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Eleição nos EUA pode aliviar pressão de Trump sobre o Brasil

3 nov 2026 - 16h31
(atualizado às 16h49)
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Resumo
Uma eventual vitória democrata nas eleições legislativas dos EUA deve frear a pressão de Donald Trump sobre o Brasil. Ao assumir o controle do Congresso, a oposição pretende fiscalizar a diplomacia beligerante do presidente, abrindo investigações sobre a fuga de Flávio Bolsonaro a Miami, a atuação da Meta e o tarifaço contra produtos brasileiros. Embora Trump possa vetar medidas ou usar ordens executivas, a perda da maioria republicana reduz sua capacidade de impor decisões unilaterais.

Eventual maioria democrata no Congresso deverá fiscalizar política externa do presidente, com possíveis investigações sobre fuga de Flávio Bolsonaro, Meta e tarifaço.As eleições legislativas de meio de mandato nos Estados Unidos (midterms, em inglês) têm o potencial não só de reordenar o jogo de forças na política americana, mas também de elevar a fiscalização sobre a agenda externa altamente personalizada do presidente Donald Trump. A antecipada guinada democrata deverá repercutir também nas relações diplomáticas e comerciais com o Brasil.

Eleitores foram às urnas nesta terça-feira nas eleições legislativas de meio de mandato, que Trump buscou converter em "plebiscito" sobre o próprio governo
Eleitores foram às urnas nesta terça-feira nas eleições legislativas de meio de mandato, que Trump buscou converter em "plebiscito" sobre o próprio governo
Foto: DW / Deutsche Welle

A previsão é que a votação dos americanos, a ser encerrada nesta terça-feira (03/11), passe o controle do Congresso à oposição. Para reverter as estreitas maiorias republicanas de 218 a 214 na Câmara dos Deputados e de 53 a 47 no Senado, o Partido Democrata precisaria de um ganho líquido de quatro cadeiras em cada Casa.

Até agora no segundo mandato, Trump contou com atmosfera permissiva, num Congresso de maioria republicana, em relação às suas pautas e à expansão dos seus poderes, destacam analistas ouvidos pela DW. Mas, caso vejam a própria bancada fortalecida, oposicionistas teriam, então, poder para formalizar, por mecanismos institucionais, o seu já expresso incômodo com a diplomacia beligerante do atual presidente.

"Para o Brasil, a mudança mais significativa não seria necessariamente encontrar um Trump mais moderado, mas sim com menor capacidade política de impor unilateralmente suas decisões," afirma Gisele Agnelli, cientista política e autora de Democracia Made in USA.

Acolhida a Flávio em xeque

Nos últimos dias de campanha, 25 democratas já publicaram uma carta formalmente pedindo explicações ao secretário de Estado, Marco Rubio, pela acolhida ao senador Flávio Bolsonaro (PL). O brasileiro fugiu para Miami depois de ter perdido as eleições presidenciais.

À Folha de São Paulo, a deputada Pramila Jayapal, uma das signatárias, indicou na semana passada que, com uma eventual maioria no Congresso, a oposição quer investigar a atuação de Trump e da Meta no contexto do pleito brasileiro.

Com uma maioria democrata, as comissões parlamentares poderão, além de conduzir investigações, "emitir intimações formais, convocar autoridades e exigir documentos relacionados a políticas comerciais, decisões diplomáticas, sanções, imigração e operações militares," acrescenta Agnelli.

No fim de setembro, às vésperas do primeiro turno no Brasil, outra carta democrata, assinada inclusive pelo senador Bernie Sanders, já questionara as ações de interferência sobre o pleito no país.

Contestação da guerra comercial

O desembarque de Flávio nos EUA na quarta-feira criou um novo clímax para a escalada de pressão trumpista sobre o governo brasileiro, sob a égide da chamada doutrina Donroe.

O mal-estar diplomático ganhou tração em 2025, quando Trump impôs taxas de 50% sobre produtos brasileiros, como retaliação ao julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

Agora, uma vitória democrata não enterraria automaticamente o tarifaço contra o Brasil, pondera ainda Agnelli, mas potencialmente criaria um terreno mais favorável para conversas bilaterais, devolvendo ao Brasil "a possibilidade de negociar com diferentes centros de poder dentro dos EUA."

Segundo especialistas em comércio e assessores parlamentares nos EUA, a expectativa é que uma oposição vitoriosa promova uma série de audiências de fiscalização e votações simbólicas para revogar as taxas que marcaram o segundo mandato de Trump.

Possíveis tiros pela culatra

Qualquer empreitada legislativa esbarraria, entretanto, no veto presidencial. A vantagem democrata apontada pelas pesquisas de opinião não seria suficiente para atingir a maioria de dois terços na Câmara, necessária para derrubar um eventual veto do chefe do Executivo. Já no Senado as previsões são mais incertas.

Ao mesmo tempo, o governo Trump trabalha em planos para ampliar o uso de ordens executivas, inclusive na área comercial, contornando, assim, o Congresso. Para Leonardo Paz, cientista político do Núcleo de Prospecção e Inteligência Internacional da FGV, "num contexto em que Trump perca as duas Casas", a sua estratégia pode ser justamente focar na agenda externa, "na qual encontra mais latitude política" para atuar sem aval legislativo.

Em contrapartida, diversos observadores apontam para um crescente custo político da agenda externa do republicano — e a veem, inclusive, como um dos fatores que prejudicam o desempenho eleitoral de seu partido nesta semana.

Embora só raramente a diplomacia figure entre os temas decisivos para eleições, os efeitos da guerra no Irã, por exemplo, se fazem sentir no bolso da população. A maioria dos americanos associa o conflito ao aumento nos custos de vida, segundo pesquisa do Institute for Global Affairs.

Para Agnelli, também aliados republicanos poderão, passadas as legislativas, recalcular o preço de permanecer associados às decisões presidenciais mais impopulares.

Deutsche Welle A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
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