Como a fuga de Flávio Bolsonaro pode impactar o bolsonarismo
A fuga de Flávio Bolsonaro para os EUA após a derrota eleitoral e seu discurso radical enfraqueceram sua liderança e o clã familiar. Analistas apontam que o bolsonarismo sobreviverá como forte movimento de extrema-direita, mas deverá se reformular. Com Jair preso e os principais filhos no exterior, abre-se espaço para novos nomes fora da família, como Tarcísio de Freitas e Nikolas Ferreira, já que a cúpula aliada evita rupturas institucionais para proteger seus expressivos ganhos no Congresso.
Saída de Flávio do Brasil enfraquece postura do filho de Jair Bolsonaro e abre espaço para outras lideranças do bolsonarismo, até mesmo de fora do clã.Após o resultado das eleições, o senador Flávio Bolsonaro (PL) buscou se apresentar como o líder da oposição, inclusive após a sua fuga para os Estados Unidos. No entanto, sua saída do país e a adoção de um discurso golpista radical colocou em xeque essa liderança e pode redesenhar o bolsonarismo. A distância abre espaço para outras lideranças se posicionarem com representantes do movimento.
A derrota de Flávio já era considerada um ponto que deveria suscitar reavaliações sobre o bolsonarismo, segundo os especialistas. Mas a situação se tornou ainda mais complexa após a fuga dele para os Estados Unidos.
Flávio se recusou inicialmente a aceitar o resultado eleitoral e fugiu para os Estados Unidos, de onde se autoproclamou presidente eleito do Brasil. Depois, recuou do status e se apresentou apenas como "líder do Brasil" e da oposição em uma carta golpista publicada em suas redes sociais.
"Essa postura do Flávio após a derrota prejudica bastante a posição dele no campo bolsonarista. Ele perde espaço com isso", avalia a cientista política Daniela Costanzo, do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), que pesquisa o movimento bolsonarista.
"O Flávio já não era um grande líder do bolsonarismo, mas foi definido como candidato por escolha do pai. Nas eleições municipais de 2024, o Flávio foi muito importante no bolsonarismo, quando ajudou muito o PL, mas não era uma liderança muito forte", acrescenta Costanzo.
Senador de 45 anos que substituiu seu pai declarado inelegível, Flávio inicialmente se lançou à Presidência no ano passado no que parecia uma mera manobra política de "troca de moeda" que ainda poderia abrir caminho para outro candidato de ultradireita. Mas ele rapidamente foi bem-sucedido em herdar boa parte do capital político de Jair Bolsonaro e se cacifar como o principal desafiante da candidatura à reeleição de Lula.
Costanzo, porém, pontua que Flávio nunca foi tão carismático como o pai, além de estar respondendo por vários crimes.
Flávio acumula uma série de investigações, ao longo de mais de duas décadas de vida pública. As suspeitas vão desde um esquema de rachadinhas em seu gabinete na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) a supostos vínculos com apostas esportivas, passando por desvio de recursos públicos para o financiamento de um filme sobre o pai.
Com a chegada de Flávio nos EUA, os três principais nomes do clã Bolsonaro estão fora da política no momento. Jair está preso, após ser condenado por liderar uma trama golpista para impedir a posse de Lula após as eleições de 2022. Já Eduardo, que era considerado um dos principais articuladores da extrema direita junto com Flávio, também vive nos Estados Unidos desde março de 2025.
O novo bolsonarismo
Os especialistas consideram pouco provável que o bolsonarismo acabe, mas avaliam que ele deve ser reformulado após os últimos acontecimentos. "Ainda dá muito certo para os políticos se associar ao bolsonarismo, porque em várias eleições você vê aliados do campo bolsonarista com muitos votos. Tanto que eles elegeram a maior bancada da Câmara", afirma Costanzo.
Neste ano, dois filhos do ex-presidente, Carlos e Jair Renan, foram eleitos, ambos no PL, por Santa Catarina como senador e deputado federal, respectivamente. Já em Brasília, Michelle Bolsonaro (PL), ex-primeira-dama, foi eleita senadora.
"A família Bolsonaro constitui uma organização de caráter familiar que enriqueceu com a política e transformou isso numa espécie de negócio", afirma o cientista político Helio Cannone, pesquisador do Observatório da Extrema Direita Latino-Americana (OEDLA), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
Carlos, Jair Renan e Michelle não têm sido vistos como nomes fortes para liderar o bolsonarismo, ao menos por enquanto. Eles devem ser suplantados por outras figuras consideradas mais expressivas da extrema direita, como o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos).
"Talvez com esse fracasso do Flávio e com a fuga dele, acabe havendo um consenso dentro do partido digital bolsonarista de que é melhor apostar em alguém que não seja da família para a próxima eleição", avalia Costanzo.
O caso de Flávio causou uma divisão dentro do bolsonarismo. Enquanto alguns membros do movimento optaram por discordar da fuga e da carta divulgada pelo ex-candidato à Presidência, outros manifestaram apoio.
"Os maiores líderes do campo político do bolsonarismo não manifestaram apoio à fuga do Flávio. Houve aquela coisa de dizer: 'Está vendo como o Judiciário é ruim? Está vendo a ditadura do Supremo?'. Mas ninguém falou realmente: 'O Flávio é o nosso líder'. No ambiente digital da direita e da extrema direita, não houve uma comoção em torno disso. Foi uma fuga que enfraqueceu o campo", afirma a cientista política Marina Basso Lacerda, que estuda o novo conservadorismo brasileiro.
"Esses líderes não acompanharam o Flávio porque a direita e seus setores mais extremos no Brasil hoje têm muito a perder. O PL é um partido de direita de massas, o primeiro da história do Brasil. Fez uma bancada recorde desde a redemocratização. Então, esse campo tem muito a perder. Não vai romper com a democracia brasileira, não vai dizer que as eleições que elegeram essas pessoas não são legítimas", acrescenta Lacerda.
Os impactos do caso Flávio
Para os especialistas, ainda é cedo para avaliar de modo mais profundo os impactos da conduta de Flávio para o bolsonarismo. No entanto, eles frisam que cada vez mais vai ser fundamental discernir o movimento da extrema direita daquele diretamente ligado à família Bolsonaro.
"Houve um enfraquecimento da família Bolsonaro, mas o bolsonarismo vai além disso. Se considerarmos o bolsonarismo como uma força política que atrai muitos votos a partir de determinada visão de mundo e de uma oposição às esquerdas, com base tanto na sociedade quanto em outros políticos eleitos, aí fica mais difícil prever o que vai acontecer", afirma Cannone.
"Nem todo eleitor do Flávio Bolsonaro é um bolsonarista muito convicto, mas uma parte considerável é. É um eleitorado muito fiel, alimentado por um sentimento antipetista e contrário às esquerdas em geral. Há também aquelas pessoas que compram parcialmente essa visão de mundo", completa Cannone.
Ainda que não tenha um membro dos Bolsonaro como líder principal, esse segmento da extrema direita deve continuar vinculado ao ex-presidente. "O Bolsonaro teve um papel criativo e também um papel de ativador, de catalisador de um movimento que existia em bases políticas periféricas", diz Lacerda.
"Esse movimento também floresceu por uma conjuntura econômica: a crise de 2008, que chegou aqui tardiamente, e o ambiente das plataformas, cujo modelo de negócios hoje sabemos que favorece a radicalização. Sem Bolsonaro, sem um herdeiro nomeado por Bolsonaro, isso não desaparece", declara Lacerda.
Para Lacerda, a derrota e a conduta de Flávio nos últimos dias diminuíram a força de Jair com os aliados. "A fuga e a carta do Flávio enfraqueceram o mito do Jair. Porque o pai continua preso no Brasil, enquanto o filho foi para os Estados Unidos e abandonou os abandonados pelo sistema, como se considera grande parte desse eleitorado", diz. "Mas acho que ainda assim há um Jair Bolsonaro que será disputado", acrescenta.
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