) concluíram em Colônia, na Alemanha, o estudo "SOLIS100", no qual três homens e três mulheres, com idades entre 26 e 32 anos, passaram cem dias em isolamento.
ht (Reuters, dpa, EFE)
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