Governo alemão discute barrar AfD de plano secreto de defesa
O governo da Alemanha avalia restringir o acesso a dados sigilosos do Plano Operacional de Defesa caso o partido de ultradireita Alternativa para a Alemanha (AfD) assuma a gestão da Saxônia-Anhalt. A medida busca impedir vazamentos a Moscou, devido ao alinhamento pró-Rússia da legenda e seu monitoramento por extremismo. Enquanto o Ministério da Defesa ressalta que o compartilhamento já é restrito e seletivo, a AfD contesta as possíveis restrições, classificando-as como antidemocráticas.
Sob temor da influência de Moscou, autoridades avaliam medidas para restringir o compartilhamento de dados estratégicos caso a legenda de ultradireita passe a integrar a administração do estado de Saxônia-Anhalt.O governo alemão discute formas de impedir que a Alternativa para a Alemanha (AfD) tenha acesso a informações sigilosas de defesa caso o partido passe a integrar o governo do estado da Saxônia-Anhalt. A preocupação envolve o chamado Plano Operacional da Alemanha (O-Plan), um documento confidencial de cerca de mil páginas que estabelece os preparativos do país para um eventual conflito envolvendo a Rússia.
Segundo o jornal The New York Times, autoridades federais avaliam medidas para restringir o acesso da AfD a informações sensíveis caso o partido consiga formar governo no estado. Embora tenha vencido as eleições parlamentares regionais com 43,8% dos votos, a legenda ainda depende da formação de uma coalizão para assumir o comando da administração estadual.
O temor, segundo a reportagem, é que informações estratégicas acabem chegando a Moscou. A AfD é vista por opositores como simpática à Rússia por defender o fim da ajuda militar alemã à Ucrânia, além de argumentar que a Rússia age em legítima defesa.
Lideranças nacionais do partido já expressaram admiração pelo presidente russo, Vladimir Putin, ou minimizaram a gravidade do Holocausto. Na Saxônia-Anhalt, o diretório da legenda é classificado pelo Departamento para a Proteção da Constituição como organização extremista de direita, o que permite sua vigilância pelos serviços de segurança.
O New York Times ouviu funcionários que descreveram esforços para impedir que um eventual governo estadual liderado pela AfD tenha acesso a segredos de Estado ou interfira na cooperação entre diferentes níveis de governo.
Segundo a rede alemã RND e o jornal Frankfurter Allgemeine Zeitung, o ministro alemão da Defesa, Boris Pistorius, já teria se manifestado favorável à ideia em uma reunião com parlamentares responsáveis por temas de defesa.
Entre as medidas consideradas estariam a limitação do acesso da Saxônia-Anhalt a determinadas informações, mudanças nas regras de cooperação entre os estados e a restrição do acesso da AfD a arquivos sensíveis devido ao fato de parte da legenda estar sob monitoramento das autoridades federais.
Segundo as fontes, a Alemanha já teria assegurado também a países aliados que determinadas informações de inteligência não seriam compartilhadas com representantes da AfD. A capacidade do governo do estado de prevenir ataques terroristas ou responder a emergências não seria afetada. Em contrapartida, dados relacionados à Rússia, a grupos de extrema direita ou a investigações envolvendo o próprio partido poderiam ser retidos.
AfD critica possíveis medidas
A preocupação com um eventual vazamento de informações para Moscou já havia sido levantada na semana anterior, após a vitória da AfD na Saxônia-Anhalt. Na ocasião, Bastian Ernst, político da União Democrata Cristã (CDU) e presidente da Associação dos Reservistas da Alemanha, defendeu que o O-Plan fosse retirado do alcance do estado antes que a legenda pudesse integrar o governo.
"Se a AfD vier a formar governo na Saxônia-Anhalt, o O-Plan quase certamente acabará vazando para a Rússia", afirmou Ernst.
Em entrevista ao jornal Bild, Pistorius também indicou que a proximidade política da AfD com Putin seria "difícil de ignorar". O ministro integra o Partido Social-Democrata (SPD), que faz parte da coalizão governista federal liderada pela CDU.
As medidas, porém, podem acabar sendo contestadas judicialmente.
Jan Nolte, porta-voz da AfD para temas de defesa no Bundestag, afirmou à DW na última semana que excluir a Saxônia-Anhalt do planejamento militar criaria uma vulnerabilidade na segurança nacional. "Quem remove este estado do planejamento de defesa abre uma lacuna na defesa nacional e coloca em risco cidadãos em toda a Alemanha", disse.
Segundo Nolte, o estado ocupa posição estratégica na rede logística da Otan para o leste europeu, tornando-se indispensável em qualquer coordenação militar em tempos de guerra. Ele também afirmou que a AfD permanece "firmemente comprometida com a defesa do país e de suas alianças".
Ao New York Times, o porta-voz da legenda, Jörg Herrmann, declarou que seria "totalmente antidemocrático" negar informações de inteligência ao partido com base em acusações que considerou infundadas e impossíveis de provar.
Berlim minimiza a necessidade de mudanças
Oficialmente, porém, o governo alemão afirma não ver motivo para alterar os atuais procedimentos relativos ao O-Plan.
De acordo com um porta-voz do Ministério da Defesa, as partes mais sensíveis do plano já são compartilhadas apenas de forma seletiva. Cada órgão recebe exclusivamente as informações necessárias para executar suas tarefas, e o documento completo não é enviado aos estados federados.
Os comandos estaduais das Forças Armadas atuam como principais interlocutores nos estados e detêm a visão geral do plano. Eles repassam apenas os trechos necessários à preparação e à execução das medidas de defesa em âmbito local.
O porta-voz acrescentou que todos os destinatários das informações passam por avaliação rigorosa, não apenas na Saxônia-Anhalt, e que somente os dados estritamente necessários são compartilhados. Em alguns casos, as informações podem ser adaptadas para versões menos sensíveis.
Segundo ele, esse procedimento continuará sendo aplicado "sem qualquer restrição, independentemente de como a situação evolua".
Plano prevê mobilização militar em larga escala
O Comando Territorial das Forças Armadas elaborou o O-Plan em 2024, criando pela primeira vez desde o fim da Guerra Fria um plano integrado de defesa nacional.
Militares alemães avaliavam que a Rússia poderia estar apta a atacar a Otan a partir de 2029. No entanto, episódios recentes de espionagem, sabotagem e violações do espaço aéreo europeu alimentaram preocupações de que um confronto possa ocorrer antes desse prazo.
Em uma eventual guerra entre a Rússia e a Otan, a Alemanha desempenharia papel central devido à sua posição geográfica, servindo como principal corredor logístico para o deslocamento de tropas.
Entre as medidas previstas estão a adaptação de rodovias para funcionarem como pistas de pouso, a construção rápida de estruturas temporárias para acomodar militares e uma ampla operação logística para deslocar cerca de 800 mil soldados alemães, norte-americanos e de outros países da Otan.
gq/md (OTS, DPA)
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