Governo de Meloni se torna o mais longevo da Itália moderna
O governo de Giorgia Meloni se tornou o mais longevo da Itália moderna ao alcançar 1.413 dias consecutivos no poder, superando a marca histórica de Silvio Berlusconi. Primeira mulher a liderar o país, a premiê de ultradireita garantiu estabilidade inédita a uma nação marcada por crises políticas. Apesar de manter a liderança para as eleições de 2027, Meloni enfrenta desafios crescentes, como derrotas em reformas-chave, estagnação salarial e forte oposição econômica e política.
Premiê completou 1.413 dias consecutivos no cargo, um a mais que uma das administrações de Berlusconi, que detinha recorde anterior. Itália, que já teve 68 governos em 80 anos, prepara-se para eleições no ano que vem.O governo de ultradireita de Giorgia Meloni se tornou, nesta sexta-feira (04/09), o mais duradouro da história do pós-guerra na Itália. Em um país que já foi sinônimo de instabilidade política, o governo da primeira mulher a liderar o país completou 1.413 dias consecutivos no cargo de premiê, um a mais do que o falecido Silvio Berlusconi durante um o segundo (2001-2005) dos seus quatro mandatos.
"Hoje, nosso governo se torna o que mais tempo permaneceu no poder na história da República Italiana", escreveu Meloni no X. "Recebo isso com gratidão e um forte senso de responsabilidade. Pois a estabilidade não é um recorde a ser exibido, mas a condição que permite a uma nação planejar, decidir, cumprir seus compromissos e ser respeitada", completou ela.
A Itália já teve 68 governos nos últimos 80 anos. As gestões anteriores foram derrubadas por crises e deserções, o que Meloni conseguiu evitar até agora. Vários apoiadores viajaram para a capital da região de Puglia, no sul do país, para uma festa organizada pelo partido de Meloni, Irmãos da Itália (FdI), em uma área do porto com capacidade para até 10 mil pessoas, segundo os organizadores.
Meloni se dirigirá à multidão no início da noite, e espera-se que seus vice-primeiros-ministros, Matteo Salvini e Antonio Tajani, participem por videoconferência de um evento que, na prática, funciona como um comício eleitoral antecipado para as eleições de 2027.
Com o FdI liderando as pesquisas de opinião, Meloni surge como favorita. Mas os acontecimentos recentes complicaram o caminho para a reeleição, aponta Lorenzo Pregliasco, do instituto de pesquisas YouTrend, à agência de notícias France-Presse (AFP).
Neste ano, Meloni já sofreu uma derrota no referendo sobre a reforma do sistema judiciário, que mostrou aos eleitores que "pode haver uma maioria alternativa" à coalizão atualmente no poder, disse Pregliasco.
Críticas
A derrota esmagadora também levantou questões sobre a capacidade de gestão de Meloni. Com planos para fortalecer os poderes de primeiro-ministro e aumentar a autonomia regional, a reforma foi uma das três principais promessas da coalizão que o governo, até o momento, não conseguiu cumprir.
Críticos afirmam que os resultados ficaram bem aquém das expectativas também em outras áreas, principalmente porque a premiê conta com ampla maioria parlamentar. "Essa estabilidade não foi aproveitada", disse Chiara Braga, líder do grupo parlamentar do Partido Democrático, da oposição de centro-esquerda.
"Ela não levou a nenhuma melhoria significativa no padrão de vida da população nem na competitividade das empresas".
A previsão é que a economia italiana cresça apenas 0,6% em 2026, enquanto os salários reais permanecem praticamente estagnados desde o início da década de 1990. O desemprego caiu de mais de 7% para cerca de 5% nos últimos quatro anos, mas o número de pessoas economicamente inativas - aquelas que poderiam trabalhar, mas não estão procurando emprego - continua alto.
"Esse governo tem buscado principalmente sobreviver" ao "fazer o mínimo possível", disse Tito Boeri, economista da Universidade Bocconi, de Milão.
Os defensores de Meloni rebatem que a premiê reduziu impostos e aumentou a arrecadação tributária, trouxe disciplina fiscal ao país altamente endividado e conquistou para a Itália um papel mais relevante no cenário global em um momento geopolítico conturbado. "No que diz respeito à política externa, a Itália nunca foi tão central, especialmente na Europa", disse Osnato, observando que, desde o endurecimento das regras de imigração até a política energética, Roma é agora considerada uma força motriz em Bruxelas.
Possíveis obstáculos para a reeleição
Apesar da estabilidade sem paralelo na política italiana, onde em média os governos duram 13 meses, Meloni tem uma tarefa árdua pela frente para conseguir ser reconduzida nas eleições legislativas previstas para 2027.
A centro-esquerda ganha força, embalada por alguns triunfos em eleições locais e pela vitória alcançada no referendo sobre a reforma do Judiciário. Além disso, surgiu este ano, ainda mais à direita do Fdl de Meloni, um novo partido radical, o Futuro Nacional, que ameaça retirar votos dos três partidos no poder.
De acordo com uma sondagem da Youtrend para a cadeia Sky TG24, publicada nesta sexta-feira, 53% dos entrevistados responderam que a Itália segue na "direção errada" sob a liderança de Meloni, enquanto 31% veem o país na "direção certa" - 16% não responderam.
Fcl (AFP, EFE, Lusa)
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