Luxo discreto e conforto: Conheça o 'Pajamacore', a tendência de moda que domina ruas e passarelas
Estética adotada por marcas como Dolce & Gabbana e Armani fala de desejo por liberdade, conexão consigo e estilo
Era como se todos tivessem saído da cama e ido direto para a aula, lembra Valeska Nakad, coordenadora da graduação em design de moda do Centro Universitário Belas Artes. A professora conta que, no período pós-pandemia, muitos alunos chegavam às aulas com roupas que pareciam pijamas - e, ao mesmo tempo, não exatamente.
"Isso já era muito evidente na Austrália", diz, citando o clima quente do país e as calças relaxadas da Pink, linha da Victoria's Secret baseada em loungewear, como exemplo de uma estética de conforto que tem tomado as ruas. O nome para essa tendência já existe: pajamacore.
Na semana de moda masculina de Milão deste ano, a estética apareceu de forma explícita. A Dolce & Gabbana apresentou a coleção verão 2026, "Pajama Boys", com conjuntos listrados inspirados em pijamas clássicos.
Na passarela da Emporio Armani, a etiqueta apresentou calças largas de linho com estampas fluidas e túnicas bordadas, evocando uma sofisticação boêmia que transforma o descanso em atitude elegante.
The Row e Sleeper, marcas femininas americana e ucraniana, respectivamente, também têm lançado mão da proposta em suas prateleiras digitais.
Na visão de Valeska Nakad, o loungewear tem sido marcado por uma proposta que mistura o visual de pijamas clássicos com o uso intencional do cotidiano, trazendo mais estilo e desafiando as fronteiras entre o público e o privado. Intimidade, luxo discreto e conforto são fatores importantes para o guarda-roupa contemporâneo. Além disso, tem uma transformação cultural em curso. "A sociedade está valorizando o bem-estar e a saúde mental, e a vestimenta torna isso notório." A estética do conforto, portanto, não é apenas visual - ela é emocional.
Andreia Meneguete, coordenadora da pós-graduação de marketing de moda e beleza da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), lembra que a moda captura o espírito do tempo. "Como campo criativo, ela manifesta o inconsciente coletivo", afirma. A estética do pijama responde a um desejo latente de pausa, aconchego e simplicidade, diz a professora.
Pijama de sair
É esse caráter híbrido que faz com que o "pijama de sair" seja tão valorizado no mercado atual. Meneguete pontua que, para funcionar, a peça precisa de tecidos de alta qualidade, estampas exclusivas, acabamentos bem trabalhados e fluidez na modelagem. "A moda não é formada apenas pelo look em si, mas como, onde e por quem ela é usada."
O uso de pijamas como roupas de status não é exatamente novo. O modelo palazzo foi popularizado por Chanel nos anos 1920 - mesmo período em que loungewear, termo guarda-chuva para o pajamacore, começava a circular - e se tornou símbolo da contracultura nas décadas de 1960 e 70.
A partir do mesmo período, os avanços de tecnologia têxtil que hoje possibilitam inovações industriais com fibras sintéticas que imitam o toque natural, com tecidos leves, lavados, termorreguladores e de fácil manutenção, foram se tornando mais expressivos. E, nos anos 2000, loungewear enfim se estruturou como categoria de moda e foi difundido por celebridades como Britney Spears, Paris Hilton e as gêmeas Olsen - as rainhas da estética Y2K, ou "year 2000" -, misturando peças confortáveis com estética urbana e glamour, em séries de TV e capas de revista.
Conceito ressignificado
A pandemia de covid-19 acelerou a ressignificação e a aderência da peça pelo mercado - não à toa, foi nessa mesma época em que as barreiras entre a vida pública e a privada foram ainda mais relativizadas, com empresas aderindo massivamente ao home office, por exemplo.
Meneguete, da ESPM, vê na tendência um desejo de se desligar da performance contínua. "Essa estética instaurada em uma vestimenta como o pijama pode ser traduzida como um escape para o momento de conexão consigo mesmo", afirma. "O ato de dormir é o momento em que estamos, ou deveríamos estar, mais próximos de um relaxamento."
Vivemos, afinal, na era do burnout, da exaustão causada por um mundo confuso, em policrise e cujo sistema econômico exige que nós desempenhemos incontáveis papéis.
Conforto é luxo
A ideia de conforto como novo luxo também tem expressão estética. "Quem consegue dormir de forma tranquila é porque tem o privilégio de estar bem diante de tantos desafios do dia a dia", diz a professora. O descanso é, de fato, para poucos.
Além disso, a estética oferece possibilidades comerciais, afirma Nakad, da Belas Artes. Ela lembra que marcas de cama, mesa e banho lançam roupas íntimas com acabamento sofisticado e que o loungewear tornou-se símbolo de status nas duas últimas décadas.
Aparecido Dias Araújo, fundador da Studio Vinco, de Campinas (SP), diz ter sentido isso na prática ao aderir à proposta. "Notamos um movimento por esse tipo de roupa e, em dezembro de 2024, lançamos as peças que chamamos de 'Beau'. Até hoje são nossos best-sellers", diz. O ponto de partida da coleção é o algodão 100%, "para garantir um toque tão aconchegante quanto aquele momento de paz na cama", explica.
De acordo com Aparecido, a leveza e a autenticidade apontam para um desejo coletivo por tranquilidade e por uma moda mais leve, menos presa a dress codes. "Uma forma de se vestir com mais liberdade, mais intimidade e verdade."
E o segredo para usar os looks está em identificar como eles combinam com você. "Bolsas estruturadas, sapatos com presença, acessórios que falam por você - mas, acima de tudo, marcam a personalidade."
O que antes era considerado desleixo, agora se tornou um código de estilo. Afinal, poucos gestos são tão íntimos - e tão politicamente potentes - quanto escolher descansar. E, se for com estilo, melhor ainda.