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Milei x Lula: crise ameaça relação Brasil-Argentina?

31 jul 2026 - 16h56
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Relação entre países passa por pior momento em décadas após Milei direcionar ataques a Lula. Mas especialistas não creem em ruptura total. "Não é uma crise entre Estados, mas uma crise entre governos", diz analistaA relação entre os presidentes do Brasil e da Argentina atravessa o pior momento em décadas, segundo especialistas ouvidos pela DW. O desgaste entre Luiz Inácio Lula da Silva e Javier Milei tende a afetar o vínculo diplomático entre os dois países, mas, até o momento, não deve comprometer diretamente os laços comerciais bilaterais.

Na última semana, Milei participou da convenção do Partido Liberal (PL) que oficializou a candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à disputa presidencial nas eleições de outubro. No evento, o argentino criticou Lula e fez declarações ofensivas indiretamente contra Alexandre de Moraes, ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), a quem chamou de "lixo careca".

Nos dias seguintes, Milei republicou nas redes sociais mensagens contra o governo brasileiro, entre elas uma entrevista do ex-deputado Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio, ao jornal argentino La Nación, na qual ele afirma que Lula atuou para favorecer o candidato Sérgio Massa nas eleições argentinas de 2023 — pleito vencido por Milei.

Em entrevista a uma rádio argentina no domingo (26/07), o presidente associou o governo brasileiro a uma campanha contra a Argentina. No mesmo dia, o Itamaraty convocou o embaixador do Brasil em Buenos Aires, Júlio Bitelli, para prestar esclarecimentos sobre o estado da relação bilateral.

O que está por trás do afastamento entre os líderes

Para o cientista político Henrique Hellas, o episódio não se trata de "uma crise entre Estados, mas uma crise entre governos", de caráter partidário, não institucional. O fato de as ofensas terem ocorrido em solo brasileiro, segundo ele, "rompe com a previsibilidade diplomática" e eleva a tensão, gerando insegurança para investidores.

Apesar do acirramento recente, Hellas considera improvável uma ruptura comercial no curto ou médio prazo, dada a integração das cadeias produtivas dos dois países. Para ele, o maior risco não é o rompimento em si, mas o abalo à confiança no ambiente de negócios regional: a incerteza sobre uma eventual ruptura tende a inibir novos investimentos.

A disputa também tem componentes ideológicos e eleitorais. Milei é aliado de Jair Bolsonaro e do presidente americano Donald Trump — ambos opositores de Lula, que disputa a reeleição em 2026 diante do próprio Flávio Bolsonaro, hoje seu principal concorrente e apoiado pela Casa Branca.

Segundo Regiane Bressan, professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e especialista em América Latina, Milei tem usado o avanço de governos de direita na América do Sul — a chamada "onda azul" — como bandeira política, já que o Brasil é hoje uma das poucas exceções de esquerda na região; o apoio de Trump reforça essa identificação.

O tom agressivo do argentino, avalia Bressan, também mira o eleitorado local, de olho nas eleições de 2027 na Argentina: embora não deva render votos diretos a Flávio Bolsonaro, segundo ela, a postura reforça o alinhamento contra governos de esquerda na região, o que pode beneficiar o próprio Milei internamente.

"É como se eu tivesse em um grupo que está crescendo mundialmente, então, eu me sinto pertencente, eu tenho um apoio internacional. Ele também tem o apoio do Trump".

Especialistas explicam, porém, que o distanciamento entre os dois países não é recente em relação à posição ideológica. Josemar Franco, gerente de comércio internacional na BMJ e conselheiro do Instituto de Relações Governamentais (Irelgov), lembra que já havia atritos na gestão anterior, quando Jair Bolsonaro e Alberto Fernández comandavam Brasil e Argentina. "Aquelas falas já eram contundentes, mas Milei deu um caráter mais pessoal à relação com o Brasil, diferente da diplomacia tradicional de Fernández", afirma.

Neste cenário de afastamento, Bressan explica que Milei, após eleito, demorou a vir ao Brasil para uma conversa com Lula. "Nesses anos, o Milei veio pouco ao Brasil e às vezes não participou da cúpula do Mercosul. O Lula também não faz muita questão. Ele manda os diplomatas tentarem resolver." O Mercosul abarca atualmente, além de Argentina e Brasil, Paraguai, Uruguai, Bolívia e Venezuela, suspensa atualmente.

Impacto econômico ainda limitado

A Argentina é o terceiro maior comprador de produtos brasileiros, atrás de China e Estados Unidos, segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic), mas essa participação vem caindo.

Em junho, as exportações brasileiras para o país vizinho somaram US$ 1,3 bilhão, ante US$ 1,6 bilhão um ano antes. Com isso, a fatia argentina nas exportações totais do Brasil caiu de 5,6% em junho do ano passado para 3,65% no mesmo mês deste ano. Já as importações brasileiras vindas da Argentina passaram de US$ 1,1 bilhão para US$ 1,3 bilhão no mesmo intervalo.

Segundo Franco, essa retração não decorre do desgaste político entre os líderes, mas de uma política protecionista argentina voltada a conter a saída de dólares, diferente, por exemplo, da lógica protecionista de Trump, com o argumento de proteger a indústria americana. A escassez da moeda no país vizinho levou o governo argentino a dificultar importações por meio de licenças não automáticas (LNAs), mecanismo que condiciona a entrada de produtos à aprovação prévia da Casa Rosada.

"Quando você compra um produto e paga o seu fornecedor, isso faz com que haja uma saída de divisas do país e o país sofre com baixo estoque de dólar na economia", explica Franco.

O problema é que essa política adotada pelo governo argentino — e que já foi adotada por outros presidentes por lá — tem dificultado o processo de importação, ainda que os países sejam parceiros no Mercosul.

"Teoricamente deveria haver uma zona de livre comércio sem esse tipo de barreira, mas é exatamente o oposto do que a Argentina pratica", diz Franco. Apesar dos entraves com o país vizinho, ele diz que "o Mercosul é uma organização sólida".

Bressan aponta ainda uma divergência entre a atuação dos dois líderes sobre o multilateralismo: enquanto o Brasil busca ampliar acordos do bloco, Milei vê o Mercosul como "ter que obedecer as regras do jogo".

"No multilateralismo, os integrantes definem as regras juntos e todos se comprometem a segui-las. E isso dá uma previsão recíproca de comportamento. O jogo geralmente é democrático, colaborativo, e isso destoa do interesse do Milei", pontua a professora, que avalia que o bloco vive um "regionalismo líquido", sujeito à volatilidade política de seus integrantes — inclusive porque a presidência rotativa do Mercosul, exercida a cada seis meses por um país-membro, muda as prioridades da pauta a cada troca de governo.

"A gente fala que é uma diplomacia presidencial. Os governos passam, e a integração deveria ser uma política de Estado. Então, quando a gente tem uma fragilidade no Mercosul e um presidente como o Milei, o Mercosul do lado da Argentina quase que paralisa", diz ela.

Apesar do desgaste entre os líderes, especialistas projetam que a diplomacia dos dois países buscará mitigar o conflito político para preservar a relação bilateral.

A avaliação de Bressan é que a diplomacia brasileira e também argentina adotarão uma estratégia "encapsular", ou seja, ignorar os atos do presidente argentino para preservar os interesses dos dois países. "Existe a figura do Milei, mas também o corpo diplomático, que segue trabalhando. Não se publiciza, mas as relações continuam", diz ela.

Para Franco, ainda que haja ruído entre os dois líderes, é pouco provável que a Argentina deixe o Mercosul, já que o bloco amplia seu poder de barganha em negociações internacionais, como nos acordos em curso com o Japão, o Canadá e os Emirados Árabes Unidos.

"A Argentina sabe que sem o Brasil perde poder de barganha. Em uma negociação com o Japão, por exemplo, estamos falando de um mercado de mais de 200 milhões de consumidores, no caso do Brasil. Então, a Argentina sabe que se sair do Mercosul, quando ela for negociar com outro país um acordo, ela não vai ter o mesmo peso", diz Franco, e complementa: "todas essas negociações só ocorrem se houver consenso entre os países membros. E o consenso econômico e comercial, se sobrepõe".

Para ele, há, de fato, um distanciamento, o que não quer dizer que os dois países não estejam "investindo tempo em pautas que são relevantes" para ambos. Por outro lado, ele cita que, fora assuntos econômicos, outros temas vão ficando escanteados na relação com esse afastamento. "Saindo dessa pauta, já não há uma cooperação muito grande em outros temas, como questões culturais e sociais, como houve no passado."

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