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Miami, a base de políticos conservadores da América Latina

30 out 2026 - 18h21
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Resumo
Miami consolidou-se historicamente como refúgio de líderes conservadores e ex-ditadores latino-americanos, tradição reiterada pela recente fuga de Flávio Bolsonaro após a derrota eleitoral no Brasil. Com 70% de população hispânica, marcada por diásporas contrárias ao socialismo, como cubanos e venezuelanos, a cidade tornou-se um forte reduto republicano e pró-Trump, contrariando o rigor das políticas anti-imigração americanas que afetam a própria comunidade latina local.

Fuga de Flávio Bolsonaro para Flórida usa rota iniciada há quase um século por líderes políticos e ex-ditadores de direita. Com 70% de latinos, cidade é cada vez mais pró-Trump, apesar de medidas anti-imigração.Miami ainda era, em 1937, um refúgio de inverno reservado a magnatas americanos quando o ex-ditador cubano Gerardo Machado se estabeleceu por lá. Em 1933, o chamado "Mussolini dos Trópicos" fugira às pressas de Havana, no meio de uma revolta para depor o regime liderado por ele e que, durante oito anos, havia mudado a Constituição, perseguido intelectuais, estudantes e executado opositores.

Miami: clima agradável e belas paisagens na costa leste americana
Miami: clima agradável e belas paisagens na costa leste americana
Foto: DW / Deutsche Welle

O clima, as praias e a paisagem semelhantes ao país natal de Machado atraíam a elite dos Estados Unidos principalmente durante a época mais fria no resto do país. John D. Rockefeller, o primeiro bilionário da história dos EUA, e Henry Ford, o segundo, além de figuras como o mafioso Al Capone, aproveitavam o boom imobiliário na Flórida para comprar mansões na região.

Eram condições favoráveis a Gerardo Machado, que evitava voltar a Cuba, mesmo que a ilha estivesse a uma hora de avião de Miami. O ex-ditador era alvo de mandados de prisão por suspeita de assassinato e desvio de dinheiro público.

Machado morreria pouco depois, em 1939. Mas abriria as portas para uma sequência de líderes políticos que fariam da cidade o principal reduto da direita latino-americana fora de sua região geográfica: o também ex-ditador cubano Fulgêncio Batista, o general venezuelano Marcos Pérez Jiménez, o ex-presidente panamenho Ricardo Martinelli e, mas recentemente, o oposicionista do chavismo Juan Guaidó, que se autoproclamou presidente venezuelano e foi reconhecido pelos EUA.

Logo, não é coincidência que, nesta mesma cidade, Flávio Bolsonaro, investigado por lavagem de dinheiro e corrupção, tenha aportado na quarta-feira(28/10), dias após a confirmação de sua derrota eleitoral para Lula. O senador descumpriu uma ordem judicial de entrega de passaportes e protagonizou uma fuga cinematográfica, cruzando a fronteira terrestre com a Argentina para embarcar em um avião fretado que, após uma escala no Equador, o levou até a Flórida.

Ao chegar, divulgou uma nota golpista se autodeclarando "presidente eleito", numa emulação da atitude tomada por Guaidó em 2019. Flávio logo voltou atrás e trocou o termo por "líder do Brasil". Curiosamente, o venezuelano assinou uma declaração, com outros líderes da direita como o ex-presidente argentino Maurício Macri, reconhecendo a vitória de Lula.

Uma tradição à direita

Foi para a Flórida que, no final de 2022, imediatamente após perder as eleições também para Lula, viajou o pai de Flávio e ex-presidente Jair Bolsonaro. Três meses depois, retornou. Hoje, cumpre pena de 27 anos por tentativa de golpe de estado.

No estado da Costa Leste dos EUA vivem também o advogado Willer Tomaz, alvo do mesmo inquérito que investiga o filho de Jair por lavagem de dinheiro em plataformas de bets. O irmão de Flávio, Eduardo Bolsonaro, deputado cassado no Brasil e alvo de um mandado de prisão por coagir a Justiça brasileira, também está foragido nos EUA, mas no Texas.

À primeira vista, parece uma contradição. Enquanto o trumpismo e a ultradireita mundial em países como a Alemanha sobem o tom contra a imigração, em Miami, cidade com 70% de origem latina, os conservadores prosperam.

São, no entanto, em grande parte cubanos e venezuelanos que emigraram e adotaram a retórica antimarxista - numa tradição que remonta à ida de empresários de Havana expulsos, após 1959, pela revolução de Fidel Castro na ilha caribenha e aprofundada com a chegada de Hugo Chávez, nos anos 2000.

De acordo com dados eleitorais do distrito de Miami-Dade, entre os hispânicos da cidade, quase 350 mil eram filiados ao Partido Republicano, praticamente o dobro dos 180 mil democratas, em janeiro deste ano. Foi esse contexto que levou Marco Rubio, atual secretário de Estado de Trump, à vida pública. O filho de cubanos, eleito senador pela Flórida, vem sendo o responsável por intensificar o intervencionismo americano em governos da região.

Naquilo que vem sendo chamado como retorno da Doutrina Monroe, a medida mais drástica foi a operação militar americana que levou à captura e à prisão de Nicolás Maduro. Nesta sexta-feira (30/10), deputados democratas questionaram Rubio se o republicano teria ajudado Flávio Bolsonaro a conseguir um visto para consumar a fuga após a derrota para Lula nas eleições.

Há cerca de 40 mil brasileiros vivendo hoje em Miami, atrás apenas de Boston e Nova York. Na cidade, Flávio teve 76,7% votos no segundo turno, contra 23,3% de Lula. Em 2022, Jair Bolsonaro teve 81,2% e Lula, 18,8%. Em 2014, Aécio Neves teve 91,8% dos votos válidos contra Dilma Rousseff. Nas três ocasiões, os candidatos petistas venceram as eleições no mapa geral.

Hoje, republicano; antes, democrata

"Não preciso de um livro didático para saber os perigos do socialismo", afirmou Carlos Giménez, deputado do Partido Republicano eleito pela Flórida. "Eu vivi isso. Como um cubano-americano, eu sei exatamente para onde leva o caminho do radicalismo", declarou ele, numa entrevista. Giménez nasceu em Cuba, numa família proprietária de terras que deixou a ilha caribenha por causa da reforma agrária imposta por Fidel.

É um recorte específico, mas a realidade é que, desde 1999, o Partido Democrata não vence uma eleição para o governo da Flórida. O apoio segue alto - de acordo com um levantamento da Universidade Internacional da Flórida, divulgado nesta quinta-feira (29/10), 68% dos cubanos no sul do estado disseram que vão votar nos republicanos nas eleições de meio de mandato no próximo dia 3 de novembro.

Miami era, até 2020, um bolsão de votos para os democratas, ao menos nas eleições presidenciais. Votou, em 2016, para Hillary Clinton contra o atual presidente. Mas, no pleito seguinte, escolheu Trump contra o futuro presidente Joe Biden. Em nível nacional, tem sido assim desde então.

No entanto, o uso da força para a deportação de imigrantes com documentos irregulares pelo ICE, a polícia migratória, desde o início do segundo mandato, em 2024, ameaça alterar esse cenário. De acordo com a mesma pesquisa da Universidade da Flórida, 76% dos cubanos disseram desaprovar as deportações trumpistas de compatriotas que não cometeram crimes nos EUA.

Deutsche Welle A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
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