Fact-checking não basta para combater fake news, revela estudo
Experimentos mostram que o problema da desinformação se baseia na confiança social. Enfrentamento depende mais de educação e regulamentação do que de fact-checking, acreditam especialistas.Em maio de 2020, o então presidente Jair Bolsonaro foi fotografado em um evento no qual era abençoado por apoiadores evangélicos, que direcionavam suas mãos a ele. Opositores do político de extrema-direita viram ali uma oportunidade de espalhar fake news: tiraram a imagem de contexto e espalharam o boato de que se tratava de apoiadores reverenciando Bolsonaro com o mesmo gesto utilizado pelos nazistas alemães ao saudarem o chanceler Adolf Hitler (1889-1945).
Agências de checagem se apressaram a publicar matérias dizendo que a informação era falsa — e explicando que se tratava de um evento religioso evangélico. Não adiantou. A foto com a informação falsa viralizou naqueles dias, sobretudo entre os contrários à política bolsonarista.
Faltando menos de cinco meses para as eleições no Brasil, um estudo acadêmico revelou aspectos preocupantes do fenômeno da desinformação. E demonstrou que fact-checking não basta para combater fake news — em um cenário que deve ser ainda mais complexo, com a consolidação dos recursos de inteligência artificial generativa.
O ponto mais alarmante identificado pela pesquisa é que mais da metade das pessoas submetida a um conteúdo falso costuma compartilhar a mensagem em suas redes — mesmo não acreditando que se trata de uma verdade. Em números, quando expostos à uma fake news em experimento, 28,7% dos participantes da pesquisa acreditaram nela. Mesmo assim, 52,6% indicaram intenção de espalhá-la a alguém próximo.
A pesquisa, realizada por quatro professores da ESPM e do Insper, ambos de São Paulo, acaba de ser publicada em revista acadêmica.
Para contribuir para a educação midiática dos usuários de redes sociais, os pesquisadores prepararam uma cartilha com base no estudo — em breve, ficará disponível para download. O material, voltado ao público geral, pretende contribuir para a conscientização dos usuários de redes sociais neste ano eleitoral.
Credibilidade vem das relações
"O combate à desinformação tem se concentrado em checagem e remoção de conteúdo, e isso é necessário, mas insuficiente. Nosso estudo mostra que a desinformação se espalha porque está embutida em relações de confiança", conta o publicitário e administrador de empresas Eduardo Mesquita, professor na ESPM e o autor principal do trabalho. "Quando alguém em quem confiamos, um amigo, um familiar, um professor, um médico, um influenciador, repassa uma mensagem, a tendência é aceitar e redistribuir sem checar. O efeito é ainda mais forte quando a mensagem parece socialmente relevante, ou seja, quando achamos que pode proteger ou ajudar alguém próximo."
A pesquisa foi realizada a partir de três experimentos sociais conduzida com 914 participantes voluntários entre 2022 e 2025. Segundo Mesquita, foram manipulados os fatores como a credibilidade de quem enviava a mensagem e a relevância atribuída ao conteúdo, para que então fossem medidos os resultados na audiência.
O estudo concluiu que a origem da mensagem importa muito para quem a recebe. Metade dos participantes recebeu a notícia de uma fonte percebida como confiável — alguém em quem a pessoa confia socialmente. A outra metade veio de fonte sem credibilidade prévia. No primeiro caso, 59.9% disseram que queriam compartilhar. No segundo, 45,7%. De acordo com os pesquisadores, essa diferença de 14 pontos percentuais mostra o quanto a identidade do emissor modula o comportamento com mais intensidade do que a avaliação do conteúdo em si.
Em linhas gerais, o trabalho demonstra que a engrenagem das fake news se estrutura a partir de três fatores centrais. Em primeiro lugar, há um fenômeno chamado de transferência de credibilidade: se o receptor confia no emissor, ele age com um relaxamento do seu próprio senso crítico sobre o conteúdo. Em outras palavras: sua mãe tende a acreditar na notícia que você enviar para ela, por mais absurda que essa notícia pareça.
Um desdobramento disso é o que os pesquisadores chamam de atalho cognitivo. Em um ambiente repleto de informações, o cérebro tende a driblar o excesso justamente aceitando como plausível aquilo que vem de fonte familiar.
Por fim, as mensagens percebidas como úteis ou importantes para a rede de amigos e parentes acabam tendo um potencial de serem compartilhadas com mais frequência. A pessoa acredita que está fazendo algo de positivo. E isso explica tantas fake news em tempos catastróficos, como durante a pandemia de covid-19, bem como aquelas mensagens que a gente recebe de familiares com curas milagrosas cheias de pseudociência.
Fact-checking é insuficiente
Professora assistente e pesquisadora na Universidade Politécnica de Lappeenranta, na Finlândia, a jornalista Regina Cazzamatta, especialista no estudo de desinformação, afirma que já é conhecido o fato de que o fact-checking e a derrubada de conteúdo falso não são uma panaceia para resolver o problema. "Temos a tendência de acreditar em informações que estão alinhadas à nossa percepção e visão de mundo", salienta ela.
Na dúvida, é melhor ficar com um pé atrás. "Talvez uma das chaves seja justamente essa: ensinar a desconfiar, não no sentido de romper relações de confiança, mas de entender que confiança pessoal não substitui verificação", afirma o cientista da comunicação Paulo Rodrigo Ranieri, professor de narrativas digitais na Universidade Presbiteriana Mackenzie. "Creio que conscientizar para o exercício de uma cidadania digital não seja apenas informar melhor, mas criar uma cultura em que as pessoas se sintam responsáveis pelo que compartilham".
O modelo do fact-checking é essencial, mas chega tarde. Como enxugar gelo. É o que argumenta a jornalista Maria Paola de Salvo, fundadora e CEO da plataforma de inteligência artificial EasyTelling e ex-coordenadora no Brasil do programa Grand Challenges da Fundação Bill & Melinda Gates. "O estudo é preciso ao deslocar o eixo do problema: desinformação é só uma falha informacional, é um fenômeno social", avalia ela.
"As pessoas não compartilham conteúdo principalmente porque acreditam nele, mas sim porque confiam em quem enviou. O problema não está apenas na mensagem, mas no canal afetivo por onde ela passa", acrescenta Salvo.
Vacina contra fake news
Na visão de Cazzamatta, esse cenário torna o trabalho dos checadores ainda mais difícil. Por isso, afirma ela, cada vez mais organizações estão aliando ao trabalho da checagem o chamado prebunking, ou seja, uma vacinação psicológica.
A tática é assumir uma postura proativa de combate à desinformação, avisando as pessoas sobre tentativas de manipulação de conteúdo antes mesmo que essas ocorram. "A ideia é agir a partir de análises prévias do que vai explodir. E combater a desinformação antes que os pepinos se espalhem", contextualiza Cazzamatta.
Ao expor o público a formas diluídas de desinformação, desconstruindo os discursos tipicamente enganosos, o público desenvolve uma resiliência cognitiva.
Um exemplo muito interessante desse tipo de abordagem é o jogo Bad News, desenvolvido com participação de pesquisadores da Universidade de Cambridge justamente para demonstrar como as fake news funcionam — e conscientizar as pessoas a não compartilhá-las.
Cazzamatta lembra ainda que o problema está na escassa regulamentação — e nos meios de responsabilização — das plataformas. "A desinformação é uma falha no sistema [das redes sociais], é parte do modelo de negócio dessas plataformas sociais", ressalta.
Ela lembra ainda que, se na Europa está em vigor o Digital Services Act (DSA) desde 2024, buscando regular as redes e combater conteúdos ilegais, no Brasil esse tipo de proteção ainda não existe.
Em ano eleitoral, o potencial de dano é imenso. "Tudo isso ganha intensidade maior", avalia o professor Ranieri. "A desinformação não circula de forma neutra. Ela se conecta diretamente com identidade e emoção, e também com o posicionamento político".
Com as ferramentas de IA, acrescenta ele, "a capacidade de produzir conteúdo em larga escala, com aparência de legitimidade", deve agravar o quadro.
Os especialistas concordam que contra a desinformação é preciso muita conscientização dos cidadãos, além do trabalho de checagem, da produção jornalística consciente e de ferramentas que as plataformas de redes sociais podem empregar para derrubar esse tipo de conteúdo.
Comentários
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.