Script = https://s1.trrsf.com/update-1770314720/fe/zaz-ui-t360/_js/transition.min.js
PUBLICIDADE

Guerra contra Irã expôs fragilidade dos combustíveis fósseis, mas caminho para energia mais limpa ainda é incerto

A segurança energética pertence cada vez mais aos Estados capazes de manter uma parcela maior de sua economia em funcionamento quando o petróleo e o gás são interrompidos, graças a alternativas energéticas mais limpas e diversificadas

20 mar 2026 - 12h30
Compartilhar
Exibir comentários

Quando as forças americanas e israelenses lançaram sua ofensiva contra o Irã em 28 de fevereiro, as primeiras baixas foram além do regime iraniano e de sua infraestrutura militar. A guerra também destruiu a premissa que vigorou por meio século — a de que os hidrocarbonetos do Golfo continuariam a fluir, independentemente das tensões, da política e das ameaças. Essa crença sustentou os mercados de energia e o planejamento estratégico por cinquenta anos. Ela não sustenta mais.

Desde então, os ataques danificaram o campo de gás de South Pars, no Irã, atingiram o hub de GNL de Ras Laffan, no Catar, e se espalharam por instalações energéticas em todo o Golfo. O tráfego de navios-tanque foi interrompido no Estreito de Ormuz, o ponto de estrangulamento energético mais importante do mundo.

Em condições normais, cerca de um quinto do petróleo, dos líquidos derivados e do GNL globais passa por ali. Os preços do gás dispararam, as cadeias de abastecimento de fertilizantes estão sob pressão, e o mundo enfrenta agora um choque energético global de proporções graves.

Para a Ásia, as consequências são imediatas. Japão e Coreia do Sul estão fortemente expostos à escassez de petróleo bruto e GNL do Golfo. A China ainda obtém parcela expressiva de seu petróleo importado do Oriente Médio. A Europa é menos vulnerável do que era após a invasão russa da Ucrânia, mas está longe de estar confortável. Os EUA, como grande produtor, estão mais isolados do que a maioria. Ainda assim, nem mesmo a América consegue escapar dos efeitos de preço de um mercado petrolífero global em convulsão.

Sem saída à vista

Não há sinal de um desfecho próximo. Em meados de março, o Irã havia atacado instalações energéticas no Catar, na Arábia Saudita, no Kuwait e nos Emirados Árabes Unidos em retaliação aos ataques contra South Pars. O Pentágono solicitou US$ 200 bilhões adicionais para a guerra. O secretário de Defesa Pete Hegseth prometeu pacotes de ataque mais amplos e não ofereceu qualquer prazo para o encerramento do conflito. Ninguém — em Washington, Teerã ou no Golfo — consegue afirmar com segurança o que isso terá se tornado daqui a seis meses.

Essa incerteza é, por si só, uma força econômica. Ela congela decisões de investimento, infla prêmios de risco e torna o planejamento energético de longo prazo mais difícil precisamente quando mais se precisa dele. As perspectivas de investimento dependem fortemente da duração do conflito. Um conflito curto, seguido de um acordo negociado, permitiria que os incumbentes se recuperassem. Os cronogramas de GNL sofreriam atrasos, mas sobreviveriam. O ciclo familiar de crise seguida de complacência poderia retornar.

Um conflito medido em meses causaria danos mais duradouros. Forçaria uma reprecificação estrutural do risco do Golfo entre fundos soberanos, grandes petroleiras e credores de "project finance". Também remodelaria as perspectivas globais de GNL para o final da década de 2020. Uma guerra de múltiplos anos iria ainda mais longe: tornaria o argumento estratégico para as energias renováveis imensamente mais forte — não apenas por razões climáticas, mas por razões de segurança e de ordem econômica. Os investidores que alocam capital hoje estão, na prática, apostando em qual desses mundos acreditam que está por vir.

A linha divisória verde

O choque, porém, não está recaindo de forma homogênea, e isso importa. A nova linha divisória não separa simplesmente exportadores de importadores. Separa, cada vez mais, os países que investiram cedo em energia limpa doméstica, eletrificação do transporte e diversificação de combustíveis, daqueles que permaneceram atados aos hidrocarbonetos importados e a rotas marítimas frágeis.

A China é o caso mais consequente. Continua exposta ao petróleo do Golfo, mas muito menos do que estaria há uma década. Sua enorme expansão em energia eólica, solar, baterias e veículos elétricos transformou a economia por onde o choque agora passa. Uma ruptura que antes teria atingido de cheio tanto o setor de energia quanto o de transportes recai hoje sobre um sistema mais eletrificado, mais diversificado e mais protegido domesticamente.

O Brasil oferece uma resiliência de outra natureza. Seu sistema elétrico funciona com energia renovável doméstica. Mas sua força real está no transporte. Décadas de investimento em etanol e veículos flex significam que o país não absorve os choques do petróleo da mesma forma que economias cuja mobilidade permanece inteiramente dependente do petróleo. Numa era de insegurança nos hidrocarbonetos, a substituição de combustíveis é uma forma de isolamento estratégico.

Noruega, Espanha, Portugale Uruguai ilustram variações sobre o mesmo tema. Têm setores elétricos ancorados domesticamente e menor parcela de sua energia à mercê de combustíveis importados que percorrem rotas marítimas vulneráveis. Cada um desses países entrou nesta crise com uma margem de proteção. Cada um sente a pressão inflacionária mais ampla. Nenhum enfrenta um choque existencial na rede elétrica.

A transição para a energia verde é a verdadeira lição estratégica das últimas três semanas. Num mundo de pontos de estrangulamento transformados em armas, a segurança energética já não pertence apenas aos Estados com reservas de petróleo, terminais de exportação ou poder naval. Pertence, cada vez mais, aos Estados capazes de manter uma parcela maior de sua economia em funcionamento quando o petróleo e o gás são interrompidos — porque sua eletricidade é mais limpa, seu transporte é mais eletrificado, seus combustíveis são mais diversificados, ou as três.

A China pode ainda sair desta crise com um dividendo geopolítico que ultrapassa suas fronteiras. Passou anos construindo não apenas capacidade doméstica de energia limpa, mas dominância industrial nas tecnologias hoje mais valiosas para os Estados com insegurança energética: painéis solares, baterias, veículos elétricos e equipamentos de rede. À medida que os governos buscam com urgência maneiras de reduzir sua exposição aos choques dos combustíveis fósseis, descobrem que o caminho mais rápido frequentemente passa pelas cadeias de abastecimento chinesas.

Nenhum governo quer trocar uma dependência por outra. Mas há uma distinção crucial entre depender de combustíveis importados e depender de equipamentos importados. O petróleo precisa continuar chegando. O gás pode ser cortado no meio de uma crise. Painéis solares, baterias e veículos elétricos, uma vez instalados, começam a reduzir a exposição à próxima ruptura. Podem aprofundar a dependência industrial, mas são capazes de diminuir a dependência energética. Não é um argumento climático. É um argumento de engenharia — ainda que com suas próprias complicações geopolíticas.

Para onde vai o dinheiro

Os fluxos de capital gerados por esta crise não se dirigem apenas para a energia limpa. Os vencedores inequívocos de curto prazo nos mercados de ações são os produtores de combustíveis fósseis fora da sombra de Ormuz. Os operadores do xisto americano estão hedgeando a produção de 2026 e 2027 a preços que tornam suas economias altamente atrativas. A Petrobras — produzindo bem além do alcance das perturbações do Golfo, com receitas denominadas em dólares e vendendo para um mercado interno em parte isolado pelo etanol — se encontra numa posição estruturalmente invejável.

Do outro lado do balanço, os investidores expostos a infraestruturas de combustíveis fósseis no Golfo enfrentam um ajuste de contas simultâneo: danos físicos, encalhamento operacional e crescente pressão política por uma desativação antecipada dos ativos. Os efeitos secundários dessa reprecificação de capital estão se propagando pelos fundos soberanos e pelos balanços das grandes companhias petrolíferas internacionais de formas que os mercados ainda não refletem plenamente. A narrativa da transição e a narrativa dos ativos encalhados correm em paralelo, não em sequência.

A lição da história, repetida

A posição dos EUA é a mais autodestrutiva de todas. Washington ajudou a desencadear uma guerra que expôs a nu a insegurança do sistema de hidrocarbonetos, ao mesmo tempo em que enfraquecia o arcabouço político e industrial que permitiria à América colher o maior benefício da transição que se seguirá. Incentivos à energia limpa foram cortados. O apoio aos veículos elétricos, reduzido. A energia eólica offshore, limitada. A incoerência estratégica é gritante. O mesmo país que contribuiu para revelar os custos da dependência dos combustíveis fósseis está desmantelando as ferramentas necessárias para escapar deles.

A história sugere que choques dessa natureza podem se tornar pontos de inflexão. Crises do petróleo anteriores aceleraram a expansão nuclear, iniciativas de eficiência energética e a diversificação de combustíveis. A invasão russa da Ucrânia, em 2022, forçou a Europa a avançar mais rapidamente em renováveis, armazenamento e segurança energética do que muitos julgavam politicamente possível. As crises concentram as mentes. Também concentram o lobby, e a indústria dos combustíveis fósseis não é passiva. Se a guerra contra o Irã de 2026 irá acelerar a transição ou apenas redistribuir seus epicentros dependerá de escolhas que ainda não foram feitas, em condições que ainda não estão claras.

O problema mais profundo que esta guerra expôs não é apenas a volatilidade. É a dependência estrutural de um sistema energético construído em torno de uma geografia combustível: pontos de estrangulamento estreitos, reservas concentradas e combustíveis cujo preço pode ser redefinido da noite para o dia por mísseis, minas e perturbações marítimas. Os países que investiram cedo em energia limpa doméstica, eletrificação e substituição de combustíveis entraram nesta crise com uma margem de proteção. Os que não o fizeram estão pagando, novamente, pelo adiamento.

O argumento estratégico para acelerar a transição nunca foi tão claro. As condições políticas, financeiras e industriais para fazê-lo raramente foram tão complicadas. Os governos que tratarem esta guerra como um choque de preços temporário aprenderão a lição errada. Os que a tratarem como um alerta estratégico ainda poderão agir a tempo — embora a janela, e o caminho, sejam mais estreitos do que os otimistas sugerem.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

O Dr. Robert Muggah é cofundador do Instituto Igarapé e do SecDev, um grupo de segurança digital. Membro da Universidade de Princeton, da Academia Robert Bosch e de outras organizações, o Dr. Muggah assessora as Nações Unidas, o FMI, o BID e o Banco Mundial. Ele também apoia startups nas áreas de natureza e inteligência artificial.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
Compartilhar
Publicidade

Conheça nossos produtos

Seu Terra












Publicidade