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Lilia Guerra e o racismo entre mantas e lençóis

20 ago 2025 - 06h41
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Após ser acusada de levar peças de pousada na Flip, escritora negra passou um pente fino no racismo, dando nome a todos os bois."Prezados, gostaríamos de informar que a senhora Lilia Guerra levou um lençol e uma manta durante os dias em que esteve hospedada aqui por conta da Flip."

"Nossa vigilância tem que ser constante, porque o que a população negra vive no Brasil é a presunção da culpa e nunca da inocência em absolutamente todos os lugares em que estivermos"
"Nossa vigilância tem que ser constante, porque o que a população negra vive no Brasil é a presunção da culpa e nunca da inocência em absolutamente todos os lugares em que estivermos"
Foto: DW / Deutsche Welle

Por algum tempo, fiquei pensando quais teriam sido as palavras exatas que os responsáveis da pousada onde a escritora Lilia Guerra esteve hospedada utilizaram para dizer que ela havia levado um lençol e uma manta quando deixou o local. Teria sido um tom deliberadamente acusatório? Teria sido uma leve suposição, dessas bem típicas do racismo à brasileira? Ou tentaram utilizar um tom protocolar para naturalizar mais uma violência a qual pessoas negras estão sujeitas nesse país?

Depois pensei que pouco importa o tom empregado. Para quem sabe ler nas entrelinhas, a mensagem era bem clara. E mais: exigia uma reparação. Manta e lençol deveriam ser ressarcidos fosse pela Lilia, fosse pela organização da Flip. Uma situação abjeta, que nos lembra que, até quando a "vida imita a arte", o racismo não dá tréguas.

Para quem não a conhece (um problema em si), Lilia Guerra é uma escritora que vem se destacando no cenário literário brasileiro por livros como Perifobia e O Céu para os Bastardos. Um reconhecimento que, em alguma medida, se desdobrou no convite em fazer parte da programação oficial da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) neste ano.

O evento é um dos maiores e mais importantes festivais literários do Brasil, com grande repercussão internacional. E ainda que haja muito o que ser feito para que essa festa tenha realmente a cara do país - onde 56% da população é autodeclarada negra -, nos últimos anos tem havido um esforço dentre os curadores e editoras envolvidas para trazer vozes mais diversas da literatura brasileira.

Ah sim, Lilia Guerra é uma mulher e uma autora negra.

Momentos emocionantes na Flip

Pois bem, desfrutando do reconhecimento pelo seu trabalho, Lilia Guerra não só aceitou o convite, como fez uma bela mesa com a escritora chilena Alia Trabucco Zerán. O pano de fundo que permeou a conversa se centrava no fato de que, nos seus últimos romances, ambas tinham escolhido como protagonistas mulheres que trabalhavam em serviços domésticos - um "tipo de gente" que por muito tempo pareceu invisível nas sociedades latino-americanas, inclusive nas produções literárias.

Lilia Guerra contou um pouco sobre seu processo de escrita, sobre a importância de estar ali, naquele palco principal - usando um belo vestido que trazia uma foto de Carolina Maria de Jesus estampado bem no meio do peito -, e claro, falou sobre como o racismo foi uma sombra constante na sua vida, e como o matriarcado do qual ela faz parte (principalmente sua mãe e sua avó) lutou de diferentes formas para que ela tivesse uma vida que pudesse escolher.

Em certa altura, ela leu um trecho do seu livro, no qual a personagem principal é acusada de furto pela patroa. Uma personagem que, a partir de então e por ter que manter seu emprego, passa a usar uma bolsa pequena para evitar novas acusações.

Esse foi um dos momentos mais emocionantes da sua fala. E posso afirmar isso com propriedade porque fui testemunha ocular desta mesa e acompanhei a emoção salpicada de incômodo que se instalou na plateia quando ela descreveu com a pena da ficção uma situação vivida por milhares de mulheres (negras em sua maioria) que trabalham em "casas de família".

O racismo

Logo em seguida, Lilia foi questionada se havia passado por situação semelhante, pois quando jovem ela foi empregada doméstica. Ao responder que "não", a plateia soltou um suspiro aliviado. Todos baixamos a guarda neste momento, numa espécie de confraternização por conta de um final feliz.

Mas a volta do racismo veio rápida. Quinze dias depois, Lilia viveu exatamente o que ela mesma havia ficcionado para sua protagonista, com algum requinte de crueldade. Não sei se de forma torta ou direta Lilia foi acusada de roubo. Uma manta e um lençol. O recado estava dado: a nossa vigilância tem que ser constante, porque o que a população negra vive no Brasil é a presunção da culpa e nunca da inocência em absolutamente todos os lugares em que estivermos.

Por sermos "naturalmente" culpados, Lilia contou no seu texto-denúncia, que seu primeiro movimento foi dizer que "não, óbvio que ela não havia levado o lençol nem a manta". Mas dizer o óbvio cansa e nem sempre resolve a questão. E Lilia, sabedora disso, fez algo que faz com maestria: passou um pente fino no racismo, dando nome a todos os bois.

Não basta estarmos em todos os lugares. É preciso que os lugares também sejam nossos, das pessoas negras. Seja a festa literária, a pousada e a própria literatura. É preciso que possamos estar nos lugares em que queremos estar sem ter que pedir licença, permissão ou desculpas.

Enquanto pousadas despreparadas - que, pasmem, não tinha coberta nem manta para todos os hóspedes numa cidade em que fazia menos de 10 graus à noite - seguirem o eficiente protocolo racista, nós nos manteremos em vigília.

Porque, como a própria Lilia nos ensina, o céu também é dos bastardos.

Deutsche Welle A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
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