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Guerra contra o Irã expõe os limites da governança global

Por que algumas guerras se contêm e outras se alastram? A resposta raramente está apenas no campo de batalha. Está no estado das instituições que deveriam gerenciá-las — e no peso acumulado das crises que vieram antes

7 abr 2026 - 19h32
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O confronto entre Estados Unidos, Israel e Irã — marcado por semanas de ataques aéreos, assassinatos seletivos e ondas de choque nos mercados — pode parecer mais um capítulo de um conflito regional de longa data. Mas sua escala e suas consequências revelam algo mais profundo: desta vez, não é apenas a estabilidade regional que está sob pressão, mas a capacidade de governar o próprio sistema planetário — o conjunto de arranjos institucionais que mantém o clima, a energia e as finanças globais funcionando de forma minimamente coordenada.

Em quatro semanas, segundo fontes militares e de inteligência ainda não verificadas de forma independente, forças dos EUA e de Israel teriam realizado mais de 18 mil ataques a locais de mísseis e infraestrutura energética iranianas, além de assassinatos direcionados de altos funcionários.

O Irã não foi subjugado. Adaptou-se — expandindo seus ataques para além de Israel, atingindo infraestrutura energética nos Emirados Árabes, Catar e Kuwait, e lançando mísseis em direção à Arábia Saudita. A Rússia aumentou seu apoio de inteligência a Teerã. Israel atacou rotas de abastecimento até o Mar Cáspio. Em vez de contenção, o que se vê é uma escalada que se ramifica — e que começa a pressionar arranjos globais muito além do campo de batalha.

Em vez de conter a crise, essas ações a ampliam — e revelam algo que vai além da dinâmica militar. Sob a perspectiva da Governança do Sistema Planetário , crises como esta são moldadas por "resíduos de governança". Esses resíduos são efeitos duradouros de crises anteriores mal resolvidas: instituições enfraquecidas, confiança erodida entre estados, cooperação fragmentada. Cada crise não resolvida deposita novos obstáculos, tornando a seguinte mais difícil de gerenciar e o sistema planetário progressivamente menos governável. O confronto atual não é uma exceção a essa lógica. É o seu produto mais recente.

Quando o Estreito de Ormuz para, o mundo sente

O Estreito de Ormuz é um dos nós mais críticos da economia global: por ele passam cerca de 20% de todo o petróleo e gás comercializados no mundo. Quando o conflito desarticulou o fluxo comercial nessa rota, o efeito foi imediato. Os preços do petróleo superaram US$ 100 por barril, com alguns contratos futuros chegando a US$ 160 — níveis não vistos desde os picos de 2022.

Os mercados financeiros reagiram com força: o Nasdaq Composite entrou em território de correção e o Dow Jones registrou seu pior desempenho mensal em anos. Padrões semelhantes se repetiram na Europa e nos mercados emergentes, particularmente na Ásia, onde economias altamente dependentes de importações de energia foram desproporcionalmente afetadas.

A volatilidade foi amplificada por sinais políticos contraditórios. Uma postagem de Trump anunciando uma pausa temporária nos ataques elevou brevemente os mercados — antes que a incerteza voltasse com força. Declarações subsequentes ameaçando reduzir o Irã à "idade da pedra" sinalizaram não uma saída diplomática, mas uma disposição de ampliar o conflito. Para os mercados, a ausência de qualquer sinalização coordenada entre as potências envolvidas foi tão desestabilizadora quanto os próprios ataques.

A resposta institucional foi rápida, mas revelou seus próprios limites. A Agência Internacional de Energia autorizou uma liberação emergencial de 400 milhões de barris de suas reservas estratégicas — uma das maiores da história. O Federal Reserve adiou os cortes de juros que vinham sendo antecipados pelos mercados. Empresas repassaram o aumento dos custos de combustível aos preços ao consumidor. Cada uma dessas medidas foi racional isoladamente. Mas nenhuma delas endereçou a causa do problema — e todas adicionaram novas pressões sobre sistemas já tensionados por crises anteriores.

O conflito também expôs fraturas entre aliados. A decisão dos EUA de atacar o Irã sem consulta prévia gerou tensões abertas com França, Reino Unido e Japão, — países que dependem criticamente da estabilidade do Golfo para seu abastecimento energético. Essas divisões não são apenas diplomáticas: elas enfraquecem a capacidade de resposta coletiva precisamente no momento em que ela seria mais necessária. É mais um resíduo que se deposita.

Guerra como ruptura ambiental

Guerras modernas que atingem infraestrutura energética não produzem apenas vítimas e deslocamentos — produzem colapsos em cascata que atravessam domínios inteiros de governança. O que começa como uma crise de segurança rapidamente se torna uma crise ambiental, de saúde pública e de gestão de recursos. E cada um desses domínios tem sua própria lógica institucional, seu próprio ritmo de resposta, e sua própria capacidade de acumular resíduos.

Os impactos já observados ilustram essa dinâmica. Ataques a infraestruturas petrolíferas liberaram poluentes tóxicos no ar, expondo milhões de pessoas a riscos respiratórios e cardiovasculares em áreas densamente povoadas. Relatos de precipitação contaminada por resíduos de petróleo em áreas urbanas apontam para uma contaminação que pode se espalhar por solos, plantações e sistemas hídricos muito além das zonas de conflito imediato.

Os efeitos de longo prazo podem ser ainda mais graves. Substâncias perigosas liberadas por ataques a instalações militares e energéticas — combustíveis, metais pesados, resíduos de explosivos — podem persistir no solo e nas águas subterrâneas por décadas. Conflitos anteriores no Golfo Pérsico deixaram um legado ambiental que ainda é estudado hoje. Há razões para acreditar que este não será diferente.

Ataques à navegação e à infraestrutura costeira elevam o risco de derramamentos de petróleo no Golfo Pérsico — um ecossistema marinho já fragilizado por décadas de exploração intensiva. As comunidades pesqueiras e costeiras que dependem desse ecossistema para sua subsistência raramente aparecem nas análises geopolíticas. Mas são elas que carregam, de forma desproporcional, os custos ambientais de conflitos que não escolheram.

Quando a governança de segurança colapsa, ela não colapsa sozinha. Ela arrasta consigo os arranjos mais frágeis ao seu redor — e deixa resíduos em cada um deles.

Uma cascata de crises — e seus resíduos

A situação atual não surgiu do vácuo. Ela é o produto de uma sequência de choques globais que, ao longo de duas décadas, foram deixando para trás camadas sucessivas de resíduos institucionais — cada um tornando o terreno mais instável para a crise seguinte.

A resposta aos ataques normalizou a suspensão de regras internacionais em nome da segurança, criando precedentes que outros estados posteriormente invocariam para justificar suas próprias ações unilaterais. A situação corroeu a confiança na governança econômica multilateral e deixou governos com menos espaço fiscal para absorver choques futuros. Por fim, aprofundou os limites da ação global coordenada, num momento em que a cooperação seria mais necessária. Cada um desses choques foi parcialmente gerenciado. Nenhum foi verdadeiramente resolvido.

A resposta ao 11 de setembronormalizou a suspensão de regras internacionais em nome da segurança. A crise financeira de 2008corroeu a confiança na governança econômica multilateral. A pandemia de COVID-19 expôs os limites da ação coordenada. Cada choque foi contido. Nenhum foi resolvido.

Mais recentemente, as tensões em torno do financiamento climático e das transições energéticas adicionaram novas camadas de pressão. O aumento da dívida soberana, a retração no financiamento climático e a crescente competição por recursos energéticos tornaram a cooperação mais frágil e mais seletiva — os estados cooperam quando convém, e recuam quando o custo interno é alto demais.

Esse padrão ajuda a explicar por que o colapso do Plano de Ação Conjunto e Abrangente— o acordo nuclear com o Irã — não foi apenas um revés diplomático, mas um sinal estrutural.

Quando os EUA se retiraram unilateralmente em 2018, ficou demonstrado que compromissos multilaterais podiam ser desfeitos por uma única decisão presidencial. Para o Irã, e para outros atores, a mensagem foi clara: acordos não garantem segurança. O que garante segurança é a capacidade de infligir custos ao adversário. Essa lógica, uma vez internalizada, é muito difícil de reverter — e é precisamente ela que estrutura o confronto atual.

O padrão não se limita ao Oriente Médio. Intervenções recentes em outras regiões produtoras de recursos — interpretadas por analistas como parcialmente motivadas por considerações estratégicas de acesso à energia — reforçam a percepção de que as regras do sistema internacional estão sendo reescritas na prática, mesmo quando permanecem formalmente intactas. Cada episódio desse tipo deposita um novo resíduo: menos confiança, menos disposição para acordos de longo prazo, mais tendência à disrupção como estratégia.

O resultado cumulativo não é caos aleatório. É um sistema que aprendeu, progressivamente, a funcionar sem as instituições que foram construídas para estabilizá-lo.

Por que a disrupção está se tornando uma estratégia

Sem acesso a acordos estáveis ou garantias institucionais confiáveis, o Irã concentrou-se em explorar as vulnerabilidades de um sistema global altamente interdependente. Ao alvejar rotas de navegação e infraestrutura energética, não busca apenas vencer militarmente — busca tornar o custo do conflito insuportável para economias muito além do campo de batalha. É nesse contexto que a disrupção deixa de ser um instrumento de último recurso e passa a ser uma estratégia racional iraniana.

O perigo está no ciclo que isso cria. Ataques militares e pressão econômica podem produzir resultados de curto prazo, mas aprofundam a fragmentação institucional que torna a disrupção atraente em primeiro lugar. Cada rodada de escalada deposita mais um resíduo — menos confiança, menos canais de comunicação, mais atores convencidos de que a única linguagem que funciona é a do custo imposto.

Os limites dessa lógica já são visíveis — e perturbadores. Quando os EUA ameaçaram atacar usinas elétricas e sistemas hídricos iranianos, dos quais milhões de civis dependem, a menos que o Estreito fosse reaberto, a pressão deslocou-se do impasse militar para o castigo coletivo. Nesse ponto, a disrupção como estratégia não apenas mina a legitimidade do adversário — ela mina a de quem a emprega.

Menos confronto, mais coordenação

O confronto com o Irã expõe a ausência de um caminho multilateral confiável para a desescalada. Potências médias como Egito, Turquia e Paquistão têm tentado preencher esse vácuo, mas sem um quadro único capaz de reunir todas as partes de forma consistente. Agrupamentos como o BRICS+ ainda não conseguiram traduzir alinhamento político em mediação sustentada.

O problema é estrutural. Existem mecanismos de coordenação — mas são fragmentados, de escopo limitado e construídos para um mundo menos belicoso do que o atual. Enquanto isso não mudar, ações que parecem eficazes no curto prazo continuarão gerando incertezas de longo prazo. Até que mecanismos como controle de armas verificável, monitoramento energético independente e canais neutros de comunicação de crise sejam fortalecidos, conflitos como este tendem a se tornar mais frequentes — e mais difíceis de conter.

Responder às crises de hoje exige reconhecer os limites da própria resposta. Esse pode ser o desafio mais difícil — e mais urgente — da governança global na próxima década.

The Conversation
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Foto: The Conversation

Helder do Vale não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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