Homem é preso suspeito de usar inteligência artificial para manipular imagens de abuso sexual infantil em Porto Alegre
Polícia encontrou mais de 1 terabyte de conteúdo e estima cerca de 35 mil arquivos; segundo a corporação, é a primeira prisão no RS relacionada à manipulação desse tipo de imagem com IA
Um homem foi preso em flagrante em Porto Alegre por armazenar, compartilhar e manipular com inteligência artificial imagens de abuso sexual infantil, marcando a primeira prisão no Rio Grande do Sul sob a nova tipificação do ECA. A Polícia Civil apreendeu mais de 1 terabyte de conteúdo, totalizando cerca de 35 mil arquivos, incluindo imagens reais modificadas e cenas geradas artificialmente. A investigação agora apura a extensão da rede e a possível comercialização do material ilícito.
Um homem foi preso em flagrante na manhã desta quinta-feira (3), em Porto Alegre, suspeito de armazenar e compartilhar arquivos de abuso sexual contra crianças e adolescentes e utilizar inteligência artificial para manipular imagens reais de vítimas. A prisão ocorreu por volta das 7h15, durante o cumprimento de um mandado de busca e apreensão em um apartamento no bairro Sarandi, na Zona Norte da Capital. Segundo a Polícia Civil, esta é a primeira prisão registrada no Rio Grande do Sul pela manipulação, com IA, de imagens envolvendo abuso sexual infantojuvenil, conduta que passou a ser expressamente criminalizada após uma alteração recente no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).
A investigação é conduzida pelo Núcleo de Operações Cibernéticas da Divisão Especial da Criança e do Adolescente (Deca). O Instituto-Geral de Perícias (IGP) também participou da ação.
Durante as buscas, foram apreendidos equipamentos eletrônicos utilizados pelo investigado. Conforme a Polícia Civil, computadores e dispositivos de armazenamento continham mais de 1 terabyte de material relacionado ao abuso sexual de crianças e adolescentes.
A estimativa inicial do IGP é de que o material corresponda a aproximadamente 35 mil arquivos. Os equipamentos passarão por perícia para dimensionar o conteúdo armazenado e auxiliar na identificação da origem e de possíveis destinatários dos arquivos.
Imagens reais eram modificadas com inteligência artificial
Entre os arquivos identificados, a polícia encontrou imagens reais de crianças e adolescentes vítimas de violência sexual que teriam sido posteriormente manipuladas com ferramentas de inteligência artificial.
Segundo o diretor da Deca, delegado André Mocciaro, o investigado utilizava imagens preexistentes para produzir novas representações de abuso. A tecnologia permitia, conforme a investigação, que um único arquivo fosse utilizado como base para a criação de centenas de outros conteúdos.
Além da manipulação de imagens reais, os investigadores identificaram a utilização de inteligência artificial para produzir cenas inteiramente artificiais envolvendo crianças e adolescentes.
A Polícia Civil destaca que, quando a imagem utilizada como base é proveniente de um abuso real, existe uma vítima cuja violência é perpetuada pela manipulação e circulação daquele material.
Suspeito mantinha equipamentos em quarto trancado
O investigado trabalhava durante a madrugada na área de manutenção de uma empresa de ônibus. Ele foi abordado pelos policiais quando retornava para casa após o expediente.
Os equipamentos foram encontrados no quarto utilizado pelo homem no apartamento onde morava com a mãe. Conforme a investigação, o cômodo permanecia constantemente trancado. A mulher afirmou aos policiais que desconhecia as atividades investigadas.
Além de computadores e discos rígidos, foram apreendidos celular, tablet, computador e notebook. O material será submetido a exames periciais mais aprofundados.
Polícia investiga possível venda dos arquivos
A investigação não termina com a prisão. A Polícia Civil busca identificar a origem do conteúdo, eventuais pessoas envolvidas na distribuição dos arquivos e possíveis destinatários.
Os investigadores também apuram se, além de armazenar, produzir e compartilhar o material, o suspeito comercializava os arquivos pela internet.
O homem foi autuado por crimes previstos nos artigos 241-A e 241-B do Estatuto da Criança e do Adolescente, relacionados ao compartilhamento e armazenamento de material de abuso sexual envolvendo crianças e adolescentes. A legislação passou recentemente a abranger expressamente a manipulação e montagem de imagens com inteligência artificial.
RS registra aumento de casos
A prisão ocorre em meio ao crescimento dos registros desse tipo de crime no Rio Grande do Sul. Dados da Secretaria da Segurança Pública apontam 139 ocorrências relacionadas à exploração de imagens de abuso sexual de crianças e adolescentes entre janeiro e julho de 2026. No mesmo período de 2025, foram 92 casos, o que representa aumento de 51%.
Dos registros contabilizados neste ano, 62 envolvem material de abuso sexual infantojuvenil e 77 estão relacionados à divulgação de cenas de estupro, sexo ou pornografia envolvendo menores de 18 anos. Os casos foram registrados em 63 municípios gaúchos. Porto Alegre aparece na liderança, com 23 ocorrências, seguida por Canoas, com 16.
Segundo a Polícia Civil, o crescimento dos registros está relacionado a fatores como aumento das denúncias, maior utilização da internet por crianças e adolescentes, aprimoramento das investigações e mecanismos utilizados pelas plataformas digitais para comunicar atividades suspeitas às autoridades.
A investigação sobre o homem preso nesta quinta-feira continua para determinar a extensão da atuação do suspeito e identificar eventuais outros envolvidos na produção, distribuição ou comercialização do material.
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